Solo Áspero (III)

Olha só como encaro tudo…

“…Meu próximo problema.”

Aiaiai! Mas é isso mesmo.

A terra grossa, sem pó, granulosa, eu, com um sorriso confiante pregado, adesivado no rosto e todo aquele chão que só fazia ficar mais familiar para mim a cada diâmetro do meu aro 15 novinho, recém desmascarado.

Era um homem de ambições fumegantes agora, mas o espírito infantil se contorcendo dentro do meu corpo elástico as vezes mostrava uma perninha ou bracinho de imaturidade que tentava romper a pele da minha barriga ou da minha testa.

Apreciável!

E o melhor de tudo era perceber que a velocidade não se sentava no banco de reservas simplesmente porque o peso queria jogar livremente. Eles eram grandes companheiros, como um dia foram Um e Uma. Eu podia correr como a  Corça de Cerínia e com a monstruosidade de um Ciclope sem me desintegrar pelas estradas bronzeadas de luz e calor.

Tempos depois eu  ja era um visionário, subindo e descendo morros encardidos, brincando com a sombra das pedras maiores que apareciam no caminho. Algo em meu interior me proibiu a certa altura de sair desse percurso que não deveria ter mais de vinte metros… talvez tenha sido aí que meu lado adulto se tornou forte e teimoso o suficientepara me avacalhar.

Tachinhas, estilingues, pó de mico e qulquer outra buginganga só tinham a me revelar que eu só conseguiria descer pelo mesmo lado do morro, por mais que meu eu criança insistisse em explorar cada grama de farelo de bauxita por ali até que fosse a hora de sair e encontrar um novo canto (uma nova melodia e um novo lugar em que pudesse deitar )…

Mas meu lado adulto amava o poente ao lado das sombras femininas e masculinas que o lugar abrigava… Pareciam artificiais para ele, mas seu calor era tão poderoso que se confundia com o do poderoso nascente  (elas nunca estavam ao meu lado nas manhas). Elas eram o sol matutino e ter essa certeza lhe bastava.

Um dia a inevitável batalha veio. Não poderia para sempre ser dois indivíduos. Teria de escolher entre continuar ali ou abandonar o lugar, entre a infância e a maturidade. Entre o morro e a continuidade da estrada, entre o sol e as sombras.

Eu fiz a escolha. Sim, fiz.

Uma resposta para “Solo Áspero (III)”

  1. Ei, Gabriel,
    depois de muito tempo , volto e vejo que seu sítio literário continua profícuo e inspirador. Um dia,quem sabe, poderemos conversar um pouco e mais sobre seus escritos e leituras? Quem sabe? Boa sorte e bom trabalho! Beijos,Yara

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