Arquivo para Setembro, 2008

O Fôlego de Marte

Postado em Acusmas, Devaneios em Setembro 22, 2008 por Gabriel Castilho Gil

inspira…

(*  *  *

I Ato

Cada passo bem marcado até o início de um pesadelo é como sentir o hálito ígneo da fera que adormece plenamente, porém sem adormecer a imponência que a produz.

Os homens conseguem enxergar um no outro o próprio medo flacidamente travestido de rigidez uniforme pela expressão neutra. Alguns deixam mulher, filhos, parentes queridos, muitos ou poucos amigos, planos, saudades, outras dores e outros medos, sensações vividas e lembranças. Sempre muitas lembranças. Alguns caminham ao lado de amigos. Caminham ao lado de bons amigos com a mesma indiferença inerte dos poucos segundos que antecederam o seu primeiro contato.

No dia em que acorda, a manhã nublada e o estranho sentido que o primeiro instante do despertar ganha, torna tudo já vivido, conhecido ou caído em rotina, novo. A água tem o gosto substancial que a sede de um dia quente a remete. Cada batata partida parece liberar um suave e delicado vapor colorido de eventualidade… Aquela mesma surpresa subtil de se encontrar um trevo de quatro folhas. Os Cabelos da mulher têm um brilho formoso, a expressão de seu rosto volatiliza de uma vez todas as fascinações vividas desde o primeiro instante em que estiveram juntos. A cidade parece nunca ter sido tão pitoresca. Todos compartilham a amenidade inquestionável mesmo ja compartilhando a áspera tensão desde que a califonia natural do dia-a-dia começou a murchar.

Cada mau bom homem acorda e vê seus comuns definhando diante do invólucro insignificante de algo muito mais funesto. Fitam em pranto tristes olhares embarcando e se perguntam se algo mais seria capaz de replementar o sofrimento

Nas terras estranhas em que chegam, a angústia se mistura aos simulacros de crueldade, à confiança forjada e principalmente o medo.

Alguns exalam bom humor, repetem frases de segurança e se mostram estar ali como simples e temporários arredios. Desatado da rotina por alguns poucos dias. Mas no âmago de todos jaz a certeza de que a Terra agora parece um animal trasmalhado do resto do universo e enquanto se dirigem ao cerco mal notam as calmas notas da melodia do existir transformarem-se numa sinfonia do inferno.

*   *   *

II Ato

De repente nada mais parece funcionar da forma a que se está acostumado. A fome, as pestes e a morte parecem mais compreensíveis do que o alívio, a coragem e a esperança. Pela primeira vez em sua vida, cada homem consegue projetar sua determinação em algo que não acredita. Mantem compostura e firmeza em cada situação que além de não querendo entrar ainda acaba encontrando obstáculos intransponíveis.

O imutável destino da caminhada rítmica eleva tons cromáticos na escala desastrosa em que todos os caminhantes se esforçam para harmonizar. Os participantes ocultam seus olhos, fingem ter almas opacas para aqueles que os manobram e gastam o resto de sua energia mental em carregar uma ira artificial e um pavio para detoná-la.

E atingem então aquele compasso mais robótico na música. Cada um com uma fúria criada ao seu estilo, esquece-se instantaneamente do coletivismo impresso em tinta barata e tornam a composição de sua fúria a marca máxima de sua presença individual.

Naquele lapso imensurável conseguem em uma realização única na vida mesclar uniformente a existência psicológica com a existência real. As fúrias em ritmos alternados, contrapontuadas por ambos os lados se chocam violentamente numa dissonância afônica. O campo extenso de terra marrom clara e seca que atiça o desespero encasulado dos homens temedores da solidão de ermas terras é o que mais perto chega de convencer o pandemônio sincopado de explosões, rajadas e estrondos a revolver-se ao apático adágio que as sombras de marte engendraram sobre suas almas até aquele instante.

*  *  *

III Ato

Tudo indica que o clímax de tudo aquilo há de chegar em breve. Só há vazio em cada torrente de atos que se propulsiona dos iracundos homens-dos-dois-lados. A palidez do céu  vai se tornando sombria como um primeiro sinal de tempestade e os raios tangem a terra sem que os homens julguem os deuses quanto ao lado que tentam ajudar. Trovões marcam o pulso veloz  daquela mesma música tenebrosa. O medo que um dia se espalhou de rumores, de conspirações e segredos impregnados em xícaras de chá que transbordam em seus pires, o medo que se movia como um vapor venenoso que vaza de um barril que se rompeu… Esse medo agora saía dos buracos dolorosos no corpo daqueles que caíam inconscientes no campo de batalha, Adormecia nas lacunas do tambor de armas bem usadas ou nos grãos de salitre que penetravam a carne fraca e assustada de um homem. O Desespero se instalava na troca de ar rápida fria entre os que gritavam correndo de um lado a outro e aqueles que ainda conseguiam segurar uma arma.

E o clímax, mal situado por silêncios que até então nunca apareceram, chega repentinamente, sem ensaios junto com a chuva extrema. O temor não deitara. Com os olhares cautelosos eles caminham trôpegos de um lado a outro procurando um norte… Os que restavam percebiam aos poucos que as explosões ja não mais ocorriam, que os disparos não mais cortavam o ar e que os berros, o choro afobado e a troca infrutífera de informações bradadas ja não eram tão palpáveis.

Os corpos coalhavam a terra enlameada sem cerimônia. Quase nunca mostravam rostos. Todos se deitaram como se executassem a expressão de rosto que ensaiaram durante todas as marcha. Alguns homens rondavam mancos chutando com delicadeza companheiros, à procura de um sinal de vida. Muitos choravam diante dos corpos daqueles que eram amigos. Muitos sentiam frio. Muitos sentiam dor. Todos sofriam.

*  *  *

IV ato

Mas em algum instante, sem que ninguém se preocupasse em registrar, a chuva parou. O Cansaço era carregado de um lado a outro, como um peso morto a muitos que ajudavam a enfileirar os corpos aliados e inimigos. Suas mentes circundavam um vazio denso que os colocava horas inteiras em posições estáticas.

Certo momento, alguém olhou para o céu.

As nuvens se moviam rápidas e amorficamente . A escuridão ia se dissolvendo em nuvens que se afastavam carregando um plácido brilho alvo. Então o sol vespertino surgiu e fez cada um dos homens olhar para o céu. Todos quase ao mesmo tempo perceberam que um brilho de aspecto novo transversava os extensos campos de marrom penetrante, escuro e úmido e iluminava os muitos corpos arrumados naquela interminável fileira. Cada homem vivo e ainda aturdido conseguiu encontrar no seu tempo o restante de força-de-vontade que precisava para reanimar a esperança há muito tempo morta. Esperança de voltar a arriscar uma melodia delicada e adagiosa cantada por vozes celestiais.

A Guerra acabou.

Mas pela dor e o choque que costurou cada homem de uma forma diferente à lembrança da guerra, a melodia só poderia ser cantada por aqueles homens que lutaram juntos e definharam diante do inevitável curso do fôlego de ares.

*  *  *

…expira.

*  *  *)

Baseado na peça musical de David Gilmour, Nick Mason, Rick Wright e Roger Waters; A Saucerful of Secrets

Metagrafia Nº2

Postado em Metagrafia em Setembro 10, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Talvez o maior problema de escrever apaixonadamente esteja no fato de que não somos capazes de comprimir a vida graficamente.  Existe um sem-número de sentimentos sem-nome por aí que estão ao alcance de qualquer um nos momentos mais humanos e menos artísticos de cada um (ou menos humanos e mais artísticos… Arrisco dizer que a diferença do que é humano para o que é artístico é quase nula).

O poeta é o mestre em extrair do cerne de sua subjetividade algo que vá se tornar interessante para alguém em alguma dimensão de admiração. Eu,tu,ele, nós, vós, eles não entendemos o que o poeta de alma quer dizer, se é que ele quer dizer alguma coisa. Se analizamos de forma geométrica e tapada a sua criação percebemos que não seríamos capazes de sentir o que ele sente em hipótese alguma. O fator que nos leva a gostar de poesia talvez seja da mesma natureza do qual nos faz odiar. Odiamos poesia pois não entendemos bulhufas do que o homem quer dizer, ou se achamos que entendemos é sempre estúpido demais para nós. Amamos poesia justamente por que não entendemos o significado de forma alguma, só sabemos que por mais único e pessoal que seja o sentimento expresso ele é humano e quase sempre acolchoado com belos jogos de palavras. E pelo humanismo, algo dentro de nós faz entender a arte do outro. Tal altura atingida em que criamos afinidade com a matéria artística, talvez mude sem que saibamos toda a nossa compreensão a respeito disso: No humanismo que me liga ao poeta há sempre a possibilidade de um dia vir a sentir o que o poeta diz nas suas estrofes sem saber que compartilhamos o sentimento.

São as traiçoeira palavras.

Sentimentos iguais nos fazem através do lirismo escrever coisas diametralmente diferentes.

Mas quem sou eu para reiterar isso? Adoraria ter a certeza pleonásticamente absoluta de que sou único em minha dinâmica sentimental. Regozijar-me ao ver que os outros admiram não o que diretamente escrevo, mas o que indiretamente sinto.

Mas é bonito, não? Pensar que talvez admiremos a arte de alguem simplesmente por ela ser humana.

Acredito no melhor das pessoas, mas como taxa de erro e/ou via das dúvidas….

Procuro não escrever poesia.

=)

A lividez de nosso amor

Postado em Acusmas, Contos em Setembro 10, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Ela morreu numa quinta-feira. A causa da morte não virou assunto para ninguém. Quando ele acordou ao lado dela, àquela manhã, não houve mais assunto.

“Acordou e a primeira coisa que apareceu-lhe aos olhos foi o pomposo relógio de parede marcando quase dez horas. Os passarinhos faziam algazarra lá fora e a manhã tinha quase cheiro de céu claro e sol forte.

Ergueu-se sentando na cama e fitou a mulher com curiosidade durante alguns segundos.

- Dormindo… – Concluiu num sorriso delicado; deitou-se novamente, dessa vez apoiando a cabeça sobre os braços. ”

O relógio de parede foi, segundo ele, um presente completamente arrogante da mãe dela. Trouxera na sua última extravagante visita à filha. Escolheu o lugar do monumento com tanto descaso que extraiu dele o mais simpático “Aqui-não-é-a-sua-casa” que ele conseguiria produzir. Ela apaziguou a tensão entre a mãe e ele, mas o relógio continuou no lugar que a mãe escolheu.

“ Ele olhou para ela novamente e um arrepio quase prazeroso o envolveu. Uma das coisas que mais gostava nela era aquele sorrisinho que parecia persistir em se estampar em seu rosto, mesmo quando estava séria ou neutra.

Quando os dois brigavam e ele, por mágoa, ficava na varando onde ela não costumava ir, lembrava-se desse sorriso de canto de rosto. Sorriso que certamente fazia parte da feição dela o tempo todo. (Caramba!)

Não sabia o que se passava com ele, mas uma torrente de bom humor envolvia cada milímetro do seu corpo e (Ora bolas…)… Era inevitável. Ele ia lá tentar fazer as pazes.

Ela tinha aquele sorriso naquele instante. Ele a abraçou e encostou a boca em sua nuca. Pegou-lhe a mão gelada e cobriu o resto do corpo imaginando que sentia frio. ”

Conheceram-se há muitos outonos através de amigos. Ela o achava tímido e meio sem-graça, meio sem jeito… Ela também falava muito pouco e ele lembrava-se que até os 16 anos ela vivia ficando doente e quase nunca saia com eles, mas também se lembrava que ela tinha decorado de cabo-a-rabo o livro favorito dele “Anna Karenina”. E ficaram até tarde na pracinha do bairro, onde descobriram que eram vizinhos, trocando figurinhas e passagens do livro.

“Ele deu uma gargalhada silenciosa quando percebeu que só conseguia se lembrar desse tipo de coisa. Aninhou o nariz no cabelo dela e deu um beijo na sua nuca… Também meio fria.”

Naquela época ela usava batom roxo sempre que eles se encontravam. Ele usava cabelo espetado, mas ela o convenceu a parar de usar, pois sempre que se encontravam mexia tanto nele que em questão de minutos a mão dela ficava cheia de gel e o cabelo dele bagunçado. Percebeu que, desde que começara a sair com ela, nunca mais conseguira deixar o cabelo em pé e por isso deixou-o crescer.

Eles saíam pra ir ao cinema no mínimo duas vezes por semana e ele gostava muito dessa rotina. Mas aí ela começou a levá-lo para ver filmes mudos da década de 20 num cinema bem antigo do centro da cidade. Do xadrez, com ela, ele aprendeu a gostar; do piano, como adorava música lenta, adorou que ela o ensinasse, mas nunca se afeiçoara a filmes preto-e-branco (Os mudos principalmente).

Trocaram o rotineiro cinema por passeios longos. E sustentaram isso até ele entrar pra faculdade de ciências contábeis (Fato que ela nunca entendeu).

Nessa época ele a ensinou a pescar e a convenceu a acampar pela primeira vez. Ela não mudou de idéia quanto a isso: Pescar era um saco! E esperneava quando ele propunha novamente. Mas acampar se tornou tudo. Foram várias vezes no ano que passaram a noite olhando para o céu dando nomes para as estrelas e tentando relembrar os nomes já dados.

“ Desde que meditara no relógio que ganhara da sogra, alguma coisa em segundo plano o incomodava, mas não conseguia encontrar uma definição para o que sentia.

De repente percebeu que o contato com ela era quase vazio. Abraçou-a com mais força e fechou os olhos. Duas lágrimas correram desimpedidas pelo rosto dele. ”

Eles romperam e voltaram várias vezes com o que construíram juntos. Ele ficara meio sem-vergonha e ela ficara um pouco mais falante depois de ficarem tanto tempo unidos.

Ela era astróloga e ele trabalhava com cinema. Ele não tinha mais cabelo e batom roxo já não combinava mais com ela.

Depois da última vez que voltaram, ficaram juntos vinte anos, mas nunca se casaram oficialmente.

Os dois ainda se divertiam com trechos de “Anna Karenina”.

Um dia antes de ele estar abraçado a ela, perguntando-se por que ela estava tão fria, tinham feito amor… ali, onde estavam agora, ‘acordado e dormindo’.

Ela ofegava ao lado dele e o suor escorria pela sua pele clara. Ela virou-se para ele sorrindo e ele notou o s seus longos cabelos castanhos emaranhados, bagunçados e escorridos sobre o seu rosto. Ela tinha um ar bobo naquele momento que o fez rir.

Os dois riram durante vários instantes até que ela se deitou sobre ele simulando uma seriedade. ”

“ – Sabe… Desde que ficamos juntos pela primeira vez, há… bom, faz muito tempo não é…? bem… eu.

- Diz… – E ela mordeu os lábios e olhou pro lado.

- Eu não sou mais jovem há um bocado de tempo e… hum…. você também não, é claro – Os dois sorriram. – E tampouco estou na fase mais jovial, energética e, de certa forma, harmoniosa da minha vida. (Ele sentiu um entorpecimento sutil fluir em cada ponto onde a pele nua dela tocava a dele.)

Mas acho que pela primeira vez desde que nos conhecemos posso me apoiar na…

(e sorriram juntos…)

… na certeza de que poderia morrer agora, nesse instante de.. de tão feliz que estou e sou e… (As mesmas duas lágrimas quentes emergiram dos olhos dela)… e se as pessoas buscam um sentido maior para vida, elas… Bom, elas vão ficar muito desapontadas quando descobrirem que não é nada mais do que isso.

Ele a abraçou com força e as duas lágrimas que ela derramara já se confundiam sobre os rios que sua emoção não conseguia represar.

E aquela quarta-feira se foi com a noite. ”

Ele segurou o pulso dela durante longos e estáticos minutos. O frio do corpo dela agora congelava a alma dele.

Ele deitou-se sobre ela calmamente e aproximou o seu rosto do dela. Encostou sua boca na testa dela e arrastou-a lentamente pela sua bochecha esquerda, pelo seu queixo, pelo seu pescoço.

(Chega.)

não há vida aqui

E o peso do que evitou pensar esmagou sua alma, vítrea. TRINCADA pelo toque vazio do corpo dela. Ele minguou. Encolheu-se. Apenas encolheu-se.

Levantou-se sobressaltado. (O quarto frio).

Seus olhos, vermelhos mas sem lágrimas.

(A lividez estava em algum lugar por ali. Espalhada. Rastejava e buscava fôlego).

O relógio parara em 10:15

(O tempo morreu!)

Fitou-a com ilusão, com os olhos enevoados e acariciou o seu seio esquerdo nu que estivera descoberto.

(O tempo é que morreu.)

- Sorriu.

(Para os dois).

E ficou ali.

Não há nada que se suportar. A água flui viva, mas o tempo (MORTO! Está Morto! Morto!) transforma melancolia quente em vazio é com lágrimas criostáticas.

Partiram. (cobriu os dois com a lividez).

(A flor murcha esmigalhou cada caco com um peso flácido)

Foram juntos (Mas os pés dele ainda estavam descobertos. Cobriu-os).

Pó e pó

O fim que eles queriam ter vivido era um filme sobre estrelas.

V I D(A M O R)T E

O Curso do Aqueronte

Postado em Contos em Setembro 7, 2008 por Gabriel Castilho Gil

120.000£ – Que beleza!

Ajeitaram cuidadosamente os quatro sacos e então entraram, os dois, naquele bote de aspecto frágil e pouco confiável. O espaço era o ideal e nem mais meio além dos seis poderia estar ali enquanto remavam afobados para bem longe daquela terra asquerosa.

Mas os pensamentos já ameaçavam entorpecê-los.

Fora, em si, um dia bastante complicado. O mais magrinho dos homens descobrira que a mãe morrera naquela madrugada gélida de sexta feira.  Tuberculose; Não conseguiram pagar o tratamento e… ah! não era só isso! Todo dinheiro que haviam conseguido juntar só serviu para pagar ao médico que diagnosticou a doença. “O Bastardo debruçado na cama da pálida senhora levanta-se sério, o olhar opaco… Dá umas duas voltas pelo quarto e (Por que esse paspalho não fala logo…!?) enquanto escreve num bloquinho amarelo alguma coisa, pigarreia com aquela mesma seriedade desumana… Como se treinasse manter a compostura para uma má notícia (Sua mãe tossindo secamente). Ele pára de repente. Arranca o papel cor-de-peste e lê com sua voz rouca o atestado de óbito para dali a dois meses que se adiantara em escrever”.

- REMA! Não vamos chegar em Southend nunca com você olhando pra cima!

E os dois remaram. O mais gordinho recebeu uma visita do amigo na sua casinha em Bethnal Green. Ele não estava bem. Contou-lhe tudo sobre sua mãe… de como informou a um oficial sobre seu óbito, em prantos, e a viu sendo retirado da cama como um objeto quebrado e logo depois jogada no rio. Desistiria do plano para aquela noite. Foi quase que como uma pedrada brutalmente lançada em sua face, mas era uma decisão compreensível. Mesmo assim o encorajou. Os últimos dois meses foram de grande ambição. Se o país não pudesse ajudá-los pelas suas leis, eles conseguiriam a ajuda fora das leis do país. O dinheiro seria para o tratamento de sua mãe e quando ela estivesse boa fugiriam dali para algum lugar no País de Gales.

Conseguiram abortar um cocheiro-oficial e levar quase todo o conteúdo transportado para o Banco de Londres até a repulsiva margem do Tamisa ao sul de Londres. Pretendiam atracar se não em Southend em algum lugar bem oriental do condado de Kent. Chegariam em West Sussex até dali a 12 horas. Iriam acampar em algum lugar  e até a metade da próxima semana atingiriam Somerset. Dali para Gales era um pulo.

Mas a mesma realidade que lhes dera todo aquele dinheiro, retirara todo o sentido que fora conferido a ele.

O grande êxtase do dia praticamente surgira e sumira no momento em que os dois colocaram a mão nos sacos de brim empanturrados de notas. Naquela altura, provavelmente já estavam bem longe de qualquer preocupação, mas a excitação se esvaecera toda. Fitavam apáticos as águas lodosas e densas do rio. De vez em quando, enquanto remavam, miravam o céu acinzentado e opaco que cobria a noite. Remavam anestesiados pelas seqüelas do dia que ficava para trás. Talvez a glória não fosse tão palpável quanto a fina solidez de todo aquele dinheiro.

A água os levava para a nova vida que morava longe, mas estava carregada de morte em seu comprimento. Os corpos os acompanhariam enquanto fugissem. Lúgubres rostos esverdeados, olhares chocados ou serenamente fechados por pútridas pálpebras ainda muito viriam à superfície. A sombra da peste branca nadava a braçadas vertiginosas no curso do Aqueronte inglês.

Foi no instante em que o rio ganhou um pouco mais de velocidade conferindo um pouco mais de vitalidade ao pensamento dos dois abalados homens.

O Dinheiro poderia mesmo curar alguma coisa?

O mais magro sorriu e o mais gordo tossiu.

- Se a morte nos alcançar antes que alcancemos a salvação, já temos as nossas moedinhas para atravessar com o gondoleiro do inferno.

- Acha que corremos o risco de ficar aqui remando para sempre?

- No rio afluído pelos mortos, não se pode fazer nada para sempre não sendo um também. Mas isso não importa. A questão, meu rapaz, é que com todo esse dinheiro aqui não haveria um morto a vagar pelas margens dessa serpente lívida esperando uma forma de atravessar com Caronte.

- Os dois explodiram em gargalhadas secas permeadas por tosses agudas e vermelhas. O gordinho fuçou desajeitado um saco de dinheiro à procura de alguma coisa. Alguns segundos depois retirou duas moedas douradas.

- Acho que fomos tocados pela morte.

- Fomos. (E naquele instante se convenceu de que mesmo todo aquele dinheiro não poderia ter trazido sua mãe de volta)

- Não sei quanto a você, mas eu quero um quarto bem luxuoso ao lado de Hades.

- Não fico pra trás também!

- Como se tivessem combinado telepaticamente, os dois derramaram todo o dinheiro dos sacos nas águas acinzentadas e nefastas do rio. Dezenas de moedas de ouro e Milhares de libras em notas lisas e amassadas caíram umidecendo-se rapidamente. Os dois entreolharam-se e colocaram juntos, cada um, sua moeda dourada na boca.

Pularam do barco e caíram estrondosamente no rio.

Afogaram-se em uma passividade mórbida um tempo depois.

Naquela noite todos os derrotados conseguiram pagar sua passagem para o mundo dos mortos.

O Pequeno habitante do meio da praça

Postado em Acusmas, Contos em Setembro 7, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Não. Certamente ele não estava lá o tempo todo. A humanidade cria suas marionetes e espera, com equívoco, que elas só se mechem pelas mãos de quem guia. É o erro número 0? Possivelmente. Uma vez que ninguém gosta de ser tão cruelmente surpreendido, é preciso se habituar ao desejo das coisas de compartilhar comportamentos conosco.

Em matéria de anões de jardim, era simpaticíssimo. Ninguém teria mínima repulsão ao deparar-se com o homenzinho de meio metro, grandes e esclarecidos olhos (A sólida experiência era certamente gravada em seu olhar, mas eram olhos surpresos também…) e um sorriso sincero. A barriguinha inchada acobertada pelo falso tecido azul e seu simplório chapéu pontudo laranja; eram seus adornos.

“Meta-lhe um belo chute e terá mais que certeza que é de boa firme cerâmica!”

E era mesmo.

Era um pequeno homem de cerâmica criado por homens para se pensar que era só de cerâmica (e era mesmo). Mas ainda era um pequeno homem.

Era diversamente visto.

Nos dias de chuva as crianças que se deslocavam de carro com os pais se viravam a encará-lo pelo vidro traseiro perguntando-se quanto frio estaria sentindo.

Os adolescentes luxuriosos e egotistas que brotavam aos montes por aquele lugar passavam em seus carros nos mesmos dias e ocasionalmente encontravam os olhos com a silhueta do homúnculo pelos vidros laterais (Tal relação oferece uma questão aos enveredantes no estudo da duvidosa exatidão da racionalidade humana) E os jovens pensavam com certa ironia e uma mais exata aleatoriedade: “Caramba, como seria ruim estar lá fora num tempo desses” (Como aquele homem pequeno, ali no canto (?)). Talvez a alma do pequeno esforça-se em fazer a pedra a sorrir…

Para os adultos era apenas a rocha simpática.

A praça era cercada por umas oito casas. Quase todas, talvez seis… Não. Certamente seis casas tinham varanda. Mas somente a Dra. Morton parecia usar a sua. Passava horas, sentada, corrigindo provas de seus alunos da faculdade. A cadeirinha de balanço pendulava durante intermináveis tardes enquanto Fátima tinha tremeliques de fúria com as respostas mais ignóbeis possíveis.

“Essa gente deve fazer psiquiatria só pra me sacanear. Definitivamente isso não é possível!”

* * *

Num “pós-prova” relativamente agitado a tarde virou noite e ela mal se deu conta disso. Tais notas decidiriam intensivamente aqueles que ficariam com ela mais um semestre. Não queria pegar embromações despercebidas e decidiu que corrigiria uma segunda vez a de alguns alunos de postura mais peralta para com a freqüência.

Ao lado estava a garrafa da sua cerveja favorita. Seu marido, legista e funcionário que não voltaria até as 3 da manhã, vivia perguntando se o álcool não tentaria trapacear ao lado da ganância de alguns alunos.

“Besteira! Quem fica tonto com 355 ml de cerveja?”

A questão em questão exibia um prognóstico de um indivíduo que supostamente apresentava déficit de atenção.

Estava escuro com força a uma boa distância do alcance da luz que jazia bem em cima de sua cabeça. 1, 2, 3, 4 metros e já não se via nem a calçada.

Mas as impressões sempre vagavam por aí…

(… ritalina deve ser ministrada com dose de cafeína reduzida…)

!

O que foi isso?

Nem percebeu na hora. Passou alguns instantes. – Caramba, eu gritei? – Gritou, mas alarmante mesmo foi conseguir ter notado alguma coisa se mexer naquele breu. – Diabos! Está escuro pra chuchu!

Na certa foi um casal de namorados. Malditos sejam! E pra piorar o jardineiro esqueceu de ligar o poste. Isso não é direito… Precisava ter a segurança do que circulava por ali.

Mas para dizer a verdade… O poste ligado não era grande coisa. Querosene era uma bela de uma porcaria. Uma chama tosca bruxuleava sem vida; Era como um vaga-lume amarelo da sua varanda. Capaz apenas de iluminar a si mesmo! É! Exatamente: Chegava a assustar, pois parecia flutuar sobre a escuridão, fixa, mas flutuante. Ninguém tinha a mínimia certeza se havia um poste ali.

A praça também não chegava a ser uma graça durante o dia. “O jardineiro parecia meio desleixado (Desviou o olhar das letras miúdas de Röedel Fritz e encarou o nada-negro)… BEM DESLEIXADO! Se quer realmente que eu te diga”. Tinha um anão lá também. Ele sim era uma graça, mas não via sentido da beleza de um lugar estar concentrado todo numa figura como aquela.

Ficava em baixo da árvore…

(E os olhos cresceram com violência.)

Mas não estava no lugar certo hoje

Soltou um grito mudo, mas caiu na gargalhada 3 instantes depois. Aquilo era perfeitamente encaixável (haha!) A droga da luz estava apagada e só por isso alguém tinha que colocar a porcaria do anão na calçada em frente a sua casa!

Taquicardíaca, ela minguou a risada histérica em um sorriso nervoso. Ainda observava-o. Sabia que o autor daquela bomba psicológica estava à espreita. O anão continuava com o seu plácido sorriso e a feição meio débil! (Mas por que raios isso mudaria!?)

Não percebeu que tinha deixado a prova do homem no chão; Recolheu-a e voltou a corrigir.

(A cerveja ficou esquecida)

Não, não voltou não.

A cabeça completamente direcionada para os garranchos de Fritz, mas sem perceber, seus olhos acabavam indo parar naquela pequena figura. Fitava-o com desconfiança.

Algum tempo depois se encontrou em pé. Os arquivos novamente estavam no chão. Ela não poderia saber, mas seu rosto projetava curiosidade através de traços iracundos. Estava prostrada! Não gostara nem um pouco de ser surpreendida a tal maneira.

- Eu sei que você tem parte da culpa por estar aí.

Encarou cada pedacinho do seu rosto meio desgastado pelo tempo. Permaneceu um pouco mais no seu nariz avantajadamente batatudo. Aproximou-se do parapeito da varanda.

(Artesão infeliz. Pra quê isso…!?)

A verdade é que o rosto do anão ensaiava um movimento a cada instante. Parecia querer se mexer. E Fátima tinha certeza de que iria.

Algo lá dentro parecia não suportar ficar estático! A cada segundo que chegava isso parecia mais natural e a cada segundo que passava isso parecia mais inevitável.

(Não! Não! Não mesmo! Não me force a entrar em casa! Meu deus que situação estúpida!)

Conteve-se.

Mais do que a situação, ela é quem estava sendo idiota. Voltou em passos espasmódicos até a cadeira e sentou-se. Começou a balançar-se imediatamente, com delicadeza. Aceitou que estava tensa demais para terminar a correção da prova de Fritz.

Passeou com os olhos pelo ambiente. Evitou a calçada.

(Estaca-vizinho-breu-breu-parede-breu-breu-vizinho-estaca-vizinho-breu-breu-anão)

ANÃO DE MERDA!

Os seus olhos sempre voltavam-se para o anão. Foi neste instante que parou de tentar evitá-lo… Agora encarava-o corajosamente nos olhos (Tremia pelas marginais.)

(Vai piscar. Aposto que vai piscar).

Mas não descobriu o que aconteceu. Fechou os olhos com as mãos, nervosa e tremulamente. Balançava-se doentiamente na cadeira.

Abria frestas na mão com muita cautela.

Um oitavo, um quarto, a metade, o olho inteiro via o anão no mesmo lugar, na mesma posição de antes de fechar os olhos.

O Olho inteiro via como tudo aquilo era besta.

E sabe o que iria fazer?

Iria até a calçada.

Pegaria o infeliz

O levaria até a árvore

E o deixaria lá

1

2

3

4 passos até a escada.

E ele arredou um passo a frente.

Ela perdeu o ar. Suas pernas eram firmes, mas seus joelhos dissolveram-se no medo. Tropeçou naquele maldito degrau de que seu marido tanto reclamava ao chegar em casa às escuras da madrugada. Rastejou até o meio da sala de estar quando conseguiu se levantar e correu o que restava soluçando até o quarto.

Trancou-se. Não dormiu tentando captar os ruídos de seu arrastar da calçada até a soleira.

Douglas chegou junto com o dia e sua mulher ainda acordada. Os olhos atentos e desconfiados.

Não dormiu aquele dia.

O dia seguinte amanheceu apático e o pequeno homem dava um pouco de cor à praça. Maroto, continuava ao pé da árvore como em todas as outras manhãs.

De vez em quando, ao crepúsculo pouco iluminado, alguém se sentia vigiado enquanto caminhava perto da praça. Não hesitava em parar e se virar para o anão que postava-se de costas. Só de costas.

O Jardineiro cuidava da praça 1 vez por semana ou duas quando em tempos de seca. Cuidava de cada cantinho dos jardins, varria as folhas secas depositadas no chão pelas grandes árvores, adubava os canteiros e regava tudo com, aparentemente, a maior dedicação.

Boas eram as suas mãos que conseguiam fazer direito mesmo ele corria para terminar logo e se ver longe daquela [estátua maldita].

- Se eu fosse o dono deste lugar não deixaria esse gnomo aí assustando quem passa… Espionando agourento! –

Mas a maior parte de quem olhava para ele logo criava empatia com seu bom humor pétreo e deixava o jardineiro falando sozinho.

Os anos passam; chuva, sol forte e fraco, frios rigorosos e confortáveis e o pequeno homem ainda lá embaixo de sua árvore, envelhecendo à sua maneira. A tristeza invisível tinge sua superfície e só se mostra para os que são levados por sensibilidade. Obrigado a ser feliz pelas mãos de quem o modelou, ele arrisca a sorte. Aposta com a eternidade que tudo é capaz de mudar.

Mas Fátima Morton passou a não gostar muito da varanda.