Barcarola
Per ribeira do río
vi remar o navío,
e sabor hei da ribeira.
(Vai)
Vi, com meus olhos desejosos. Minhas mãos trêmulas, ai Deus. A água deslizando-se pela areia deitada distante, mas a meu lado. Serenamente, a lua alisando o corpo do mar, mar somado às fluviais águas de rumo decidido, à minha frente. Ah, quisesse Deus que eu fosse o rio, breve rio defronte a mim. Rio que num piscar de uma estrela nessa clara noite se encontrará com a selvageria salgada que se torce e retorce sobre si mesma. Rio que deixando o sentido objetivo se jorra na selvageria da deriva. Ah, quisesse Deus que eu fosse o rio e me rendesse à imensidão azul. Imensidão que oscila em ondas, vem e volta, vem e volta, mais forte! Vem e volta, vem e volta! Imensidão que vai mas nunca chega, imensidão que com o orgulho da terra, vai, mas vai sempre olhando pra trás. Ai meu amigo, quisesse Deus me fazer rio pra te encontrar no vazio desse mar e me desencontrar do vazio que meu peito há de para este sempre carregar.
Irei a lo mar veé-lo meu amigo:
pregunta-lo-ei se querrá viver migo.
E vou-m’eu namorada.
Pregunta-lo-ei por que non vive migo,
e direi-lh’a coita’n que por el vivo.
E vou-m’e namorada.
(Volta)
O Tempo que passa é o vento que bate na vela e nessa imensidão confusa nos faz vagar sem cessar. A nau é o corpo resolvido e nós, que aqui atuamos, a alma perturbada, penada, a alma que quer a terra, quer a cama, quer o cheiro do seco, quer o solo duro, quer aquela que se mostra, que se faz existir em nossas memórias, que se faz presente apenas pelo olhar que mirou a mesma água sob nosso corpo. O Destino, o Vento e o Desequilíbrio se alinham nas mãos do ancião embebido de fúria e a água está sempre a ebulir ao nosso redor. Envelhecemos o corpo e a casca da alma, nos constipamos perfurados pelos três espinhos oceânicos, mas ainda sentimos a alegria emergir da borda do horizonte, sentimos a elevação e o mesmo tempo que a cria nos faz aceitar o instante da rebentação em que tudo desaba e se emaranha na espuma.
Voltem pra mim, minha terra, meu povo, minha amada. Não mais me torturem com rochedos, afogados e ninfas. Não mais sei onde me encontro, porém mais do que sei aonde quero atingir, sei para onde quero voltar.
Nas barcas novas foi-s’o meu amigo d’aquí
e vej’eu viír barcas e tenho que ven i,
mia madre, o meu amigo.
(Vai)
Ai ,u é tu que me deixou a esperar, a receber de bom grado retornantes de corpo e espírito doentes, u é tu que acende meus eixos com navios vazios para mim, que me faz criar tormentas no meio da calmaria de praias desertas para mim, que me faz sorrir por madrugadas sonhadoras, madrugadas insones, madrugadas convictas.
Eu me desespero. Eu estraçalho as águas frias a procurar vestígios do nosso passado. Eu não quero mais suportar a madeira podre sobr’ a qual estou sentada. Não mereço, não preciso, não quero, mas me ponho a suportar…
Os mares do nosso (velho) mundo, arquipélagos inteiros, ecos da minha mente em agonia, ai Deus, só pode ser eu, coitada e tola, que cria os maremotos em seu caminho, que faz surgir corsários em momentos de paz, que dá bela voz às sereias… Corro impaciente em volta de grandes atóis noturnos, os decoro, ignoro as marés que vem e vão por anos, tropeço na própria água dura, corro sem sair do lugar… te chamo, te grito… Gritos que sopram seu vento para o sentido errado, gritos que chegam com moléstias, gritos que acordam monstro marinhos.
porém, gritos que não quebram o silêncio do porto.
E cercarom-mi as ondas do alto mar,
nom ei i barqueiro nem sei remar.
Eu atend’o meu amigu’… e verrá?
Nom ei i barqueiro nem remador,
e morrerei eu fremosa no mar maior
Eu atendend’o meu amigu’… e verrá?
Nom ei i barqueiro nem sei remar
e morrerei eu fremosa no alto mar.
Eu atendend’o meu amigu’… verrá?
(Volta)
(Vai)
(Volta)
…
Abril 11, 2009 às 9:16 pm
(8)
Trechos em negrito retirados de Cantigas de Amigo (marinhas) de Joan Zorro, Nuno Porco e Meendinho.
Abril 22, 2009 às 2:56 pm
Gabriel, o Trovador,
difícil fazer uma cantiga dessas, ainda mais quando se escolhe a voz feminina. Apesar de você ter pedido a volta da amada. as digressões são obrigatórias quando queremos fazer arte,né?
Gostei do ritmo marinho,tormentoso que você conseguiu. Abraços.