Solo Áspero (II)
Daí que não terminei…
Vou deixar tudo mais líquido, espera:
Fui coveiro duas vezes já. Uma pra Akira, outra pra Tigre e agora pra Uma (Talvez não tenha sido por completo…). Não era meu trabalho enterrar Uma. Era o trabalho de Um, que fugiu. Desgraçado traidor, medroso que tinha medo da vingança. Talvez, pensei, se estiver debaixo da terra… Aí a enterrei… Mal. Por isso ela me persegue um pouco também. Faz um barulho gorgolejante (Górgona? Não, não, era boazinha e bonita só que agora manchada de terra.), rouco (Aqueles olhares que não transformam em pedra mas fazem a gente se lembrar das manhãs frias em que acordamos com a garganta doendo, morrendo de vontade tomar Tanjal em lata, geladinho, sonhandoodnahnos por trás daquela tosse tuberculosa ).
Mas aí fui descobrir que de alguém ela estava atrás, no meio da viagem de volta pra algum lugar.
Antes de ir atrás de Um fui atrás de Outro, é claro.
Mas Más eram aquelas intenções venturescas que me levaram pro meio da rodovia, perto de algum lugar para perto do carro que parou.
Um homem que conduzia através de ares curiosos aquele veículo que mais me lembrava um kart moderadamente bem equipado. É claro que Uma achou Um em alguma parte da história e acabou fazendo o que deveria ser feito. Foi quase assombroso ver aquilo, mas era decididamente o curso natural das coisas (como se pensa fora dos sonhosohnos). Aí, Uma e Um foram sugados pra fora do carrinho, da rodovia e por fim para fora da história que agora me dera o modesto carrinho e o desejo formidável de encontrar Outro. Para quê? Só deus sabe…
Andar é bom, mas correr é melhor quando se tem pernas que tropeçam na Lua tentando desviar da escaldância do Sol. Ficar solitário é ruim, ao se ter o pé na estrada. A todo o momento acha-se que vai se chegar a algum lugar, mas o hábito que vai se conquistando de chegar a qualquer lugar vai transformando o seu formoso destino em nenhum lugar. Aí o desespero ganha o direito de se instalar.
Mas de repente eu posso ver que já é noite e que as luzes do meu carrinho vrum,vrum me fazem um ser tão seguro que eu seria capaz de acelerar.
Contornava aqueles triangulos rodoviários com uma sensação de liberdade tão plena… Ora o que se esperaria… Uma noite bem iluminada essa que me fez sentir como se perseguindo um cavalo que fugira. Eu vi Outro e cheguei muito perto de seu possante várias e várias vezes, mas era como se algo em mim não quizesse completamente capturá-lo. Fui perdendo o ânimo de continuar correndo e comecei a nostalgiar o ânimo daquela manhã que me enfiou na estrada.
Talvez eu ja tivesse colocado minhas mãos em Outro há muito e tivesse chegado à certeza de que não era o que eu precisava. Meus olhos olhavam para o seu limitado alcance e minhas córneas assim me agradeciam pela dissolução do panorama na imagem do velho Outro tentando dar partida no seu carro, frustrado pela falta de sucesso, mas ainda carregando a vitalidade dos garotos que pegam o carro do pai escondidos; eu provavelmente estava ao lado. Tirei uma foto que deixou o semblante do garoto eventualmente triste e foi isso que o tirou da história como todos os outros. Fosse porque fotos não mechem e por isso não podem fugir ou por ter imprimido sua frustração, que selava o fim de suas resistências.
E então eu estava sozinho na estrada, sentindo me melancólico com aquele kart. Joguei a foto ao vento abafado e tudo foi levado com o vento .
Mas foi curiosamente no menor cateto do triangulo rodoviário em que passei quase um ano circulando que a rodovia me pareceu novamente retilínea, eterna e quente como aquelas longas estradas escaldantes do Arizona.
O motor morto já há horas… Foi que olhei-o com a ternura de um pai e ele me deixou contemplá-lo ganhando uma tração nas quatro rodas.
Aí consegui abandonar o triângulo e seguir até meu próximo problema.