Arquivo para Novembro, 2008

Metagrafia nº4 (O Trevo de duas Folhas)

Postado em Devaneios, Metagrafia em Novembro 27, 2008 por Gabriel Castilho Gil

- Camarada! Hei, hei, hei! Camarada, dá uma paradinha. Rápido, te prometo.

Escuta só.

Tome isso aqui…

- Um trevo?

- Não, ah! Putz Grila, filho: “Um trevo…” Olhe pra minha cara carrancuda. Vem cá, fica pertinho de mim o suficiente pra sentir esse cheiro de catuaba que eu sei que você tá estranhando e a que eu sei que estou fedendo. isso, assim mesmo. Agora olha bem nos meus planetas…

Haha, planetas… bem, você captou a mensagem…

Agora me conta. Eu, cheio de andrajos do jeito que estou, tudo bem, tudo bem, mas, desgraçado no meu cantinho, molhando essa vida etílica de mau-humor e depois tacando fogo por cima iria te parar pra te dar sorte?

Esse não é um trevo qualquer, camarada! Não é sorte, mano. É ponderabilidade.

Cara, essa vida é muito mágica! Muito súbita, louca!! E ela vai se atirando, entende homem?

Vai se disparando na gente que nem uma maldita bazuca ou sei lá o nome dessa tralha que mata duzentos num disparo. Não, não, espera! Bazuca não! Uma arma automática mesmo! Uma daquelas que, caramba, nunca atirei numa dessas… Nunca peguei em uma arma, saca, mas se pusesse as mãos nessa metranca, ia sentir o tesão de dar um click e ver nove tiros saírem audaciosos, varrendo o ambiente, como se perseguissem os malditos pra mim. Aí mais um click, mais um click e pah!pah!pah!pah!pah! Até acabar a cólera e a munição. Bem, as vezes a munição não é suficiente….

A vida é assim! Ela se dispara em tiros secos e se você anda em todos os caminhos do meio, é acertado por ela dos dois lados!

E para os indecisos, para os aflitos, os imparciais, para os que abrem os braços em cima do muro e vão se equilibrando enquanto podem ver de um lado a pobreza e do outro a riqueza, bem e mal, amor e indiferença, pena e compaixão, sim e não….

O Meu fabuloso, caprichoso e extravagante: Trevo de Duas Folhas!

Olha só campeão, haha! Tome aí, a vida como ela é… um lado ou outro. Arranque uma folha e não é mais ninguem, sozinho andando por aí!

Repare que agora que eu matei a presença de todos os meu companheiros. Não,não, não! Não peguei em metralhadoras e saí disparando, como ja disse. Eles simplesmente não existem mais na minha vida. Tenho todos os trevos do mundo ao meu dispor . Posso ir arrancando suas folhas, como fui arrancando meus companheiros da minha vida, mas quando chegar na ultima folha, ah sim, aquela folha solitária como eu, percebi que arrancá-la fora era me arrancar da minha própria vida! Aí parei, homem! Mas agora, todos os trevos que vejo no mundo têm uma folha. Eu!

E agora, o que encontro…! Uma folha que não serve para mim. Tome aí, o Trevo-de-duas-folhas. Seu conselheiro na hora das escolhas difícies. Sua consciência e você.

Você faz uma escolha e ele lhe dá uma consequência. A vida é boa assim, a gente vive assim 300 anos sem perceber, colega. Supimpas! Caminhe por aí! Pode parecer difícil no início, mas se acostuma, se acostuma. Se acostuma a dizer não, a recusar um emprego, a dizer adeus a uma paixão, a deixar um lugar de memórias para a fome do passado, a ver um grande amigo virar para a esquerda quando o caminho da direita parece tão mais atraente, desafiador e… Bem, sim, os caminhos. São muitos…

Se acostuma a fazer tudo e se arrepender de tudo feito, em seguida… uma semana, um mes depois.

*         *        *

Bem, você, caro-leitor: Fique sabendo que recebi um trevo-de-duas-folhas em uma manhã sem graça dessa vidinha bacana.  É claro que tenho que abrir um sorrisinho indolente. Mas, intervalando o assunto rapidamente:

Sem essa de “Escrevo porque escrevo”. É claro que quero alguma coisa. Caramba, acho que quero muita coisa!

Você pode apostar o seu tempo nesse jogo de azar chamado leitura esperando um prêmio…Ha! Você é bobalhão, gente boa! Prêmio você vê gente ganhando em qualquer lugar. Talvez não funcione com qualquer um, mas estão por aí, esses vencedores.

Talvez nos jogos de azar não seja algo a se relevar, mas enquanto lê qualquer porcaria aqui ou em outro lugar já se precaveu da possibilidade de tirar uma seqüência ineditamente unica? Nada premiado, apenas inédito…

Ó, isso vive acontecendo por aqui…

“Encara aquele pernicioso calhamaço opaco: Folhas amarelo-café. Mede com a mão a extensão de anos ou minutos na vida de personagens e deixa-a passar pelo atrito do seu dedão e para na ultima página. Fica muxoxo com  o algarismo que parece mais ano histórico do que número de página e duvida da sua aptidão para tal vereda”.

E aí, em algum instante da ducentésima parte: Tsuc!

Uma ventosa singular dilata suaa pupilaa…. O erro está feito. O protagonista dá a resposta diferente, o antagonista acerta o pavio, o tempo e o espaço de ambientação posicionam o barril explosivo e sua mente entra em órbita no estouro da história (Os motores se desligam e não é mais necessário esforço algum para se manter os avanços).

Qualquer livro é digno de ser julgado pelo capa, pelo número de páginas, pela textura e aspecto das páginas, mas nunca deve-se duvidar da capacidade que um ou dois capítulos têm de atirar na fogueira da fascinação quem o tenta queimar pela falta de figuras.

Ler um livro e não ler outro é uma escolha assim como tudo na vida. É fazer a maturidade que ja se tem agir por si só e decidir a estética da sua próxima auto-evolução,  a cromosfera da sua próxima transformação. Deixamos nossa experiência criar autonomia para escolher seus caminhos e nos trazer bons frutos.

E se falha muito no ato, claro. Deixamos de lado, aos 12, bons livros para os 16 , ou nem descobrimos que seriam bons para os 16 e nunca os lemos.

Bem, o post ameaça atingir o que vai atingir daqui a algumas linhas desde o início dessa metagrafia. Não posso mandar meu ego ir plantar cipó cabeludo enquanto tento escrever sobre coisas grandiosas, toscas, prosaicas, simples e ambiciosas. Inclusive, ele tem uma participação notável em todos os acabamentos, em um ou outro Acusma, participação total e em alguns completamente impessoais foi o que engendrou o interesse motriz.

2008 torturou  (tem torturado) firmemente. Foi um ano que me exigiu muitos esforços para atingir conclusões bem infantis… Bem, sem mais demoras. um pouco sobre o que não sei explicar:

- Esse ano, aprendi que estudar, dissecar, explorar, criticar coisas que se gosta muito a nível de prazer pode, além de completamente construtivo, cruel, assentimental, criar uma série de problemas em torno da solidez dos valores individuais, pode criar uma dissociação entre velhos gostos e a própria identidade de quem gosta e por fim pode acabar te fazendo sair do confortável sofá e sair pra procurar algo novo para se apaixonar. Péssimo e Perfeito. Mas ainda hei de me acostumar, hei de me acostumar.

- Certamente, abusar de eruditismo em um texto literário torna ele, dependedo da dimensão, do patamar que você trilha como escritor, pobre, sem significado e um mero veículo para exprimir seu vocabulário. O Dicionário é um parceiro que te ajuda a concertar vasos quebrados com pequenas quantidades da emulsão-bonder (Los Termos). Você cola cada caco e tem um vaso recriado com um pouco de esforço. Mas acima de tudo, o vaso. Você abusa da cola e tem plástico em forma de vaso.

- Meus amigos estão dizendo que escrevo bem e devo muito à confiança que tenho neles para dizer que estou melhorando mesmo. Devo estar melhorando, sim.  E se realmente estou melhorando não há hora melhorar para dizer que a inspiração não é sua parceira. Quer saber escrever bem? Acho que não tem segredo (Nunca encontrei nenhum por isso estou desistindo de procurar). Escreva, apenas vá escrevendo. Não deixe para escrever quando tiver algo grandioso na cabeça. Moa-se em linhas e as organize nesse papel digital que é inesgotavelmente prático. Não gostou? apague. Mas não deixe de escrever. Nunca. Quase ninguem vem aqui, eu tenho certeza, mas isso nunca foi motivo pra eu escrever menos. Faça do cerne de seu ego seu maior leitor, seu maior espectador, aquele que bate palmas mais altas e que chora com mais volumosidade.

- Se você escreve contos vai acabar descobrindo que sua maior dificuldade é a de tratar de realidades às quais não pertence. Sempre que penso nisso me lembro que li em uma entrevista de alguma revista com Stephen King que ele se propusera a desenvolver uma história de complexidade completamente gerida pelo ventre do universo feminino e nem sabia que em sua cidade absorventes eram ventidos em máquinas.

Saia de casa. Vá viver alguma loucura, alguma coisa diferente. Crie situações reais e repentinamente se descubra dentro delas. Então saia vivo dessas situações com a palpabilidade das reações, dos instantes, dos pormenores que sofreu e reprojete-as com (agora mais facilmente) realismo em seus personagens. Antes de usar sua criatividade para contar sobre paralelos do que vive, tente viver sobre os paralelos do que quer escrever.

Grandes escritores como Tolkien, como lembra Tavos, não acreditavam na magia que utilizavam em seus enredos e faziam grandes obras representando perfis bem diferentes dos seus próprios pessoais.  É um bom patamar, mas é um caminho austero. Quando você começa a escrever, começa um processo de distanciação do seu próprio eu (existencial, filosófico, psicológico, reativo, logístico , etc.). Tudo que você vai escrevendo fica muito próximo do que você acredita, do que você entende, do que você vive. Você tem muita dificuldade de destruir a marca d’água do seu nome em cada frase que “postula”. Escreva, escreva e tente se surpreender. Deixa sua imaginação se tornar um beco sem-saída de repente e quebre essa parede com as marretadas de suas ambições.

Certo. Espero que você, que esteja lendo isso aqui, queira escrever alguma coisa depois. Adoraria que todo mundo se sentise dominado pela mesma fantasia que me envolve ao escrever.

Eu estou aprendendo ainda, espero que tenha paciência com meus errosgramaticais, ortográficos, com meus apelos coloquiais (mostram minha tentativa de mesclar o erudito e o popular) e que, mais esperançosamente, “encontre-se” em algum tema sobre o qual escrevo.

Aos poucos, escrever vai se tornando a folha do trevo que escolhi para me decidir  quanto ao lado da estrada.

Afronesia de Chumbo

Postado em Acusmas em Novembro 13, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Devo empunhar esta foice ou girar a roda do zodíaco?

*

*

*


Vai passar, vai passar. Sempre passe, meu bom homem.

Passa.

Olha ali Bianca! É aquela menina com a qual um dia você quis poder compartilhar as mãos. Quis que te empurrasse no balanço, que brincasse com as suas bonecas adereçadas à ponto russo, que um dia virou pra você e te falou do Diogo, do André, do Denis, do Túlio, do…

Bianca vem cá. O quê que aconteceu a vocês duas? Eram tão amigas, não? Não existiam separadas, simbiose feminina de quarto grau eu diria… Mas vem, me fale o que não mais existe entre vocês.

Senhor dia-após-dia.

A Talita está diferente. Ela começou a passar o recreio com outras meninas também e está vindo com umas idéias esquisitas pra conversar comigo. Eu, eu estou achando ela meio chata. Não queria que ela ficasse diferente. Quero a Talita de sempre. Queria conseguir sorrir pra ela de novo e andar ao lado dela contente de novo e me divertir com ela de novo, mas hoje, mais exatamente nesse instante me lembrei que estou tomando um café com leite, seis minutos atrasada para ficar 6 horas sentada num escritório. Acho que o Sr. Francis não vai me notar, mas essa mancha marrom na minha camisa branquinha… Pago a conta e vou, não é isso? Deixo para pensar nessa história às duas horas da manhã naquela madrugada em que encontrar a nossa bonequinha siamesa nas caixas da mudança. Bianlita, era esse o nomezinho.


Salve-salve seus filhotes lindos, Helena. Os dois pequenos que você achou que não teria quando chupava limões e os cobria de tequila em troca de alguma loucura. Os dois pequenos que serão sempre seus pequenos (Ai, ai me solta!).

Um dia você acordou e descobriu que os dois bebês não estavam no chiqueirinho, onde seu marido os deixava toda manhã ao sair com o cachorro. Helena, Helena, você estava enjoada de aflição quando se pôs a procurar em silêncio pela casa inteira esperando ouvir alguma risada ou gemido de Rômulo. Foi ao banheiro, onde uma vez Remo bateu o queixo na quina da banheira enquanto a observava dar banho no irmãozinho. É isso aí, foi lá umas duas vezes, mas só na terceira olhou para o espelho.

Encontrou aquela placa cristalina embaçada de onde uma mulher de pele amassada por expressões da idade olhava diretamente em seus olhos. (Ah, sim! E você sabe bem que só se olha nos olhos de outra pessoa direta e indiscutivelmente, quando se está postado diante do espelho). Seus lábios trêmulos, intumescidos, fora de foco murmuravam palavras de descrença e repulsão, enquanto você afastava-se um centímetro para cada fio branco que lhe acontecia.

O telefone tocou e você foi atrás do que deveria ser a voz do seu marido a uns dois quilômetros dali, voltando com Asterix da caminhada matutina.

A Secretária eletrônica, mulher bela de voz morna que fora a mesma, sem perder amigos e filhos para… Bem, para a vida, durante 17 anos, comunica:

Mamãe, não volto hoje para o almoço. Vou ver se consigo o visto ainda essa tarde, mas não conte comigo até pelo menos as dezenove horas. Beijo. Te amo mamãe.

Senhor dia-após-dia,

Rômulo e Remo não ficam mais em casa. Os dois têm namoradas que ainda não me foram apresentadas direito e isso me preocupa. Vi a do Reminho uma vez, saindo com ele daqui de casa para o Show do Arrigo Barnabé, mas a do Rô foi só dentro do carro em movimento. Ah, sim, senhor. O Carro. Céus não consigo acreditar que já dirigem. O pior é que quase acredito que isso virou nosso muro. Não me visitam mais e eu, eu já estou ficando maluca com isso. E o pior é que o Hilton apenas continua lendo aquele maldito jornal, me mandando ficar calma, mas eu não posso ficar calma!
Certo, certo. Talvez não seja preciso esse escândalo, mas quando lembro do dia em que Hilton achou que seria uma boa idéia deixar o cômodo livre da casa nova para guardar os jornais velhos tenho que lembrar dos meus pequenos apostando corrida de velotrol, Deus, eram tão meus… Não consigo entender mais nada. Mas agora, talvez nesse instante, não consigo também engolir aquela pilha de papel contendo cada dia da vida que aconteceu fora da minha casa gravada à tinta plúmbea (Maldita, Maldita!) e (Por favor, não me faça ter que tentar, não me deixe pensar em tentar)  não posso digerir um acidente de carro, céus! Não consigo limpar minhas mãos sujas da terra que joguei sobre o caixão do meu pequeno Remo. Falho em tudo, tudo.

(É a idade, homem, é a idade.)

Senhores de Roma, que ergueram a eternidade da civilização e ousaram estender o arco do domínio pelos três cantos do velho mundo. Homens que me dominaram à lã, a chumbo e a números. Costuraram seus exércitos pelas vísceras circulares da mãe terra e colocaram sob seus anulares a imortalidade das eras.

Mas mesmo esse passar dos dias, infreavel como os anéis que me circundam, é abastecido por transformações. E é a mesma solidez dos blocos de gelo eterno quais giram indefinidamente sobre aquele ponto do universo que penetra pelas suas pré-potências, pelos seus equívocos, pelas suas negligências minando-a com o imprevisível. Então tudo mingua num lento e glorioso fim, quando o gigante se deita para a eternidade inviolável e deixa que outros disputem o seu patamar e recriem a certeza fútil de que o sol da grandiosidade surge no leste todas as manhãs.

É isso que lhes tenho a dizer. Sou o pai e não deixo que meus filhos escapem da corda bamba que existe na altura dos meus três olhos.

Passado, para os garotos que fogem de casa numa noite escura e desenterram o cachorro lacrado pela terra da semana passada na esperança de que ele ainda irradie o brilho de velhos presentes.

Presente, para os homens que entendem que a sabedoria não é concedida a quem tem todas as respostas e sim a quem aprende a viver sem elas.

Futuro, aos velhos que viveram o passado e dele, entre várias outras somas, extraíram a segurança para enfrentar o fim e a certeza clórica de que os parasitas que se incubam no seu interior, no interior daquele seu velho cachorro de infância escoltam a vida que existe dentro da morte e a resposta cuja pergunta eles nunca quiseram calar por completo:

O que reconecta o fim ao início?

Moro na casa onde sempre morei. Sou o homem que não perde amigos e não perde parentes.

Sou o homem que engole a todos.

Sou o homem que transforma 10 minutos em uma hora, antes que a cirurgia acabe.

Sou o homem que transforma uma hora em 10 minutos quando ele e ela se olham com todos os  olhos do corpo.

Sou um andarilho insano sobre os anéis de Saturno.

Meu nome é Tempo.

Bom dia Maria e João. Escrevo aqui pois agora há pouco descobri que não mais sou.

Postado em Devaneios em Novembro 9, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Caros Maria e João,

Devem ter achado estranho eu estar enviando-lhes uma carta. Prometi que escreveria uma pra muita gente, mas para ser cordialmente sincero acho que essa é a primeira vez que o faço. Bom, devo confirmar que é exatamente como achei que fosse.

Quero muito dizer a vocês dois que estou fascinado por terem se dado muito bem juntos, como ele e ela. Juro. Sem lisonja. É todo aquele papo bobinho dos dois que nunca poderiam ser imaginadosjuntos até aparecerem de mãos dadas no meio da pracinha, sabem? Ora, é claro que sabem. Consegui encontrar mais uma vez com a velha galera, aquela que vivi falando pra vocês mas que acabei nunca apresentando… Estavam todos meio molecões… Atirando papel toalha em bolinhas com canudos de milk-shake… mas eles são eles.

Assisti a uma palestra em vídeo sobre -  Não sei que nome se dá àquilo -  mas algo genial. O cara que deu a palestra riria dessa carta, mas isso não vêm ao caso. Em algum momento ele deu um exemplo…

Um homem vira para o outro e pergunta: Quem é você?  O outro responde: Ao seus olhos, sou absolutamente quem você quer eu seja.

Acho que era assim. Não lembro bem, mas era quase isso. A resposta é banal e é excentricamente previsível, mas é a reposta mais sincera e reflexiva que alguem poderia dar e que eu nunca teria coragem de dar. Achei bonita e simples; é isso mesmo.

Ela afirma que a pergunta é besta, entendem? Não se deve ir sondando as pessoas aos poucos achando que é útil entendê-las através do que se extrai delas propositadamente.  Nunca faça nenhuma dessas duas coisas a não ser que queira conhecer sombras. É isso. Sombras é tudo que temos das pessoas a quem apenas pré-conceituamos e das pessoas a quem pedimos respostas.

Essa pergunta me deixou meio mal, sacam?Também faço isso. Eu julgo pra dedéu. Mas, bem, não vou estender muito isso…

E o pior é que uso esse argumento injusto pra continuar escrevendo essa carta. Acho que hoje mais cedo eu encontrei algo em mim que está cansado de ser uma sombra. Talvez eu seja injusto com o mundo, mas talvez não seja direito saberem da minha vida sem que queiram se envolver com ela. Sei que não é bem assim que as coisas funcionam. Ja enfiei na minha cabeça que não é assim que funciona, mas escapa.

Está  difícil ser alguém nos ultimos tempos. Também, ando sem tempo de ser alguém, mas quando conquisto algum tempo eu o desperdiço tentando, não consigo simplesmente ser. É, acho que é isso.

Eu prometi pra mim, esse ano, que seria alguem mais flexível, mais compreensivo, mais calmo, menos preocupado, mais honesto comigo mesmo, mais paciente…

Mas a vida não está me dando vontande de querer ser forte e conseguir me apoiar em cada uma dessas coisas. E não é culpa dela. Ela é boa demais. amo-a.

Meu humor anda meio volátil, entendem?

Eu, bem, não diria isso a qualquer hora e sei que vocês vão achar normal, mas choro todas as noites, sacam? Choro porque não tenho idéias, choro porque não tenho iniciativa, choro por que não consigo ter vontade de lutar pra não chorar na noite seguinte. Sou cruel comigo e sei disso. Não deveria fazer isso. Também não falo pra ninguem que estou meio mal. Todo mundo me pergunta se eu estou bem, todos me perguntam se preciso de ajuda… Todos gostam de mim, eu sinto isso!

Mas de manhã é sempre diferente. Acordo com os olhos inchados, mas com um humor renovado, acordo sentindo que o dia vai ser bom, que o sol antecipa a glória e o diferencial de um dia que ainda está para acontecer.

Mas sabe o que me destrói?  – O dia piora, sim piora, mas não é isso que me incomoda – . O que me destrói é que ele não piora todo de uma vez e nunca piora todo. Ele vai piorando aos poucos, consigo ouvir minha alma fazendo uma contagem regressiva monótona como um dia simplesmente nublado… Ninguem morre, mas niguém me esfrega a beleza da vida, nada acaba tragicamente, mas nada acontece milagrosamente, nada é realmente terrível, mas nada é realmente belo. Nada acontece!

Mas que fique claro que tive 10000 oportunidades de mudar de vértice e neguei todas. É possível que eu tenha conquistado o direito de continuar nessa jogada, paralizado.

É nessas horas que me pergunto se ter uma terceira opção além de um lado ou outro do rio vale a à pena. Pois se eu vivo o equilíbrio do Bem e do Mal com este sendo apenas o Indeciso, acho que não vale à pena viver atrás desse equilíbrio.

Escrevo pra vocês dois pois estou numa rara manhã ruim, não foi a primeira, mas curiosamente, hoje, uma manhã ruim . Escrevo pois estou cansado de estar bem e mal ao mesmo tempo num mesmo dia . Escrevo pois gostaria de conseguir deixar de ser apenas uma sombra e passar a ser algo palpável.

Mas se conseguir depende de tentar, vivi minha vida inteira para descobrir que sou covarde para a vida e que seria capaz de coragens que muitos seriam covardes ao realizar.

O que mais temo ter que enfrentar nesse carrossel não é descobrir que não mais serei alguém no mundo, mas descobrir que não deixarei de ser alguém para o mundo.

Sou covarde, pois não tentei a vida, pois falei que ela não dava valor a mim enquanto me abraçava à sua beleza. Sou covarde pois vivi a mudança durante anos de minha vida e agora nesse instante que me separa do não-ser sou incapaz de admitir que tudo pode mudar. Sou covarde por destruir a naturalidade da vida, por fazer pessoas chorarem oceanos mesmo nunca tendo agüentado ver uma gota abandonar os olhos de outros pelas conseqüências de meus atos. Sou covarde por escolher às cegas o lado feio da calçada, por estar cansado de continuar seguindo pela apatia do meio da estrada.

Acima de tudo, Maria e João, sou covarde pois a única carta que escrevi na vida para alguém que amo foi para declarar que sou covarde porque deixei de “ser”.

Afetuosamente,

O Homem-que-torturava-o-amor.

Manhã daquele dia escuro.

Abatedouro

Postado em Acusmas em Novembro 2, 2008 por Gabriel Castilho Gil

- Quem é o Maníaco?

- Quem será o Maníaco…?

Perguntas ficaram fedendo.

 

- Vamos nos apressando. Vamos nos apressando, pessoal! O Rafa vai embora e temos que nos preparar para a despedida que o pessoal estava programando.

- Meu chapa! Presta atenção no que aconteceu! Não tem como ter cerimônia nenhuma agora, nessa situação!!

- O Rafa vai embora, apesar de tudo. É a despedida dele, por pior que seja essa que sofremos. Ponto final; não compliquem…

Meio mal-humorados com a insensibilidade do garoto-piada, foram-se todos para o hall da escola.

Tudo aquilo começou dois dias antes.

Alb é meu nome e eu sou um dos que ficou. Na verdade não foram muitos que nos deixaram, mas o choque que sofremos não vai parar de cutucar tão cedo.

Foi com a idéia fraca de visitarmos aquele lugar com cheiro de xixi. Não devíamos ter feito aquilo. Não devíamos mesmo. Milou era vegetariano e Lapa comia de tudo. Áuria e Crania também eram, mas a persuasão caminhou toda da boca de Milou. Acho que ele queria nos chocar com o que veríamos, mesmo ele nunca tendo visto tudo aquilo. Quando abrimos alguns bichos na aula de biologia ele mesmo não viu nada. Não quis ver. Disse que era crueldade e era mesmo.

Mas eu, Alb, fiquei surpreso quando ele pediu pra que fôssemos até o lugar. Fiquei surpreso, digo, surpreso do meu jeito… Meio abobado, olhando pra cara do homem com a boca aberta balançando a cabeça de um lado para o outro, mas depois incorporava o espírito. Sempre incorporo!

O que me deixou mesmo estupefato (Adoro tanto essa palavra) foi o fato dos outros aceitarem o convite (isso já bagunça minha mente toda! Milou propõe uma coisa dessas! Uma coisa dessas, meu chapa! E ainda por cima os outros aceitam…) Pois bem, todos aceitaram pra valer. Tinindo de ânimo, aquele bando de meninos e meninas que achavam a palavra “odeio” forte demais para ser usada em qualquer frase, ou que ouviam falar de morte e completavam: Credo gente! Aquele pessoal que eu amo pra chuchu, mas fresco até pescar baleia. Todos aceitaram ir pelo caminho mais curto.

Não sei como chegamos lá, não sei se fomos com algum maioral, algum manda-chuva, saca? Mas fomos daquele nosso jeito descontraído e só não depravado por causa das pequenas meninas-mulher.

E eu queria a Áuria. Queria a todo custo, gostava do jeito calmo dela pra falar qualquer coisa… Não falava muito. Parecia medir o número certo de palavras pra usar e sempre completava o sentido de qualquer frase com umas rodadinhas com aquela mão minúscula dela. Caminhava toda bonitinha junto com as outras amigas. Ela e a amigona Gala eram as menorzinhas. Mas enfim, ela estava perdida na primeira mancada que desse… O lugar era estranho e não tinha absolutamente nada a ver com ela. Mas pra tê-la ali, eu seria capaz de tudo, meu caro… Mataria! Mataria pra valer, talvez. Pegaria um machado de um ou dois gumes (tanto faz, ora) e acertaria bem no…

PRIMEIRA LEVA!!!!

Tudo de repente começou a piscar em vermelho, como se uma emergência estivesse ocorrendo. Uma sirene bem subtil soou assustadora. Foi só ali que eu reparei no lugar. Era tudo! Tudo forrado de azulejos brancos: Parede, teto, e piso. Quando a luz vermelha apagava, eu podia perceber nitidamente que o lugar era velho, muito velho e era a céu aberto, não sei como (O pior é que não sei mesmo! Mas podia apostar que os azulejos cobriam o teto). Não tenho certeza se alguém emitiu aquela alerta berrada ou se fui eu quem a imaginou. Lembro que quis perguntar o que poderia ser aquilo, mas tinha de ser pra Milou. Pra ser sincero, tive um bocado de medo daquele lugar desde que entrei lá. Milou desde o início fora o cabeça daquela expedição e, por isso, queria saber o que ele pensava disso tudo. Por ventura, creio que naquele momento eu estava sozinho em um determinado ponto daquele lugar. Estava sozinho e o pior é que eu tinha certeza de que isso era a coisa mais natural do mundo. Mais natural do mundo!

Já excursionou com amigos, não?

Sabe que se você é mais velho, sempre tem aquele momento em que cada um vai pra um canto… Acha alguma coisa interessante pra bisbilhotar…

Mas eu não achava nada interessante ali. Mas era como se eu já conhecesse tudo ali. A sirene e as luzes continuavam apesar de enfraquecerem aos poucos e eu começava a sentir um cheiro estranho, um cheiro forte de carne.

O ponto em que eu estava era um imenso pátio de azulejos com algumas nivelações e degraus de azulejo também que davam para um segundo andar… uma plataforma na verdade, pois não havia paredes. Com o esvair da alerta agora eu observava um céu bem nublado lá em cima… Certamente não havia azulejos no céu.

Uma vez nós abrimos um coração de boi na aula de ciências. Se tem uma coisa de que me lembro dessa ocasião era o cheiro da carne que começava a envelhecer. Conseguia notar perfeitamente a transição do cheiro de mijo, Amônia, ou sei lá o nome que eles dão pra essa merda, para um cheiro de carne velha. Olhava ao meu redor e não via nada.

Estava começando a ficar nervoso. Sentia que ia aparecer sangue daqui a pouco. Jesus! era um abatedouro esse lugar em que estávamos…

Ninguém estava no mesmo pátio azulejado que eu. Havia outras comunicações com outras alas desse lugar maldito, mas do ponto em que estava parado olhando pra todos os pequenos becos, não podia ver ninguém (estava tudo sob controle… De vez em quando uma voz irradiava e a certeza de que havia gente por ali era sólida como um muro).

A carne ia aparecer em algum instante. Caramba. Carne é algo saboroso, mas não queria ver um boi sendo morto. Não queria mesmo! Não queria que cortassem sua garganta na minha frente, que o carneassem diante dos meus olhos. Imaginava que aqueles becozinhos espalhados pela ala acomodariam um abatedor carregando os seus 60 quilos padrões para divisão de peças Ele aparecia a qualquer instante.

Como Crania e Áuria lidariam como o sangue e como estavam lidando com o cheiro só Deus sabe. Também não queria vê-las mal. Principalmente Áuria. Quando a melancolia e a tensão de estar sozinho naquele lugar me venceram, caminhei cuidadosamente até os degraus azulejados.

Eu ia subindo cada patamar com dificuldade e o próximo não falhava de jeito maneira em ser mais difícil ainda de ser escalado. Em alguns eu só conseguia transpor meio deitado e isso era o pior que podia acontecer. Quando me levantava suado eu reforçava mais e mais a impressão de estar fugindo de algo, de alguém… O cheiro acentuava-se à media que alcançava a plataforma. Tinha medo de olhar para trás e ver aquele sangue embebendo miúdos, tripas e ter que misturar o cheiro que eu já sentia a esse composto.

Em algum momento acho que falhei. Olhei para trás mecanicamente, apenas observando todo o progresso estúpido que fiz; Não era só mais alto do que eu tinha subido… Minha visão fisgou os justos pontos que temi serem os pontos sangrentos daquela ala. Havia muita coisa esparramada num cantinho, como fruto de um serviço já realizado, mas o sangue era o que mais espantava… Céus, ele não era como nos filmes em que ele possui um percurso curvilíneo, com se tivesse simplesmente escorrido. Ele parecia ter sido jorrado contra o chão, como se tivesse sido vomitado violentamente por alguém. Arrepiei-me todo; Por fim aqueles azulejos brancos… (por que Brancos? Por que Brancos?). Faziam o sangue parecer obra de um controle preciso. Como se escoasse o quanto desejassem e até quanto permitissem. Aquilo me deixava louco! Tudo era branco e perfeitamente simétrico, porém o sangue e a morte se ejetavam do nada como a loucura em uma solitária em uso.

Em algum instante não agüentei e olhei pra cima. Um intervalo naquele brilho branco e vermelho. Um intervalo cinza… Deus, como eu queria odiar esse dia!

E comecei uma caminhada interminável sobre o patamar que interligava com mais rapidez cada uma das alas que cobriam o horizonte. O alcance da sua visão enjoada e bromosensível à carne ocasionalmente espalhada por alguns lugares…

A coisa mais estranha que me aconteceu nítida em memória foi o fato de eu ter sido o único a usar aquele diabo de plataforma no segundo andar. Eu ouvia um ou outro correndo, mas quando procurava com os olhos tudo que restava era uma perna atravessando uma curva.

De um lado a outro eu notava a melancolia se reproduzir loucamente, dominando-me cautelosamente. Sentei-me umas duas vezes com as pernas balançando sobre o degrau para espera alguém aparecer completamente e me dar um toque de como estava achando aquele recinto macabro, bizarro e outras dezenas de adjetivos indesejáveis e que seria uma idéia batuta dar o fora desse pandemônio de imagens indesejáveis. Bom, ninguém chegou.

Queria realmente saber onde esse pessoal havia se metido. No instante em que quase me dei ao luxo de um disparate eu poderia descer aquilo tudo num salto e começar a correr atrás do pessoal maldito que corria como um bando de animais fugindo de um predador. Seria capaz de pegar um machado, um arpão, uma pistola de ar, ou o que fosse para fazer alguém parar 10 segundos que fosse e olhar na minha cara.

Uma machadada e tudo certo! Bingo!

SEGUNDA LEVA!!!

A sirene rasgou o silêncio de novo e a luz vermelha a acompanhou, mas dessa vez não durou nem dez segundos.

Mas eu preferia ver o vermelho das lâmpadas, do que os jorros vermelhos emanados de encanações (senhor, como eu não percebi esses canos!?). O sangue abundante alagava todas as alas como uma gigantesca inundação. O cheiro agora era funestamente inevitável. Era como presenciar um incêndio diferente… A frieza morta do que produzira tudo aquilo, mas ao mesmo tempo o calor dos últimos fiapos de vida. Sangue ainda coalhado de oxigênio. Vívido. Voltei a disparar pela plataforma. Não queria ficar ali e ver coisas piores surgirem.

Mas aonde quer que meus pés me levavam o vermelho dançava diante do meu desespero. Apenas eu usava aquela plataforma… Eu ouvia cascos batendo contra o chão respingando sangue para todos os lados… Perseguia os rastros temerosamente e me deparava com mais silhuetas humanas. Silhuetas dos meus colegas serelepes que pareciam não entender que tinham as calças saturadas de vermelho e morte!

Duas alas.

Bom. Sempre se pode pensar que o palco de tudo gira em torna de você.

Seis alas.

“Mera eventualidade, mera eventualidade, meu campeão. Os olhos curiosos da juventude se encantam veementemente com as infinitas possibilidades de exploração…”

Onze alas.

“Ou talvez você estivesse procurando no lugar errado durante todo esse tempo… Tentar ver as coisas por cima, afinal de contas, só foi uma boa estratégia enquanto seu professor martelava o erro…”

dezenove alas.

Lá. Limpo. Leucosamente triste, porém singular. Um intervalo no meio do vermelho. Dessa vez um intervalo de total fuga. É claro que eu entrei nessa maldita ala.

Bom. Minha garota estava lá. Meu deus, eu não acreditei mesmo. Ela estava lá de costas pra mim e conversava com a sua amiga Gala e com dois outros colegas que nunca aprendi o nome. Juro que cheguei bem de fininho, indeciso quanto ao alívio ou a boa oportunidade. Eu a toquei e todos os outros sumiram dali. Desequilibraram-se das cadeiras onde estavam sentados e saíram os três correndo dali. Ela continuou parada de costas pra mim, como se estivesse esperando.

Meu rapaz, eu encostei meu nariz no pescoço dela no exato instante que a abracei pelos quadris e senti que ela teve um pequeno sobressalto (e sorri para mim mesmo). Ela inclinou o pescoço e eu apertei com mais firmeza…

Ei boneca, me diz o quê que ta acontecendo com o pessoal…

- Oi?

- Quê que esta acontecendo?

- O que ta acontecendo, Alb, é bem simples.

Ela se virou para mim com uma cara de surpresa e começou a falar:

- Bom, cara. Você fala muito baixo! Tem que falar mais alto e tem que falar coisas mais interessantes também! Estou sempre sentada no meu canto quando você aparece e… Poxa! Ah, mas como eu sou boazinha… Fico lá no meu canto mesmo depois de te ver aparecer, andando desse seu jeito estranho. Deixo de lado toda a preguiça que todo mundo tem de você só pra simpaticamente ouvir toda a mesmice que você vem falar no meu ouvido! Alb, você tem que ser mais interessante e…

Eu não esperava ouvir tudo aquilo, mas acima de tudo não esperava ouvir da forma que ouvi. Não sei como não fiquei mal na hora pelo que ouvi, mas… Ela babava enquanto falava e fazia aquela voz fingida como se caçoasse de mim, não liguei para o que ela disse, mas aí ela começou a me rodear enquanto falava babando toscamente… Nesse instante não tive como evitar nervosismo e segurei firme alguma coisa que tinha pegado sem perceber com a mão esquerda só para ficar me distraindo enquanto andava lá em cima.

Caramba, eu tive que fechar os olhos…

Ouvi dois mugidos.

Quando abri de novo os olhos ela não estava mais do meu lado. Graças a deus. Não queria ter que encará-la de frente de novo. Não conseguiria.

Mas agora havia sangue até meu tornozelo. Perdi meu olfato! Por algum santo motivo fodido não conseguia sentir o cheiro daquele lago vermelho que cobria meus malditos pés e dei graças a deus por não conseguir.

Foi naquele momento que tive medo de não haver saída para aquilo. Não tinha mais como subir de volta. Estava tudo malditamente emplastrado de sangue, como se ele tivesse caída dos céus e respingado em cada lajota de azulejo. Nos últimos degraus tinha carne morta e…

Carne morta e principalmente quente como o sangue que encostava na pele da minha perna. O sangue repugnantemente morno e vivo. Sangue de instantes atrás.

(Não vi nada! Estava de olhos fechados. Nada, nada! Senhor, obrigado por me poupado desse instante perdido odioso).

Aí eu corri.

Ainda não entendia como não tinha me abalado com o que ouvi. Na hora, naquela exata badalada que corria espalhando ondas escarlates de ala em ala o que me passava pela mente era apenas entender tudo aquilo… Antes mesmo de ir embora. Talvez fossem até a mesma coisa, mas a princípio eu queria compreender a armadilha que eu tinha me colocado.

E Foi no pátio em que percebi que já tinha perdido a contagem dos pátios há um bom tempo que eu vi. Aquela cena horrorosa!

Não consegui ver quem era quando me deparei com tal. Maldição! Não entendi coisa alguma. Era tentar ver o tempo passar pelo relógio… Eu olhava para aquela moça encharcada de sangue, gritando. Fora do meu foco todos corriam… Eu via a Gala, Áuria, via Otová tentando escalar para chegar à plataforma, via Milou… via Lapa também… Aliás, ver eu não via, por que eu só via Crania ensangüentada e gritando na minha frente, virada para os outros, mas sabia que eram eles que corriam de um lado para o outro. Quando eu tentava me concentrar no ambiente eu só os via saindo daquela ala. Via apenas seus pés e se prestasse um pouco mais de atenção eu não via nada. Aí voltava a me concentrar e eles voltavam a aparecer fora de foco.

Tive o ódio mais ígneo de toda a minha vida e olhei rubramente para Crania com o corpo inteiro molhado de sangue. Aí quando entendi o que ela gritava, corri antes mesmo dela terminar de falar aquela palavra com M

 

GENTE FOGE DAQUI! O MANÍACO! VAI MATAR TODO MUNDO, CORRE, CORRE! ELE VAI CHEGAR, GENTE!

Eu não vi nenhum abatedor apesar de ter certeza de que eles estavam por ali fazendo seu trabalho sem ligar para as adversidades. Aquilo tinha bem a cara de Crania. Criar aquele escândalo pra chocar todo mundo. Trazer más memórias acerca da carne. Mas ainda assim eu saí correndo. Disparei dali desesperado.

Corria, escorregava e perdia o equilíbrio despencando naquela poça enorme. Levantava aflito e continuava a correr. Ala a Ala, sem coragem de olhar pra trás.

Mas foi aí que entrei em algum lugar diferente, foi quando as alas finalmente deram lugar a uma grande sala fechada e com iluminação fraca. O sangue ainda tangia a sola dos meus pés.

Dei dois passos firmes em frente e outro mugido irrompeu o silêncio frágil que eu tinha conseguido manter.

Eram bois… Não fazia sentido querer saber nada além de que se enfileiravam roboticamente pela sala em duto estreito que terminava num… Num…

Não sei bem o que era aquilo. Uma porta em forma de boca, só que… Poxa… Aquilo era burlesco… Todos sorriam e entravam com um passo humano na grande boca. Esperavam paciente e simpaticamente parados pela sua vez. Sorriam como o céu.

(a lâmpada piscando)

Mas por que eram tão bruscos naquele ultimo passo antes de cair na garganta do abatedouro era o meu mistério.

A luz fraca que piscava de vez em quando dizia que não havia retorno. Havia apenas uma gasosa parede escura no lugar por onde entrei.

(Mais um boi é engolido inteiro)

Me aproximei das cancelas daquele duto enorme e tentei entender uma ultima vez o que havia por trás daquele sorriso enigmaticamente assustador na cara de cada um dos (A LUZ PISCA) garotos que…

TERCEIRA LEVA!!!

Vi.

Vi e então recomecei a correr à medida que o gritante alarme vermelho acelerava a fila indiana a projetando para dentro da boca mecânica que parecia dolorida depois de tanto tempo diante dos meus olhos.

Não ponho muita fé no que vi. Naquele minucioso lapso em que a luz piscou mais fortemente eu provavelmente já não estava presenciando cada momento irrisório que se sucedia na eternidade daquela sala.

Estava correndo. O Maníaco estava por perto, convenci-me. Burrice! Estupidez eminente que me deixou letárgico observando os…

Entrava por salas escuras, fazia curvas acentuadas como nós no espaço e ia me enfiando nas profundezas daquele lugar que há tempo já adquirira o cheiro vil da podridão.

Ainda sentia o sangue se espalhar com minhas pisadas cansadas e lentas. Nunca mais sairia dali.

Duvido que saísse.

Nunca me convenceria de que o mal se fora. Agora que chegara tão perto da morte… Percorrera distâncias a um passo de se misturar a todo o sangue…

Depois ninguém viria me avisar de que o homem se fora. Estavam todos… Acho que ri de mim tentando pronunciar essas palavras, mas era isso. Todos estavam de quatro numa merda de esteira se preparando pra virar picanha, maminha, alcatra e tudo quanto é porcaria pra alguém comer num churrasco de meninos de 14 anos que se acham gênios por colocarem as mãos numa garrafa de vodka.

Mas vou levando fé em continuar aqui até conseguir sair por mim mesmo.

E eu… Eu estava encolhido no meio de um círculo de vasos de pedra no meio de uma sala sofrendo com os malditos ecos. Minha ultima queda, dessa vez sem segundo turno. Não havia mais lugar algum para ir. Não havia mais lugar para se chegar. Não havia mais lugar a partir do exato instante que me levantei sem conseguir entender com chegara ali. Fiquei

Eu levantei-me arrepiado e fui até o brilho fluorescente do interruptor de luz daquela salinha. Espremi-o com calma. PÁ.

 

Muito bem.

Não vou ficar embromando. Chega de fingir a surpresa que sinceramente não senti em cada um dos momentos que falei.

Não quero, na verdade, é parecer muito perturbado pelo que conto… O que aconteceu, não aconteceu rápido e de forma tão confusa assim. Na verdade foi monótono e melancólico. Até os gritos de Crania tiveram tempo de ecoar. Apenas, por favor, não leve a mal e não me chame de egoísta quando pergunto por que eu era a única coisa no abatedouro inteiro que não me sujava com o sangue.

 

Chega. Estou aprendendo a contar histórias.

Tudo que vocês precisam muito de saber antes de eu me deitar e sossegar-me é que 48 horas depois as coisas já tinham voltado completamente ao normal.

Quando me toquei, eu já estava sentado no gramado da escola e…

- Alb, Milou e Lapa estão em paz agora…

- É, eu soube.

- Soube?

- Sim, sim. Uma sacanagem, mesmo, não entendi…

- Não sabem quem matou os dois. Está sendo horrível estar aqui hoje, mas parece que o Rafa vai embora hoje mesmo, não sei como é o esquema, mas eu vou ficar até o fim.

- Ei, eu não queria ficar falando sobre isso… Escuta, vou dar um rolé.

- Desculpa, desculpa, Alb! (sorria)

- Não, não esquenta. Só não quero ter que ficar pensando nisso.

Acho que o meu ultimo erro antes da despedida do rafa que coincidiu com aquele dia macabro foi ter ido atrás dela. Bati na tecla.

Achei que poderia enfrentar minha garota nos olhos de novo e realmente pude. .Áuria estava sorrindo do lado de Crania, que também sorria. Mas era o sorriso de Áuria que eu queria pra mim. E sorri pra ela também. Sorri com a alma pra ela e ela alargou o sorriso.

Ela e o resto das pessoas do meu mundo… Todos sorrindo como o céu.

Foi então que fui puxado para a grande fila que escoltava Rafa pelo corredor. O garoto-piada segurando a vela como um assecla enquanto conduzia a multidão. Muitos comiam uma espécie de pão recheado. Todo mundo, sempre existiu esse esquema de alguns perguntarem o recheio do que era servido e quase nunca comerem após a resposta.

Só que dessa vez ninguém perguntou nada. Simplesmente foram pegando os pães recheados de carne no vaso de pedra e mandando para dentro.

Em seguida, foi o Rafa que apontou-me com suas mãozinhas tortas. Acho que a multidão me levantou e começou a me jogar para cima enquanto outros apenas comiam vigorosa e violentamente aquele pão, o levantam deixando sem querer seu recheio cair algumas vezes. E foi isso.

As vezes penso que seria ótimo se todos os meus problemas, dúvidas e necessidades virassem recheio de carne para pão.

Certamente algumas perguntas ficaram fedendo, repito.