Metagrafia n°8

Postado em Metagrafia em dezembro 23, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Agradeço ao apoio de todos que desceram as escadas e entraram pela porta dos fundos desse recinto mofado, as únicas portas que sempre estiveram abertas.

Quero, como ser que escreve, a metamorfose plena e dinâmica.

O Blog me molda, me acorrenta e me confina numa masmorra literária (2×2). Não é que eu desgoste, mas o sol lá fora brilha forte e morno enquanto escrevo sobre os temores do carrasco da escuridão.

Ainda tenho fôlego. Não vou desistir da poesia, prosa, proesia, ou como quiser chamar; Não é minha intenção.

Qualquer dia desses apareço com uma ideia, um contexto diferente, que é o que procuro agora, e volto a expor minhas engrenagens que estão sempre a mil.

Estarei sempre por aqui corrigindo os desvios ortográficos e semânticos que ainda me escapam, mas não creio que voltarei a postar nesse espaço.

Afetuosamente,

Gabriel Torres de Castilho Gil (ainda matando traças, esticando as pernas e abrindo janelas)

Canvas(ta) amnésia visual

Postado em Devaneios em dezembro 23, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Não seria fácil pensar na saturação, na nitidez que a tela de seu mundo perde aos poucos. Não haveria mesmo.

Não há de ser fácil e nostálgico pensar que os anos passantes jogam sabão na tinta a óleo que esboçava  tua vida

Definitivamente não há de ser fácil aceitar que a vivacidade das cores deve ser transferida para distância das memórias.

Não será fácil entender que o dia-após-dia compõe uma troca, uma troca injusta em que se dá vinho tinto, morangos no pé  e urucum e recebe-se sonhos mal-lembrados, água com gás e giz de quadro.

Não deseje que seja fácil voltar em nativismo e tentar ir embora ao fim do dia. Girar a chave do carro e esperar, esperar sua mente parar de girar, enterrar o acelerador e decolar – já freando – em direção à aurora tropical que plana em seu passado. Você pode sair da porcaria do carro a hora que quiser, chutar a roda como um imbecil e transformar seu rosto naquele aquarelado mal acabado. Mas corre para o lago descalço, grita! Dê um pulo, longo pulo. Volte aos seus nove anos e pelo menos finja que não liga para o que os outros rascunham sobre o que estão vendo. Convença-se de que, em opaca realidade, querem todos resgatar a obra-prima de suas vidas, em nítida realidade, todos também queriam que a tinta estivesse fresca fresca. Pule novamente! Mais alto! E Salte no lago, banhe-se na têmpera azul que coloriu o céu de uns doze anos atrás, se ela não fixar e escorrer, lembre-se da chuva que deixava o mundo da cor dos fins-de-fogueira e sem  perder o fôlego misture vermelho-ferro com amarelo-queimado pra tocar o calor das brasas.  Mergulhe nos verdes de todas as aparições do jardim, da hortinha,  da grama, das matas, das notas de um real,  dos bancos Bamerindus, das pastas de dente Kolynos, dos olhinhos, dos olhos, dos lindos olhos. Com seus sapatos longe, perdidos pelo caminho, engraxe a lembrança das macabras, negras noites insones, misture tons de preto e recrie o breu que te atormentava.Encontre o púrpura que mais te lembrava as uvas e devore-o.  Não se precipite pois há cores, pigmentos e tonalidades para todas as sensações, há matizes para todos os sons, todas as vozes, todos os cheiros. Não se precipite, pois elas são todas suas.

Quando sair emplastrado do lago, não se desespere, o presente sempre tem tiner e outros solventes para quem precisa.

Delicadélica

Postado em Devaneios em dezembro 17, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Taluana Franco põe a cabecinha pra fora e lá vem os consultores… Empurram  o maieuta pro cantinho:

Regime de rosa intenso ?

Salada de camarão palauano?

Cabelos loiros de brilho solar?

Água de malte perolado?

Bronzeamento cor-de-ébano?

Limonada Swatch?

Batom vermelho-capeta?

Rondelli ao molho blasé?

Maratona de grelo grelhado?

Chocolate de safra asteca?

Fotografia em chapa de seda?

Unhas de curvatura dionisíaca?

Taluana retorna ao descanso sem preencher a todo o questionário; mamãe mais que concorda:

São tantas opções… E toma um gole do creme facial de cada dia.

Selenomancia

Postado em Acusmas em dezembro 14, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Deitado.

Sobre dois pés.

Sentado.

De bruços. De brusco.

Rente à ilusão; Caminhando sobre o espelho.

O tempo desliza como pó sobre pele.

Pó de prata aos meus pés. Uma volta, duas voltas, três… São os vinte e oito dias que abalam minha concentração. As vinte oito menções ao meu próprio ego e perceba que mal necessito de um dia para enunciar todas em seu ouvido  sem magia.

Libertação

Fuga

Humor

Mistério.

As quatro fases da evanescência da sanidade. E se embaralham em minha cabeça como um jogo de carteado. Eu não sou o único a jogar, mas fui o único a assumir minha fraqueza.

Uivo à escuridão. Há caranguejos me cercando por todos os lados, mas não há mar, há muito não há mar. Não há pois minhas esperanças secaram, eu sinto. Só me resta encarar os fantasmas do meu eu de ontem, do meu eu de anteontem, do meu eu de semana passada… todos com brilho perolado nos olhos, olhos que desejam, olhos curiosos, aqueles olhos dos casais que se cristalizam ao brilho da lua.

Sorrio sem som.

Reconheço que mal me conheço agora que mais vinte e oito dias se passaram e estou no mesmo lugar.

Reconheço que toda la plata esfarelada no meu chão não compra nem sequer 75 microgramas de lucidez.

E se olho pra cima é engraçado perceber que o cosmo inteiro existe por si só, mesmo que não haja ninguem para observá-lo, para vigiá-lo. Pois não o faço, mesmo parado estou sempre a caminhar e, quem caminha, olha para frente.

Meu lar… frio e mórbido. Há lagos de veneno por todo o canto.  Canso-me  de beber dessa água púrpura como as flores mais indelicadas da Terra. Flores perversas.

Mas tenho sede. Tenho sede, sede e bebo, glub, litros, afogo-me confortável e bebo maismaismais e bebo! bebo! BEBO!

Ouço chiados. Ruídos, mal vejo um palmo à frente, mesmo que fosse em si claro como o alvorecer. Fico inquieto. Mexo pernas, me coço, me sujo de poeira prateada e por mais vinte e oito dias resisto como parte de minha loucura pessoal, minha loucura egoísta…. me contorço sobre o espelho como um ser em degeneração enquanto chuvas de meteoritos foscos varrem o lado sul do céu. Fico rente à ilusão

bruscamente de bruços

Sentado

Em pé sobre dois pés

Deitado. Banhado em risadas vítreas de som embaçado. O cosmo me cobre durante todas as manhãs, escuras manhãs, adorna com cuidado meus rotos, tortos, ocos pensamentos.

Levanto-me sentindo o pó escorrendo ombro a baixo e olho para ela, a bela mãe dos seres que chupam seus seios com dentes de titânio, arreganhados. Olho para a Terra e contemplo suas lâmpadas de tantas, tantas cores e vibrações que nunca experimentei…

(Sinto sede novamente.)

Daqui mesmo, do centro da bola de cristal que paira no céu, fora de foco eu choro lágrimas de prata , do que tudo é feito aqui, sobre a Terra.

Preciso lutar e voltar, ou voltar e lutar.

Preciso romper a placenta.

Preciso cuspir, tossir, arrancar sangue, assoar o nariz e me livrar de toda essa demência que me envolve como um tecido de uma só manga.

Preciso matar o branco. Sujar as almofadas de sangue.

Preciso conhecer a casca externa do geodo para saber que, antes de estar fora de toda a realidade que se atira em mim à queima roupa, estive dentro dela, quando eu era o lunático que punha o dedo no gatilho.

hoje eu sou só o lunático.

sou só o lunático.

só o lunático

o lunático.

Repentinamente, deixo a vontade de Terra e luta para trás e corro atrás de um mergulho sobre as águas venenosamente púrpuras que cobrem as crateras lunares. Sinto diminuir-me diante de minha própria sombra.

E que tal sombra permaneça escrita na bola de cristal que flutua sobre a noite. Que permaneça legível como as letras que encerram um último fantasmagórico acusma a trincar minha tranquilidade.

E me ponho sOrRidEntEmEnTe a equilibrar-me sobre as margens daqueles lagos…

(…sem muito afinco em não cair)


glub.

High-Cai

Postado em ofitopique em novembro 28, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Coalas no Bambu

Vento Sagaz

Coalas no chão

Davidson Fonseca

O hadalismo nas coisas-boas: Suicidas

Postado em Contos em novembro 23, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Severo sorriso às novas ciências do meu dia;

Chego ao paraíso em franco pôr-do-sol, quando nunca, enquanto homem, pensei que chegaria. Há beleza evanescente, sorrisos contundentemente reticentes e reencontros  sem calor. Há pouca comida, quase nenhuma empatia e o frio que sinto se dá pelos velhos lençóis de vento comido pelas traças de meu planeta. Existem, sim, quintessências: rios de brilho neônico; azuis, rosas, verdes-águas e violáceos e, alguns pequenos afluentes do Rio do Senhor, prateados como a lua, que também não está no céu. Há mulheres lindas, cor de bronze, marfim e calcedônia; seios grandes como dias, coxas em que seda e renda sempre estão a deslizar e rebolados que  conduzem a dança do universo, mulheres sem rosto algum.

Há, nas matas que percorro florescências frias , vagalumes no formato de folhas, ramos e troncos. Há inquietações na relva, como seres que se assustam com meu caminhar, há poços de lama negra e macia como creme pra cabelo.  Tenho fome, sede e insegurança de beber. Quero, desejo, todas essas mulheres, mas temo por seus hermetismos, quero visões ainda mais incríveis, mas sei que as terei pelo dia que agora não deixa vestígios

Chego a pensar que as noites no Paraíso, ao menos, são iguais às da Terra.

Estou inquieto. Sinto-me bem, em anestesia, real anestesia! Prazerosa, mas não rio, não ponho-me a deitar e a contemplar, a viajar com a mente, a relembrar e isso seria tão fácil…

Há consciência, há lembranças, reconheço todos que conheci, presencio o antimomento da morte de cada jovial presença que esteve comigo em vida. Mas aí retorno ao topo de meus escritos. Não há decepção, não há sequer falta. Tudo o que se faz necessário é o nome para o que ainda incompleta minha nova existência.

Não tão alto, mas apoiado nas nuvens, sem sensação. Observo tudo e muito mais, sem enumerar.  Desço; é tudo muito prático, não há montanhas em meu caminho.

Não falarei de mais prazeres desse mundo, mas se o fizesse não haveria como estar em silêncio, duraria ao menos o meu tempo de vida  no lugar-comum, isso para os que conheço, pois aqui há alguns que extrapolam minha experiência, já pensou em endorfina em pílulas? Geles que simulam as diversas sensações inter-humanos? Os intermediários entre o frio e o quente? sabores, odores e  cores autênticas? Paro aqui sem lhes dar compreensão, penso que  posso entender o lugar-comum como um todo depois de alguns dias aqui, imagino que semana que vem saberei explicar aos que ao meu lado estiverem por que cada nota da Rapsódia Húngara me conquistava, por que cada mudança de tempo alterava o tempo em que vivia em minha mente, por que cada acorde me trazia sensações que viajavam do relaxamento à frigidez saberei porque ao seu fim a ouviria novamente e eles entenderão antes mesmo de eu terminar. Entenderei sem ciência porque enlouquecia contido ao tocar meus lábios, ao tocar saliva, ao morder em suavidade, poderei medir quanta força os dentes, os músculos de ladyboca deveriam fazer sobre a minha para que eu rasgasse a primeira camada e apertasse sua cintura com uma força internalizante, poderei e não medirei. Poderei saber porque sentia a claustrofobia desesperadora de querer abandonar a vida e conhecer o lado de fora, o além-plástico da cama de água em que vivia sem medo de nada haver. Poderei saber e não poderei te contar, porque assim como enxergamos mal um cubo no papel, explicamos mal o supra-estar no lugar-comum. Não criarei contemplações, criarei divergências de opiniões e se daqui falo sobre o lugar-comum não há arrogância em dizer que não há o que questionar.

Seria ideal dizer que arrastando meus pés descalços sobre a grama lisa deixava a parte mais baixa da cidade, o burburinho de novos tons, contente por ter a eternidade  de meus atos em minha mão e o amanhã do sol que me deixaria examinar com pleno sentido aquele lugar que assemelhava-se tanto à minha terra. Fui visitar as terras do Senhor e deixei as profanações de lado. Nos olhos de minha imaginação via anjos, via humanos perfeitos, via asas delicadas e uniformes, via o movimento lento de seus aéreos caminhares, de um lado a outro, sem sentido, via seus olhos delicadamente fechados. Subia o rio prateado e enquanto essas imagens recuperadas da minha previsão celestial se projetavam tranquilas como o piscar de estrelas (que não existiam mais), almas sutis, com sorrisos delicados, sem sofrimento nadavam  borboleta, de costas  na exata velocidade da correnteza. Não quis ver para onde eram escoadas, mas quase quis saber como seria o instante em que deixariam de ser prateadas e se transformariam em matiz nas cores dos outros rios.

Julguei-os como clérigos, homens que chegaram ao supra-estar, ao supra-sonho como quaisquer outros, mas que ainda em morte escolheram a sacristia, e ao invés de rezar nadariam pela eternidade, como os peixes do Senhor.

Não quis imaginar o senhor. Não o faria até vê-lo.

Cheguei à nascente do rio, onde tudo ficava escuro e vi a sombra do grande palácio.

Não havia luz ou movimento. Era como acordar tarde para uma festa tarde, se vestir, o perfume…;sair de casa. Chegar e perceber que a festa acabara e não havia vestígio nem mesmo dos anfitriões em retidão. Não me decepcionei, pois no paraíso não há decepção. Mas senti medo do escuro, pois no paraíso há escuridão. Há túmulos, que são portas de entrada e saída e há o desconhecido, que há em todo lugar.

Aquele cemitério, aquele mausoléu armada sob vigas de sombras, era o lugar de onde chegara. Ali, na orla, as matas escondiam segredos, segredos curiosos que se mexiam e contorciam-se a fim de melhores posições para dormir, mudavam de toca à procura de menos frio e também se mostravam curiosas.  Os vagalumes das proximidades da terra do Senhor eram prateados, de brilho frio e morto e sonoro. Estalos tonais… a Valsa Mephisto em plenas terras sacras; Gozei aquele momento e de relance presenciei os olhos amedrontados das criaturas, olhos pálidos, de brilho púrpura, me seguiam, amedrontadas, mas não me perdiam de vista, como se desejassem garantir, em inconsequente certeza, que eu sairia dali e iria para bem longe, de volta à parte baixa da cidade, ao circo dos mortos abençoados.

Catei uma taça que brilhava à margem do rio, sem me compreender; sem querer assustei uma criatura que abandonara a toca distraída para beber água: Um homem, cadavérico, curvo e magro, assustado, horrorizado, com olhar de  fria eletricidade… se escondeu na mata e se juntou aos outros olhares.

A mata se encerrou  e os olhares dos homens-reais ficaram para trás.

O medo que me foi adiado encheu a taça com qualquer líquido negro que pudesse existir, em desespero larguei-a sem jeito na correnteza . No instante de toque…

…o rio se apagou como uma vela ao vento;

Atrás de mim, os gemidos, ganidos gelados, cortantes e sofridos das criaturas humanas cadavéricas irromperam. Minutos e minutos de sofrimento que com sufoco se dissipava.

Vozes me falavam dos homens na terra. Dos homens em terra predestinados ao Inferno por aqueles que agora  nadam a braçadas na escuridão do rio.

O lugar dos que estão para se aproximar do chão, dos que estão para observar os números sendo tampados pouco a pouco, dos que estão para ligar o gás, dos que estão a observar o reflexo da luz pela superfície de corte é o paraíso.

Paga-se outro preço: o de estar no supra-estar e temer suas noites pela eternidade, noites idênticas às do lugar-comum; dormir de dia para compensar o sono noturno não tido.

As terras do Senhor são, durante a noite, o mais mórbido lugar para se estar.

Deixo as terras do Senhor e não olho para trás.

As terras do Senhor são, durante esta noite, o lugar mais silencioso para se estar

Deixo as terras do Senhor e não olho para trás; Uma taça de vinho branco em minha mão esquerda; Antes de beber e em êxtase sinto as criaturas me levarem a berros vítreos de volta para os bosques. Minha onda passou.

As terras do Senhor são, durante toda e qualquer noite, o lugar mais escuro para se estar

O Senhor também dorme.

Metagrafia n°7

Postado em Metagrafia em novembro 19, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Devo ter dito hoje, fora pra quem realmente ouviu, umas 3 ou 4 vezes que preciso escrever.

Leio obras bacanas de companheiros de estrada, alguns nem mesmo sabem que eu estou nessa larga highway, e sinto que é preciso trocar de tênis ou aprender a andar descalço. O tempo é hostil e não deixa os atalhos que encontro se implantarem no mapa  que venho criando, mesmo que não os siga.

Estou ficando para trás.

Quando colei palavras a velhos sonhos que anotei e dei vida ao meu segundo caminhante não imaginava que percorrer a estrada seria tão difícil sem  duas ou quatro rodas. Não foi difícil para ele. A Parada é que tenho uma roda, só uma roda e ela pesa, pesa muito; Ou calço novos tênis, ou aprendo a andar descalço, ou jogo essa roda no meio do mato, acostamento a fora.

Pensei em aprender a mexer com o tal do monociclo, mas o Picadeiro está mais que submerso.

Não quero trocar a calota. Não sei se é a hora de pedir ajuda a Ernest Hemmingway, Décio Pignatari ou mesmo Kerouac. Não quero caronas de Torquato Neto, Capinã ou Mário de Andrade.

Parei num posto qualquer e Madame Lygia  me ofereceu um pingado; céus, é claro que aceitei, mas o que posso eu fazer se mal aprendi a digerir cálcio?

Vejo bons companheiros focados na eternidade da estrada enquanto procuro a curva do túnel. E o peso da roda começa a me corroer como um fluido de bateria. E me vejo sem cargas. Barbas! Preciso me livrar dessa roda, preciso reinventar essa roda, preciso reinventar a cabeça de quem metralhou que a roda realmente foi inventada.

E da estrada não saio

Aí nos fins de manhã fico louco e sorrio para montanhas de fundo de retina, não sei se volto meiameio ou se em definitivo quero ser fugitivo dessas visões

Não brinco com isso, apesar do sorriso que não vai (Preciso me livrar dessa roda).

E vejo um brilho cálido à  minha frente.

A troca de marcha, a mão no câmbio… Mudar a frequência do seu semovimento não é carrocel, com bilhete de entrada, fresta de saída e dificuldades niveladas. Tampouco é máscara de carnaval que acaba nas cinzas (e preciso de fogo).

A violência do desejo só tem uma velocidade: a do coração, a dos pés na estrada, no papel, a das botas borradas de tinta,a do alcatrão vulcanizado (quero fogo) a do índio que corre a cavalo dos tiros, a do fim do fim do mundo, a do choro flagrado, a da mente doente que resiste e mente aos ouvidos decentes, a das supernovidades que deslizam tímpanoatímpano e desaparecem no horizonte do esquecimento, a do meu piscar de olhos que sucede o fogo à minha frente e segura com mais força o pneu.

taquei.

O fogo transforma, já diziam.

Agora sei porque todos me pedem fogo ao passar por minha penumbra na highway.

Mas não sou modesto e não quero ver o que ele faz com a borracha.

Um (levanto a tampa) dois (fricção) três -

Conheço minha natureza orgânica

me transformo.

Protegido: (sociopata)

Postado em ofitopique em outubro 18, 2009 por Gabriel Castilho Gil

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Água Pesada sobre Solo Áspero

Postado em Devaneios, Fragmentos em outubro 13, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Eu, ela (seja lá quem fosse) e o nosso Mustangue aterrissamos estrondosamente naquelas águas fluviais.

Permaneci paralisado, intacto pela palpável realidade. O cavalo que deveria existir em movimento foi drenado pela espuma torrencial  e  foi-se. Como não pensei que a velocidade, o pleno equilíbrio imponentemente potente, a fúria dos lençóis de ar deslocados com o corpo, a integridade da moção, tudo aquilo dependia de um solo que de tão firme e seco  que fosse seria quase… áspero?

Começava a distinguir os dois lados do espelho.

Encontrei a estagnação. Não pensava em cataratas, fossas profundas ou redemoinhos, tinha tudo aquilo aqui dentro, tensão envasada, litros e litros de desilusões. Lembrei-me das moças ao longo do shopping, lembrei-me das duas, Uma insurgida atrás de vingança e Ela passiva no ponto de ônibus, lembrei-me d’Eva e sua gangorra no jardim e lembrei-me daquela dualidade na garupa do mustangue e seu humor pesado.

Ela que se dissolvera  num fluído violáceo a esticar-se brandamente nas águas, com um brilho magmático, me causava nojo e incompreensão ainda que irradiasse magia bela e perigosa. Tal foi o encanto causado que a estagnação dissipou-se  levemente, tentei tocar seu líquido e, no esforço:

Subi até a superfície quase sem ar… Os três peões desprovidos de armas de fogo andavam pelas margens estudando o encontro do rio Piauí com o rio Maranhão.

Havia uma fina coluna de pedra que me levava para longe daquele lugar; minha salvação da violência daquelas águas.

E subi; meu corpo pesado, monolítico… O filete de pedra me levaria até uma casinha muito simples, antes que o enjôo dilacerante me dominasse. Era tudo muito simples, aqueles que não comem, que não vivem sabores, enchem a pança de antimatéria. E era o que  me locupletava. Estava saturado; precisava de um descanso incalculável para minimamente reagir aos erros dessa era que se encerrava.

Abri a porta e presenciei o único móvel da casa, um sofá com um tamanho pouquinho menor do que as necessidades de meu sofrimento;

Deitei-me e estiquei  meus pés até tocar a eternidade e de uma vez por todas relaxei.

Abri os olhos pela ultima vez e em frente a mim, uma vitrine. Minha vista, cansada demais para reagir, venceu a luz forte e do outro lado da vitrine reconheci o observador.

Talvez quisesse saber qual era o lado de dentro e qual era o lado de fora da vitrine, mas em outra situação. Agora havia perdido a vontade de… a vontade de continuar sentido vontade de correr atrás de minhas vontades, pronto. Minha mente começou a se embrulhar como meu estômago há centenas de anos luz daqui o fizera, ou melhor, talvez ainda estivesse, mas  não mais sentisse. Creio que o tato foi a primeira coisa que perdi. Meu paladar… não não, ainda tinha meu paladar, tinha meu olfato e suas lembranças, mas não quis, não consegui mais abrir os olhos, bem talvez não tenha perdido a visão, mas a audição foi a segunda coisa que perdi…

dormira?

Aí quase quis saber se o que eu sentia era definitivamente um sabor, mas isso já não seria mais possível. A resposta para esse meu próprio devaneio veio de quando lembrei que mal vivi os sabores de minha vida, aí soube que nunca tivera paladar… ah, mas também foi a ultima coisa que me lembrei, logo depois perdi minha memória e o meu olfato.

Minha visão ja não tinha mais importância.

Aí, acho que teria contemplado a coisa-em-si se tivesse querido, mas não quis; Sem espaço, sem tempo, sem circunstância, sem representação, sem desejo, sem indivíduo e objeto; tornei-me o mundo.

Água Pesada (III)

Postado em Fragmentos em outubro 13, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Enfim, meus caros parceiros, me rendi a esses luxos que vemos por aí..

(fiquei demasiadamente sóbrio para ter meu passado como legítima sombra…)

A cidade, céus… feia é só por fora, principalmente essa, mas agora que nado em seu útero, a cada instante me sinto como Hansel ( e Gretel) à primeira vista daquela casinha de guloseimas.

Hoje por exemplo, já me encontro numa saborosa encruzilhada.  hrum.

Tenho no meu bolso 22 moedas de um real e dois desejos para o poço, fundo fundo. Ou vou almoçar, ou vou ao cinema com pipoca.

Como todo bom selvagem, quero os dois e fico no restaurante japonês com a turma para depois correr atrás de alguma bagaceira; poxa vida, tanta coisa bizonha passando por aí.

Mas aí aquela mocinha, ora, ora…

ócio permeando certas posições da mesa… comida chegando viole(n)tamente e pares de olhos que  procuram algo mais confortante para fitar e, bem, mal percebo que o ar ja está cheio de evasivas pouco profundas e inquietação nos cabelos e aí…

ela ja vai ao cinema comigo com a condição d’eu deixar a bagaceira para outra instância (um presente da cidade, essa terminologia).

E aí vamos, á cavalo, é claro… Longo caminho e nenhum meio de transporte é bom o bastante para nós dois, de repente estou farto dessas grosserias ordinárias de quatro rodas.Farto!!!!

Meu Mustangue… Nosso Mustangue… veloz como o relógio em dias tranquilos.  Infelizmente eu esqueci o dinheiro no bar. 22 notáveis moedas de um real. Mas frear nosso Mustangue seria uma desavença, disparávamos para longe da cidade  (eu seguia as pedras brancas que deixara pelo caminho) como um casal fora-da-lei após  um roubo de trem.

Atravessávamos um terreno que ameaçava se tornar pantanoso, a qualquer instante; um denso cheiro de pólvora movimentando as correntes de ar e o medo de sermos tragados pela fúria de algum sujeito. Pergunto-me se est’é o filme que estamos vendo, mas me descompasso quando três homens de espingarda se plantam na porcaria da cerca à nossa frente.

- Pedágio… – sussuram secos para nós, a uns 150 metros de distância.

- estamos indo para o cinema, não podemos pagar agora.

- Ouço alguns disparos, mas estou em órbita;

Uma gélida sensação na altura dos meus rins acaricia minha desconfiança;

Pulo a cerca onde  se posicionam os três peões e preparo-me para cair naquele rio pantanoso que ameaçava acontecer em nosso caminho a qualquer mísero interante.

Ouça as gargalhadas esqueléticas de doce doce Gretel ou da confeiticeira, quem faltava nessa estória…

estou para descobrir, o final do filme sempre chega para aqueles que o assistem

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