Água Pesada (III)
Enfim, meus caros parceiros, me rendi a esses luxos que vemos por aí..
(fiquei demasiadamente sóbrio para ter meu passado como legítima sombra…)
A cidade, céus… feia é só por fora, principalmente essa, mas agora que nado em seu útero, a cada instante me sinto como Hansel ( e Gretel) à primeira vista daquela casinha de guloseimas.
Hoje por exemplo, já me encontro numa saborosa encruzilhada. hrum.
Tenho no meu bolso 22 moedas de um real e dois desejos para o poço, fundo fundo. Ou vou almoçar, ou vou ao cinema com pipoca.
Como todo bom selvagem, quero os dois e fico no restaurante japonês com a turma para depois correr atrás de alguma bagaceira; poxa vida, tanta coisa bizonha passando por aí.
Mas aí aquela mocinha, ora, ora…
ócio permeando certas posições da mesa… comida chegando viole(n)tamente e pares de olhos que procuram algo mais confortante para fitar e, bem, mal percebo que o ar ja está cheio de evasivas pouco profundas e inquietação nos cabelos e aí…
ela ja vai ao cinema comigo com a condição d’eu deixar a bagaceira para outra instância (um presente da cidade, essa terminologia).
E aí vamos, á cavalo, é claro… Longo caminho e nenhum meio de transporte é bom o bastante para nós dois, de repente estou farto dessas grosserias ordinárias de quatro rodas.Farto!!!!
Meu Mustangue… Nosso Mustangue… veloz como o relógio em dias tranquilos. Infelizmente eu esqueci o dinheiro no bar. 22 notáveis moedas de um real. Mas frear nosso Mustangue seria uma desavença, disparávamos para longe da cidade (eu seguia as pedras brancas que deixara pelo caminho) como um casal fora-da-lei após um roubo de trem.
Atravessávamos um terreno que ameaçava se tornar pantanoso, a qualquer instante; um denso cheiro de pólvora movimentando as correntes de ar e o medo de sermos tragados pela fúria de algum sujeito. Pergunto-me se est’é o filme que estamos vendo, mas me descompasso quando três homens de espingarda se plantam na porcaria da cerca à nossa frente.
- Pedágio… – sussuram secos para nós, a uns 150 metros de distância.
- estamos indo para o cinema, não podemos pagar agora.
- Ouço alguns disparos, mas estou em órbita;
Uma gélida sensação na altura dos meus rins acaricia minha desconfiança;
Pulo a cerca onde se posicionam os três peões e preparo-me para cair naquele rio pantanoso que ameaçava acontecer em nosso caminho a qualquer mísero interante.
Ouça as gargalhadas esqueléticas de doce doce Gretel ou da confeiticeira, quem faltava nessa estória…
estou para descobrir, o final do filme sempre chega para aqueles que o assistem