Caravanas de Acostamento

Tomando como inspiração desde belas paisagens que o cotidiano banaliza, até folhetos que a estrada não pára de trazer a nosso encontro, a história do nosso caminhar vai se formando sem nunca pedir um ponto final

O objetivo, meu chapa, é o próximo passo, que hipnotiza a musculatura treinada de nosso ser qual nunca poderia encarar a solidez de uma estátua. Que mais do que isso, se desgasta ao tentar entender o desejo humano de encontrar no meio da vida um quarto escurinho, fechado e morno; onde possa se trancar sem falha, na segurança do próximo dia e mesmo assim, resignando a sabedoria de velhos anciões que procuram uma tranqüilidade objetiva e contida e se pegam sem querer, em frenesi, frenesi, frenesi (Não respira, continua!) caminhando de um lado a outro no cômodo, botando os miolos para funcionar e se maravilhando com o movimento das próprias engrenagens. Mas por que, para que? Como é possível? Ora se não existe, no âmago da sabedoria da existência, a gota de burrice que faz transbordar o recipiente da mente humana… Transborda a sobrecarga que a mente elétrica não suporta e doa para o corpo ígneo! O corpo que nos carrega, o corpo que nos consome enquanto nós o consumimos pelas rotas siderais das nossas ambições

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única escuridão que conhecemos é a da confusão de nossas mentes entre dois passos e a dos profundos túneis rodoviários!

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única coisa fechada para os nossos olhos e para os nossos corpos é o pensamento do companheiro que está logo ao lado, aéreo entre os silêncios de assuntos que nunca acabam completamente nem começam, simplesmente cochilam

Sim, nós podemos ser humanos, mas o único calor que conhecemos é o do sol do meio dia, o sol da chegada e o sol da partida, que quase se confundem no ato instantâneo de mal se encontrar em algum lugar e começar a se desapegar. O sol está sempre, sempre a um passo de nós! Tecendo a eterna tapeçaria de luz da qual tanto deleite nos é injetado que esquecemos que o néctar é para o viajante não esse travesseiro com penas de ganso, mas o delirante sorriso do homem que nos aponta o próximo não-destino.

Um dia, na borda da estrada, nos pegamos cansados, desanimados, talvez até vegetais, apesar das passadas. A estrada também conta suas histórias… E não é que cansamos de ouvi-las, mas sim que chegamos ao ponto de precisar contá-las também

E de rios destruidores, impiedosos e incansáveis nos tornamos pequenas gotas prateadas, bem acomodadas no espaço que nos é cabido, relembrando que enquanto caminhávamos de cidade em cidade como jovens dotados de asas nos pés, ou velhos magos cinzentos, sabíamos que esse fim era fatal

Viajar nem sempre seria bom enquanto se carregasse o fardo da má notícia nas costas doloridas. Passar por qualquer lugar emanando os agouros vulturinos era o repulsor de olhares que todo andarilho gostaria de possuir enquanto cabeças lançavam olhares desprezíveis para o mendigo que o corpo revelava. Mas carregar a tanto a má quanto a boa notícia de lado a lado do mundo é para poucos… É criar pontes mais sólidas entre extremos simultaneamente intangíveis, mas criar pavores maiores do que as sombras da guerra, da fome, da peste e da morte

Uma odisséia é entre outras coisas um ato discreto de comunicação em que acabamos noticiando para nós mesmos a nossa auto-existência. Nós que corremos o mundo à procura de nós mesmos queremos auto-existir em movimento… Apenas… Apenas, meu chapa, porque nada nesse mundo que tanto  percorreremos, alguma vez, em algum instante, permanecerá completamente parado.

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(E se alguém nos chama pelo nome à procura de ajuda só podemos alertar que assim como não se chega ou se parte de lugar algum não se pode pontuar ou virgular a vida)

 

Uma resposta para “Caravanas de Acostamento”

  1. Gabriel Castilho Gil Diz:

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