Arquivo para Fevereiro, 2009

Caravanas de Acostamento

Postado em Acusmas em Fevereiro 16, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Tomando como inspiração desde belas paisagens que o cotidiano banaliza, até folhetos que a estrada não pára de trazer a nosso encontro, a história do nosso caminhar vai se formando sem nunca pedir um ponto final

O objetivo, meu chapa, é o próximo passo, que hipnotiza a musculatura treinada de nosso ser qual nunca poderia encarar a solidez de uma estátua. Que mais do que isso, se desgasta ao tentar entender o desejo humano de encontrar no meio da vida um quarto escurinho, fechado e morno; onde possa se trancar sem falha, na segurança do próximo dia e mesmo assim, resignando a sabedoria de velhos anciões que procuram uma tranqüilidade objetiva e contida e se pegam sem querer, em frenesi, frenesi, frenesi (Não respira, continua!) caminhando de um lado a outro no cômodo, botando os miolos para funcionar e se maravilhando com o movimento das próprias engrenagens. Mas por que, para que? Como é possível? Ora se não existe, no âmago da sabedoria da existência, a gota de burrice que faz transbordar o recipiente da mente humana… Transborda a sobrecarga que a mente elétrica não suporta e doa para o corpo ígneo! O corpo que nos carrega, o corpo que nos consome enquanto nós o consumimos pelas rotas siderais das nossas ambições

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única escuridão que conhecemos é a da confusão de nossas mentes entre dois passos e a dos profundos túneis rodoviários!

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única coisa fechada para os nossos olhos e para os nossos corpos é o pensamento do companheiro que está logo ao lado, aéreo entre os silêncios de assuntos que nunca acabam completamente nem começam, simplesmente cochilam

Sim, nós podemos ser humanos, mas o único calor que conhecemos é o do sol do meio dia, o sol da chegada e o sol da partida, que quase se confundem no ato instantâneo de mal se encontrar em algum lugar e começar a se desapegar. O sol está sempre, sempre a um passo de nós! Tecendo a eterna tapeçaria de luz da qual tanto deleite nos é injetado que esquecemos que o néctar é para o viajante não esse travesseiro com penas de ganso, mas o delirante sorriso do homem que nos aponta o próximo não-destino.

Um dia, na borda da estrada, nos pegamos cansados, desanimados, talvez até vegetais, apesar das passadas. A estrada também conta suas histórias… E não é que cansamos de ouvi-las, mas sim que chegamos ao ponto de precisar contá-las também

E de rios destruidores, impiedosos e incansáveis nos tornamos pequenas gotas prateadas, bem acomodadas no espaço que nos é cabido, relembrando que enquanto caminhávamos de cidade em cidade como jovens dotados de asas nos pés, ou velhos magos cinzentos, sabíamos que esse fim era fatal

Viajar nem sempre seria bom enquanto se carregasse o fardo da má notícia nas costas doloridas. Passar por qualquer lugar emanando os agouros vulturinos era o repulsor de olhares que todo andarilho gostaria de possuir enquanto cabeças lançavam olhares desprezíveis para o mendigo que o corpo revelava. Mas carregar a tanto a má quanto a boa notícia de lado a lado do mundo é para poucos… É criar pontes mais sólidas entre extremos simultaneamente intangíveis, mas criar pavores maiores do que as sombras da guerra, da fome, da peste e da morte

Uma odisséia é entre outras coisas um ato discreto de comunicação em que acabamos noticiando para nós mesmos a nossa auto-existência. Nós que corremos o mundo à procura de nós mesmos queremos auto-existir em movimento… Apenas… Apenas, meu chapa, porque nada nesse mundo que tanto  percorreremos, alguma vez, em algum instante, permanecerá completamente parado.

*                      *                      *

(E se alguém nos chama pelo nome à procura de ajuda só podemos alertar que assim como não se chega ou se parte de lugar algum não se pode pontuar ou virgular a vida)

 

Solo Áspero (II)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Fevereiro 8, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Daí que não terminei…

Vou deixar tudo mais líquido, espera:

Fui coveiro duas vezes já. Uma pra Akira, outra pra Tigre e agora pra Uma (Talvez não tenha sido por completo…). Não era meu trabalho enterrar Uma. Era o trabalho de Um, que fugiu. Desgraçado traidor, medroso que tinha medo da vingança. Talvez, pensei, se estiver debaixo da terra… Aí a enterrei… Mal. Por isso ela me persegue um pouco também. Faz um barulho gorgolejante (Górgona? Não, não, era boazinha e bonita só que agora manchada de terra.), rouco (Aqueles olhares que não transformam em pedra mas fazem a gente se lembrar das manhãs frias em que acordamos com a garganta doendo, morrendo de vontade tomar Tanjal em lata, geladinho, sonhandoodnahnos por trás daquela tosse tuberculosa ).

Mas aí fui descobrir que de alguém ela estava atrás, no meio da viagem de volta pra algum lugar.

Antes de ir atrás de Um fui atrás de Outro, é claro.

Mas Más eram aquelas intenções venturescas que me levaram pro meio da rodovia, perto de algum lugar para perto do carro que parou.

Um homem que conduzia através de ares curiosos aquele veículo que mais me lembrava um kart moderadamente bem equipado. É claro que Uma achou Um em alguma parte da história e acabou fazendo o que deveria ser feito. Foi quase assombroso ver aquilo, mas era decididamente o curso natural das coisas (como se pensa fora dos sonhosohnos). Aí, Uma e Um foram sugados pra fora do carrinho, da rodovia e por fim para fora da história que agora me dera o modesto carrinho e o desejo formidável de encontrar Outro. Para quê? Só deus sabe…

Andar é bom, mas correr é melhor quando se tem pernas que tropeçam na Lua tentando desviar da escaldância do Sol. Ficar solitário é ruim, ao se ter o pé na estrada. A todo o momento acha-se que vai se chegar a algum lugar, mas o hábito que vai se conquistando de chegar a qualquer lugar vai transformando o seu formoso destino em nenhum lugar. Aí o desespero ganha o direito de se instalar.

Mas de repente eu posso ver que já é noite e que as luzes do meu carrinho vrum,vrum me fazem um ser tão seguro que eu seria capaz de acelerar.

Contornava aqueles triangulos rodoviários com uma sensação de liberdade tão plena… Ora o que se esperaria…  Uma noite bem iluminada essa que me fez sentir como se perseguindo um cavalo que fugira. Eu vi Outro e cheguei muito perto de seu possante várias e várias vezes, mas era como se algo em mim não quizesse completamente capturá-lo. Fui perdendo o ânimo de continuar correndo e comecei a nostalgiar o ânimo daquela manhã que me enfiou na estrada.

Talvez eu ja tivesse colocado minhas mãos em Outro há muito e tivesse chegado à certeza de que não era o que eu precisava. Meus olhos olhavam para o seu limitado alcance e minhas córneas assim me agradeciam pela dissolução do panorama na imagem do velho Outro tentando dar partida no seu carro, frustrado pela falta de sucesso, mas ainda carregando a vitalidade dos garotos que pegam o carro do pai escondidos; eu provavelmente estava ao lado. Tirei uma foto que deixou o semblante do garoto eventualmente triste e foi isso que o tirou da história como todos os outros. Fosse porque fotos não mechem e por isso não podem fugir ou por ter imprimido sua frustração, que selava o fim de suas resistências.

E então eu estava sozinho na estrada, sentindo me melancólico com aquele kart. Joguei a foto ao vento abafado e tudo foi levado com o vento .

Mas foi curiosamente no menor cateto do triangulo rodoviário em que passei quase um ano circulando que a rodovia me pareceu novamente retilínea, eterna e quente como aquelas longas estradas escaldantes do Arizona.

O motor morto já há horas… Foi que olhei-o com a ternura de um pai e ele me deixou contemplá-lo ganhando uma tração nas quatro rodas.

Aí consegui abandonar o triângulo e seguir até meu próximo problema.