Severo sorriso às novas ciências do meu dia;
Chego ao paraíso em franco pôr-do-sol, quando nunca, enquanto homem, pensei que chegaria. Há beleza evanescente, sorrisos contundentemente reticentes e reencontros sem calor. Há pouca comida, quase nenhuma empatia e o frio que sinto se dá pelos velhos lençóis de vento comido pelas traças de meu planeta. Existem, sim, quintessências: rios de brilho neônico; azuis, rosas, verdes-águas e violáceos e, alguns pequenos afluentes do Rio do Senhor, prateados como a lua, que também não está no céu. Há mulheres lindas, cor de bronze, marfim e calcedônia; seios grandes como dias, coxas em que seda e renda sempre estão a deslizar e rebolados que conduzem a dança do universo, mulheres sem rosto algum.
Há, nas matas que percorro florescências frias , vagalumes no formato de folhas, ramos e troncos. Há inquietações na relva, como seres que se assustam com meu caminhar, há poços de lama negra e macia como creme pra cabelo. Tenho fome, sede e insegurança de beber. Quero, desejo, todas essas mulheres, mas temo por seus hermetismos, quero visões ainda mais incríveis, mas sei que as terei pelo dia que agora não deixa vestígios
Chego a pensar que as noites no Paraíso, ao menos, são iguais às da Terra.
Estou inquieto. Sinto-me bem, em anestesia, real anestesia! Prazerosa, mas não rio, não ponho-me a deitar e a contemplar, a viajar com a mente, a relembrar e isso seria tão fácil…
Há consciência, há lembranças, reconheço todos que conheci, presencio o antimomento da morte de cada jovial presença que esteve comigo em vida. Mas aí retorno ao topo de meus escritos. Não há decepção, não há sequer falta. Tudo o que se faz necessário é o nome para o que ainda incompleta minha nova existência.
Não tão alto, mas apoiado nas nuvens, sem sensação. Observo tudo e muito mais, sem enumerar. Desço; é tudo muito prático, não há montanhas em meu caminho.
Não falarei de mais prazeres desse mundo, mas se o fizesse não haveria como estar em silêncio, duraria ao menos o meu tempo de vida no lugar-comum, isso para os que conheço, pois aqui há alguns que extrapolam minha experiência, já pensou em endorfina em pílulas? Geles que simulam as diversas sensações inter-humanos? Os intermediários entre o frio e o quente? sabores, odores e cores autênticas? Paro aqui sem lhes dar compreensão, penso que posso entender o lugar-comum como um todo depois de alguns dias aqui, imagino que semana que vem saberei explicar aos que ao meu lado estiverem por que cada nota da Rapsódia Húngara me conquistava, por que cada mudança de tempo alterava o tempo em que vivia em minha mente, por que cada acorde me trazia sensações que viajavam do relaxamento à frigidez saberei porque ao seu fim a ouviria novamente e eles entenderão antes mesmo de eu terminar. Entenderei sem ciência porque enlouquecia contido ao tocar meus lábios, ao tocar saliva, ao morder em suavidade, poderei medir quanta força os dentes, os músculos de ladyboca deveriam fazer sobre a minha para que eu rasgasse a primeira camada e apertasse sua cintura com uma força internalizante, poderei e não medirei. Poderei saber porque sentia a claustrofobia desesperadora de querer abandonar a vida e conhecer o lado de fora, o além-plástico da cama de água em que vivia sem medo de nada haver. Poderei saber e não poderei te contar, porque assim como enxergamos mal um cubo no papel, explicamos mal o supra-estar no lugar-comum. Não criarei contemplações, criarei divergências de opiniões e se daqui falo sobre o lugar-comum não há arrogância em dizer que não há o que questionar.
Seria ideal dizer que arrastando meus pés descalços sobre a grama lisa deixava a parte mais baixa da cidade, o burburinho de novos tons, contente por ter a eternidade de meus atos em minha mão e o amanhã do sol que me deixaria examinar com pleno sentido aquele lugar que assemelhava-se tanto à minha terra. Fui visitar as terras do Senhor e deixei as profanações de lado. Nos olhos de minha imaginação via anjos, via humanos perfeitos, via asas delicadas e uniformes, via o movimento lento de seus aéreos caminhares, de um lado a outro, sem sentido, via seus olhos delicadamente fechados. Subia o rio prateado e enquanto essas imagens recuperadas da minha previsão celestial se projetavam tranquilas como o piscar de estrelas (que não existiam mais), almas sutis, com sorrisos delicados, sem sofrimento nadavam borboleta, de costas na exata velocidade da correnteza. Não quis ver para onde eram escoadas, mas quase quis saber como seria o instante em que deixariam de ser prateadas e se transformariam em matiz nas cores dos outros rios.
Julguei-os como clérigos, homens que chegaram ao supra-estar, ao supra-sonho como quaisquer outros, mas que ainda em morte escolheram a sacristia, e ao invés de rezar nadariam pela eternidade, como os peixes do Senhor.
Não quis imaginar o senhor. Não o faria até vê-lo.
Cheguei à nascente do rio, onde tudo ficava escuro e vi a sombra do grande palácio.
Não havia luz ou movimento. Era como acordar tarde para uma festa tarde, se vestir, o perfume…;sair de casa. Chegar e perceber que a festa acabara e não havia vestígio nem mesmo dos anfitriões em retidão. Não me decepcionei, pois no paraíso não há decepção. Mas senti medo do escuro, pois no paraíso há escuridão. Há túmulos, que são portas de entrada e saída e há o desconhecido, que há em todo lugar.
Aquele cemitério, aquele mausoléu armada sob vigas de sombras, era o lugar de onde chegara. Ali, na orla, as matas escondiam segredos, segredos curiosos que se mexiam e contorciam-se a fim de melhores posições para dormir, mudavam de toca à procura de menos frio e também se mostravam curiosas. Os vagalumes das proximidades da terra do Senhor eram prateados, de brilho frio e morto e sonoro. Estalos tonais… a Valsa Mephisto em plenas terras sacras; Gozei aquele momento e de relance presenciei os olhos amedrontados das criaturas, olhos pálidos, de brilho púrpura, me seguiam, amedrontadas, mas não me perdiam de vista, como se desejassem garantir, em inconsequente certeza, que eu sairia dali e iria para bem longe, de volta à parte baixa da cidade, ao circo dos mortos abençoados.
Catei uma taça que brilhava à margem do rio, sem me compreender; sem querer assustei uma criatura que abandonara a toca distraída para beber água: Um homem, cadavérico, curvo e magro, assustado, horrorizado, com olhar de fria eletricidade… se escondeu na mata e se juntou aos outros olhares.
A mata se encerrou e os olhares dos homens-reais ficaram para trás.
O medo que me foi adiado encheu a taça com qualquer líquido negro que pudesse existir, em desespero larguei-a sem jeito na correnteza . No instante de toque…
…o rio se apagou como uma vela ao vento;
Atrás de mim, os gemidos, ganidos gelados, cortantes e sofridos das criaturas humanas cadavéricas irromperam. Minutos e minutos de sofrimento que com sufoco se dissipava.
Vozes me falavam dos homens na terra. Dos homens em terra predestinados ao Inferno por aqueles que agora nadam a braçadas na escuridão do rio.
O lugar dos que estão para se aproximar do chão, dos que estão para observar os números sendo tampados pouco a pouco, dos que estão para ligar o gás, dos que estão a observar o reflexo da luz pela superfície de corte é o paraíso.
Paga-se outro preço: o de estar no supra-estar e temer suas noites pela eternidade, noites idênticas às do lugar-comum; dormir de dia para compensar o sono noturno não tido.
As terras do Senhor são, durante a noite, o mais mórbido lugar para se estar.
Deixo as terras do Senhor e não olho para trás.
As terras do Senhor são, durante esta noite, o lugar mais silencioso para se estar
Deixo as terras do Senhor e não olho para trás; Uma taça de vinho branco em minha mão esquerda; Antes de beber e em êxtase sinto as criaturas me levarem a berros vítreos de volta para os bosques. Minha onda passou.
As terras do Senhor são, durante toda e qualquer noite, o lugar mais escuro para se estar
O Senhor também dorme.