inspira…
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I Ato
Cada passo bem marcado até o início de um pesadelo é como sentir o hálito ígneo da fera que adormece plenamente, porém sem adormecer a imponência que a produz.
Os homens conseguem enxergar um no outro o próprio medo flacidamente travestido de rigidez uniforme pela expressão neutra. Alguns deixam mulher, filhos, parentes queridos, muitos ou poucos amigos, planos, saudades, outras dores e outros medos, sensações vividas e lembranças. Sempre muitas lembranças. Alguns caminham ao lado de amigos. Caminham ao lado de bons amigos com a mesma indiferença inerte dos poucos segundos que antecederam o seu primeiro contato.
No dia em que acorda, a manhã nublada e o estranho sentido que o primeiro instante do despertar ganha, torna tudo já vivido, conhecido ou caído em rotina, novo. A água tem o gosto substancial que a sede de um dia quente a remete. Cada batata partida parece liberar um suave e delicado vapor colorido de eventualidade… Aquela mesma surpresa subtil de se encontrar um trevo de quatro folhas. Os Cabelos da mulher têm um brilho formoso, a expressão de seu rosto volatiliza de uma vez todas as fascinações vividas desde o primeiro instante em que estiveram juntos. A cidade parece nunca ter sido tão pitoresca. Todos compartilham a amenidade inquestionável mesmo ja compartilhando a áspera tensão desde que a califonia natural do dia-a-dia começou a murchar.
Cada mau bom homem acorda e vê seus comuns definhando diante do invólucro insignificante de algo muito mais funesto. Fitam em pranto tristes olhares embarcando e se perguntam se algo mais seria capaz de replementar o sofrimento
Nas terras estranhas em que chegam, a angústia se mistura aos simulacros de crueldade, à confiança forjada e principalmente o medo.
Alguns exalam bom humor, repetem frases de segurança e se mostram estar ali como simples e temporários arredios. Desatado da rotina por alguns poucos dias. Mas no âmago de todos jaz a certeza de que a Terra agora parece um animal trasmalhado do resto do universo e enquanto se dirigem ao cerco mal notam as calmas notas da melodia do existir transformarem-se numa sinfonia do inferno.
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II Ato
De repente nada mais parece funcionar da forma a que se está acostumado. A fome, as pestes e a morte parecem mais compreensíveis do que o alívio, a coragem e a esperança. Pela primeira vez em sua vida, cada homem consegue projetar sua determinação em algo que não acredita. Mantem compostura e firmeza em cada situação que além de não querendo entrar ainda acaba encontrando obstáculos intransponíveis.
O imutável destino da caminhada rítmica eleva tons cromáticos na escala desastrosa em que todos os caminhantes se esforçam para harmonizar. Os participantes ocultam seus olhos, fingem ter almas opacas para aqueles que os manobram e gastam o resto de sua energia mental em carregar uma ira artificial e um pavio para detoná-la.
E atingem então aquele compasso mais robótico na música. Cada um com uma fúria criada ao seu estilo, esquece-se instantaneamente do coletivismo impresso em tinta barata e tornam a composição de sua fúria a marca máxima de sua presença individual.
Naquele lapso imensurável conseguem em uma realização única na vida mesclar uniformente a existência psicológica com a existência real. As fúrias em ritmos alternados, contrapontuadas por ambos os lados se chocam violentamente numa dissonância afônica. O campo extenso de terra marrom clara e seca que atiça o desespero encasulado dos homens temedores da solidão de ermas terras é o que mais perto chega de convencer o pandemônio sincopado de explosões, rajadas e estrondos a revolver-se ao apático adágio que as sombras de marte engendraram sobre suas almas até aquele instante.
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III Ato
Tudo indica que o clímax de tudo aquilo há de chegar em breve. Só há vazio em cada torrente de atos que se propulsiona dos iracundos homens-dos-dois-lados. A palidez do céu vai se tornando sombria como um primeiro sinal de tempestade e os raios tangem a terra sem que os homens julguem os deuses quanto ao lado que tentam ajudar. Trovões marcam o pulso veloz daquela mesma música tenebrosa. O medo que um dia se espalhou de rumores, de conspirações e segredos impregnados em xícaras de chá que transbordam em seus pires, o medo que se movia como um vapor venenoso que vaza de um barril que se rompeu… Esse medo agora saía dos buracos dolorosos no corpo daqueles que caíam inconscientes no campo de batalha, Adormecia nas lacunas do tambor de armas bem usadas ou nos grãos de salitre que penetravam a carne fraca e assustada de um homem. O Desespero se instalava na troca de ar rápida fria entre os que gritavam correndo de um lado a outro e aqueles que ainda conseguiam segurar uma arma.
E o clímax, mal situado por silêncios que até então nunca apareceram, chega repentinamente, sem ensaios junto com a chuva extrema. O temor não deitara. Com os olhares cautelosos eles caminham trôpegos de um lado a outro procurando um norte… Os que restavam percebiam aos poucos que as explosões ja não mais ocorriam, que os disparos não mais cortavam o ar e que os berros, o choro afobado e a troca infrutífera de informações bradadas ja não eram tão palpáveis.
Os corpos coalhavam a terra enlameada sem cerimônia. Quase nunca mostravam rostos. Todos se deitaram como se executassem a expressão de rosto que ensaiaram durante todas as marcha. Alguns homens rondavam mancos chutando com delicadeza companheiros, à procura de um sinal de vida. Muitos choravam diante dos corpos daqueles que eram amigos. Muitos sentiam frio. Muitos sentiam dor. Todos sofriam.
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IV ato
Mas em algum instante, sem que ninguém se preocupasse em registrar, a chuva parou. O Cansaço era carregado de um lado a outro, como um peso morto a muitos que ajudavam a enfileirar os corpos aliados e inimigos. Suas mentes circundavam um vazio denso que os colocava horas inteiras em posições estáticas.
Certo momento, alguém olhou para o céu.
As nuvens se moviam rápidas e amorficamente . A escuridão ia se dissolvendo em nuvens que se afastavam carregando um plácido brilho alvo. Então o sol vespertino surgiu e fez cada um dos homens olhar para o céu. Todos quase ao mesmo tempo perceberam que um brilho de aspecto novo transversava os extensos campos de marrom penetrante, escuro e úmido e iluminava os muitos corpos arrumados naquela interminável fileira. Cada homem vivo e ainda aturdido conseguiu encontrar no seu tempo o restante de força-de-vontade que precisava para reanimar a esperança há muito tempo morta. Esperança de voltar a arriscar uma melodia delicada e adagiosa cantada por vozes celestiais.
A Guerra acabou.
Mas pela dor e o choque que costurou cada homem de uma forma diferente à lembrança da guerra, a melodia só poderia ser cantada por aqueles homens que lutaram juntos e definharam diante do inevitável curso do fôlego de ares.
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…expira.
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Baseado na peça musical de David Gilmour, Nick Mason, Rick Wright e Roger Waters; A Saucerful of Secrets