Taxidermia
Hanna, o que você acha d’eu, nessa minha pele insossa, me apresentar para você esta noite…?
Posso lhe contar algumas histórias lúgubres, algo do conhecimento profano que não se ouve todo dia ou mesmo toda noite, alguma sujeira obscura do mundo, algo do bizarro, do vertiginoso campo da não-ciência humana.
Ah!
Mas talvez, minha cara Hanna,
talvez você queira ouvir algo que ja foi dito, talvez queira que eu derrame um vinho de Baudelaire nessa seda alva que te acaba, ou talvez queira sentir um sereno arrepio na nuca enquanto te sussurro Poe.
Talvez queira se afogar num rio de amônia para sentir o gélido hálito de Lovecraft te trazer de volta a uma semi-vida. Talvez queira dar as mãos a King e se prender numa esfera de vidro temperado só para trincá-la com o desespero de seus gritos…
Talvez queira seu corpo dissecado pelo bisturi do medo que Cook teria o prazer de incidir cuidadosamente sobre a pele de sua lucidez… Haha… Quem sabe não quer seu nome num livro de sangue escrito por Barker?
Oh, querida, mas que indelicadeza minha…
Ja dizia uma velha voz que às vezes o que se diz nada importa diante do meio com que se diz….
Então o que acha d’eu me vestir com uma pele de gato preto e te surpreender na esquina de um corredor antes de infernizar seu sono?
Ou talvez eu devesse me vestir com a pele de um leão e rasgar sua tranquilidade com minhas presas sujas…
Se eu fosse um cauteloso lobo e, caminhando através da minha fantasmagórica presença, abocanhasse sua falta de cuidado… o que acharia?
Eu também poderia ter a discreta penugem de uma coruja e lhe causar um arrepio na calada da noite. Poderia ser um víbora e fazer suas esperanças contorcerem-se, subjugadas pela minha toxina…
Poderia ter o corpo de um’ A Coisa e tornar-me o ceifador de seus sonhos, poderia ser o próprio Cthullu e dissolver as barreiras que te separam do desconhecido. Poderia ser a Morte Rubra e contaminar suas fantasias as tornando pestilentas úlceras emocionais…
Ou então… Minha linda…
Você pode querer que eu costure pele humana ao meu corpo, ligue veia à veia, nervo à nervo e venha travestido de mim mesmo lhe contar uma macabra história de minha autoria…
Pois, como humanos, somos inventores de todos os pavores que assolam esse e todos os outros mundos que criamos.
Junho 18, 2009 às 3:49 am
Inventores de todos os pavores :this is certainly!
Outro dia reli trechos de Noites da Taverna , não é bom demais?
Até.