- Quem é o Maníaco?
- Quem será o Maníaco…?
Perguntas ficaram fedendo.
- Vamos nos apressando. Vamos nos apressando, pessoal! O Rafa vai embora e temos que nos preparar para a despedida que o pessoal estava programando.
- Meu chapa! Presta atenção no que aconteceu! Não tem como ter cerimônia nenhuma agora, nessa situação!!
- O Rafa vai embora, apesar de tudo. É a despedida dele, por pior que seja essa que sofremos. Ponto final; não compliquem…
Meio mal-humorados com a insensibilidade do garoto-piada, foram-se todos para o hall da escola.
Tudo aquilo começou dois dias antes.
Alb é meu nome e eu sou um dos que ficou. Na verdade não foram muitos que nos deixaram, mas o choque que sofremos não vai parar de cutucar tão cedo.
Foi com a idéia fraca de visitarmos aquele lugar com cheiro de xixi. Não devíamos ter feito aquilo. Não devíamos mesmo. Milou era vegetariano e Lapa comia de tudo. Áuria e Crania também eram, mas a persuasão caminhou toda da boca de Milou. Acho que ele queria nos chocar com o que veríamos, mesmo ele nunca tendo visto tudo aquilo. Quando abrimos alguns bichos na aula de biologia ele mesmo não viu nada. Não quis ver. Disse que era crueldade e era mesmo.
Mas eu, Alb, fiquei surpreso quando ele pediu pra que fôssemos até o lugar. Fiquei surpreso, digo, surpreso do meu jeito… Meio abobado, olhando pra cara do homem com a boca aberta balançando a cabeça de um lado para o outro, mas depois incorporava o espírito. Sempre incorporo!
O que me deixou mesmo estupefato (Adoro tanto essa palavra) foi o fato dos outros aceitarem o convite (isso já bagunça minha mente toda! Milou propõe uma coisa dessas! Uma coisa dessas, meu chapa! E ainda por cima os outros aceitam…) Pois bem, todos aceitaram pra valer. Tinindo de ânimo, aquele bando de meninos e meninas que achavam a palavra “odeio” forte demais para ser usada em qualquer frase, ou que ouviam falar de morte e completavam: Credo gente! Aquele pessoal que eu amo pra chuchu, mas fresco até pescar baleia. Todos aceitaram ir pelo caminho mais curto.
Não sei como chegamos lá, não sei se fomos com algum maioral, algum manda-chuva, saca? Mas fomos daquele nosso jeito descontraído e só não depravado por causa das pequenas meninas-mulher.
E eu queria a Áuria. Queria a todo custo, gostava do jeito calmo dela pra falar qualquer coisa… Não falava muito. Parecia medir o número certo de palavras pra usar e sempre completava o sentido de qualquer frase com umas rodadinhas com aquela mão minúscula dela. Caminhava toda bonitinha junto com as outras amigas. Ela e a amigona Gala eram as menorzinhas. Mas enfim, ela estava perdida na primeira mancada que desse… O lugar era estranho e não tinha absolutamente nada a ver com ela. Mas pra tê-la ali, eu seria capaz de tudo, meu caro… Mataria! Mataria pra valer, talvez. Pegaria um machado de um ou dois gumes (tanto faz, ora) e acertaria bem no…
PRIMEIRA LEVA!!!!
Tudo de repente começou a piscar em vermelho, como se uma emergência estivesse ocorrendo. Uma sirene bem subtil soou assustadora. Foi só ali que eu reparei no lugar. Era tudo! Tudo forrado de azulejos brancos: Parede, teto, e piso. Quando a luz vermelha apagava, eu podia perceber nitidamente que o lugar era velho, muito velho e era a céu aberto, não sei como (O pior é que não sei mesmo! Mas podia apostar que os azulejos cobriam o teto). Não tenho certeza se alguém emitiu aquela alerta berrada ou se fui eu quem a imaginou. Lembro que quis perguntar o que poderia ser aquilo, mas tinha de ser pra Milou. Pra ser sincero, tive um bocado de medo daquele lugar desde que entrei lá. Milou desde o início fora o cabeça daquela expedição e, por isso, queria saber o que ele pensava disso tudo. Por ventura, creio que naquele momento eu estava sozinho em um determinado ponto daquele lugar. Estava sozinho e o pior é que eu tinha certeza de que isso era a coisa mais natural do mundo. Mais natural do mundo!
Já excursionou com amigos, não?
Sabe que se você é mais velho, sempre tem aquele momento em que cada um vai pra um canto… Acha alguma coisa interessante pra bisbilhotar…
Mas eu não achava nada interessante ali. Mas era como se eu já conhecesse tudo ali. A sirene e as luzes continuavam apesar de enfraquecerem aos poucos e eu começava a sentir um cheiro estranho, um cheiro forte de carne.
O ponto em que eu estava era um imenso pátio de azulejos com algumas nivelações e degraus de azulejo também que davam para um segundo andar… uma plataforma na verdade, pois não havia paredes. Com o esvair da alerta agora eu observava um céu bem nublado lá em cima… Certamente não havia azulejos no céu.
Uma vez nós abrimos um coração de boi na aula de ciências. Se tem uma coisa de que me lembro dessa ocasião era o cheiro da carne que começava a envelhecer. Conseguia notar perfeitamente a transição do cheiro de mijo, Amônia, ou sei lá o nome que eles dão pra essa merda, para um cheiro de carne velha. Olhava ao meu redor e não via nada.
Estava começando a ficar nervoso. Sentia que ia aparecer sangue daqui a pouco. Jesus! era um abatedouro esse lugar em que estávamos…
Ninguém estava no mesmo pátio azulejado que eu. Havia outras comunicações com outras alas desse lugar maldito, mas do ponto em que estava parado olhando pra todos os pequenos becos, não podia ver ninguém (estava tudo sob controle… De vez em quando uma voz irradiava e a certeza de que havia gente por ali era sólida como um muro).
A carne ia aparecer em algum instante. Caramba. Carne é algo saboroso, mas não queria ver um boi sendo morto. Não queria mesmo! Não queria que cortassem sua garganta na minha frente, que o carneassem diante dos meus olhos. Imaginava que aqueles becozinhos espalhados pela ala acomodariam um abatedor carregando os seus 60 quilos padrões para divisão de peças Ele aparecia a qualquer instante.
Como Crania e Áuria lidariam como o sangue e como estavam lidando com o cheiro só Deus sabe. Também não queria vê-las mal. Principalmente Áuria. Quando a melancolia e a tensão de estar sozinho naquele lugar me venceram, caminhei cuidadosamente até os degraus azulejados.
Eu ia subindo cada patamar com dificuldade e o próximo não falhava de jeito maneira em ser mais difícil ainda de ser escalado. Em alguns eu só conseguia transpor meio deitado e isso era o pior que podia acontecer. Quando me levantava suado eu reforçava mais e mais a impressão de estar fugindo de algo, de alguém… O cheiro acentuava-se à media que alcançava a plataforma. Tinha medo de olhar para trás e ver aquele sangue embebendo miúdos, tripas e ter que misturar o cheiro que eu já sentia a esse composto.
Em algum momento acho que falhei. Olhei para trás mecanicamente, apenas observando todo o progresso estúpido que fiz; Não era só mais alto do que eu tinha subido… Minha visão fisgou os justos pontos que temi serem os pontos sangrentos daquela ala. Havia muita coisa esparramada num cantinho, como fruto de um serviço já realizado, mas o sangue era o que mais espantava… Céus, ele não era como nos filmes em que ele possui um percurso curvilíneo, com se tivesse simplesmente escorrido. Ele parecia ter sido jorrado contra o chão, como se tivesse sido vomitado violentamente por alguém. Arrepiei-me todo; Por fim aqueles azulejos brancos… (por que Brancos? Por que Brancos?). Faziam o sangue parecer obra de um controle preciso. Como se escoasse o quanto desejassem e até quanto permitissem. Aquilo me deixava louco! Tudo era branco e perfeitamente simétrico, porém o sangue e a morte se ejetavam do nada como a loucura em uma solitária em uso.
Em algum instante não agüentei e olhei pra cima. Um intervalo naquele brilho branco e vermelho. Um intervalo cinza… Deus, como eu queria odiar esse dia!
E comecei uma caminhada interminável sobre o patamar que interligava com mais rapidez cada uma das alas que cobriam o horizonte. O alcance da sua visão enjoada e bromosensível à carne ocasionalmente espalhada por alguns lugares…
A coisa mais estranha que me aconteceu nítida em memória foi o fato de eu ter sido o único a usar aquele diabo de plataforma no segundo andar. Eu ouvia um ou outro correndo, mas quando procurava com os olhos tudo que restava era uma perna atravessando uma curva.
De um lado a outro eu notava a melancolia se reproduzir loucamente, dominando-me cautelosamente. Sentei-me umas duas vezes com as pernas balançando sobre o degrau para espera alguém aparecer completamente e me dar um toque de como estava achando aquele recinto macabro, bizarro e outras dezenas de adjetivos indesejáveis e que seria uma idéia batuta dar o fora desse pandemônio de imagens indesejáveis. Bom, ninguém chegou.
Queria realmente saber onde esse pessoal havia se metido. No instante em que quase me dei ao luxo de um disparate eu poderia descer aquilo tudo num salto e começar a correr atrás do pessoal maldito que corria como um bando de animais fugindo de um predador. Seria capaz de pegar um machado, um arpão, uma pistola de ar, ou o que fosse para fazer alguém parar 10 segundos que fosse e olhar na minha cara.
Uma machadada e tudo certo! Bingo!
SEGUNDA LEVA!!!
A sirene rasgou o silêncio de novo e a luz vermelha a acompanhou, mas dessa vez não durou nem dez segundos.
Mas eu preferia ver o vermelho das lâmpadas, do que os jorros vermelhos emanados de encanações (senhor, como eu não percebi esses canos!?). O sangue abundante alagava todas as alas como uma gigantesca inundação. O cheiro agora era funestamente inevitável. Era como presenciar um incêndio diferente… A frieza morta do que produzira tudo aquilo, mas ao mesmo tempo o calor dos últimos fiapos de vida. Sangue ainda coalhado de oxigênio. Vívido. Voltei a disparar pela plataforma. Não queria ficar ali e ver coisas piores surgirem.
Mas aonde quer que meus pés me levavam o vermelho dançava diante do meu desespero. Apenas eu usava aquela plataforma… Eu ouvia cascos batendo contra o chão respingando sangue para todos os lados… Perseguia os rastros temerosamente e me deparava com mais silhuetas humanas. Silhuetas dos meus colegas serelepes que pareciam não entender que tinham as calças saturadas de vermelho e morte!
Duas alas.
Bom. Sempre se pode pensar que o palco de tudo gira em torna de você.
Seis alas.
“Mera eventualidade, mera eventualidade, meu campeão. Os olhos curiosos da juventude se encantam veementemente com as infinitas possibilidades de exploração…”
Onze alas.
“Ou talvez você estivesse procurando no lugar errado durante todo esse tempo… Tentar ver as coisas por cima, afinal de contas, só foi uma boa estratégia enquanto seu professor martelava o erro…”
dezenove alas.
Lá. Limpo. Leucosamente triste, porém singular. Um intervalo no meio do vermelho. Dessa vez um intervalo de total fuga. É claro que eu entrei nessa maldita ala.
Bom. Minha garota estava lá. Meu deus, eu não acreditei mesmo. Ela estava lá de costas pra mim e conversava com a sua amiga Gala e com dois outros colegas que nunca aprendi o nome. Juro que cheguei bem de fininho, indeciso quanto ao alívio ou a boa oportunidade. Eu a toquei e todos os outros sumiram dali. Desequilibraram-se das cadeiras onde estavam sentados e saíram os três correndo dali. Ela continuou parada de costas pra mim, como se estivesse esperando.
Meu rapaz, eu encostei meu nariz no pescoço dela no exato instante que a abracei pelos quadris e senti que ela teve um pequeno sobressalto (e sorri para mim mesmo). Ela inclinou o pescoço e eu apertei com mais firmeza…
Ei boneca, me diz o quê que ta acontecendo com o pessoal…
- Oi?
- Quê que esta acontecendo?
- O que ta acontecendo, Alb, é bem simples.
Ela se virou para mim com uma cara de surpresa e começou a falar:
- Bom, cara. Você fala muito baixo! Tem que falar mais alto e tem que falar coisas mais interessantes também! Estou sempre sentada no meu canto quando você aparece e… Poxa! Ah, mas como eu sou boazinha… Fico lá no meu canto mesmo depois de te ver aparecer, andando desse seu jeito estranho. Deixo de lado toda a preguiça que todo mundo tem de você só pra simpaticamente ouvir toda a mesmice que você vem falar no meu ouvido! Alb, você tem que ser mais interessante e…
Eu não esperava ouvir tudo aquilo, mas acima de tudo não esperava ouvir da forma que ouvi. Não sei como não fiquei mal na hora pelo que ouvi, mas… Ela babava enquanto falava e fazia aquela voz fingida como se caçoasse de mim, não liguei para o que ela disse, mas aí ela começou a me rodear enquanto falava babando toscamente… Nesse instante não tive como evitar nervosismo e segurei firme alguma coisa que tinha pegado sem perceber com a mão esquerda só para ficar me distraindo enquanto andava lá em cima.
Caramba, eu tive que fechar os olhos…
Ouvi dois mugidos.
Quando abri de novo os olhos ela não estava mais do meu lado. Graças a deus. Não queria ter que encará-la de frente de novo. Não conseguiria.
Mas agora havia sangue até meu tornozelo. Perdi meu olfato! Por algum santo motivo fodido não conseguia sentir o cheiro daquele lago vermelho que cobria meus malditos pés e dei graças a deus por não conseguir.
Foi naquele momento que tive medo de não haver saída para aquilo. Não tinha mais como subir de volta. Estava tudo malditamente emplastrado de sangue, como se ele tivesse caída dos céus e respingado em cada lajota de azulejo. Nos últimos degraus tinha carne morta e…
Carne morta e principalmente quente como o sangue que encostava na pele da minha perna. O sangue repugnantemente morno e vivo. Sangue de instantes atrás.
(Não vi nada! Estava de olhos fechados. Nada, nada! Senhor, obrigado por me poupado desse instante perdido odioso).
Aí eu corri.
Ainda não entendia como não tinha me abalado com o que ouvi. Na hora, naquela exata badalada que corria espalhando ondas escarlates de ala em ala o que me passava pela mente era apenas entender tudo aquilo… Antes mesmo de ir embora. Talvez fossem até a mesma coisa, mas a princípio eu queria compreender a armadilha que eu tinha me colocado.
E Foi no pátio em que percebi que já tinha perdido a contagem dos pátios há um bom tempo que eu vi. Aquela cena horrorosa!
Não consegui ver quem era quando me deparei com tal. Maldição! Não entendi coisa alguma. Era tentar ver o tempo passar pelo relógio… Eu olhava para aquela moça encharcada de sangue, gritando. Fora do meu foco todos corriam… Eu via a Gala, Áuria, via Otová tentando escalar para chegar à plataforma, via Milou… via Lapa também… Aliás, ver eu não via, por que eu só via Crania ensangüentada e gritando na minha frente, virada para os outros, mas sabia que eram eles que corriam de um lado para o outro. Quando eu tentava me concentrar no ambiente eu só os via saindo daquela ala. Via apenas seus pés e se prestasse um pouco mais de atenção eu não via nada. Aí voltava a me concentrar e eles voltavam a aparecer fora de foco.
Tive o ódio mais ígneo de toda a minha vida e olhei rubramente para Crania com o corpo inteiro molhado de sangue. Aí quando entendi o que ela gritava, corri antes mesmo dela terminar de falar aquela palavra com M
GENTE FOGE DAQUI! O MANÍACO! VAI MATAR TODO MUNDO, CORRE, CORRE! ELE VAI CHEGAR, GENTE!
Eu não vi nenhum abatedor apesar de ter certeza de que eles estavam por ali fazendo seu trabalho sem ligar para as adversidades. Aquilo tinha bem a cara de Crania. Criar aquele escândalo pra chocar todo mundo. Trazer más memórias acerca da carne. Mas ainda assim eu saí correndo. Disparei dali desesperado.
Corria, escorregava e perdia o equilíbrio despencando naquela poça enorme. Levantava aflito e continuava a correr. Ala a Ala, sem coragem de olhar pra trás.
Mas foi aí que entrei em algum lugar diferente, foi quando as alas finalmente deram lugar a uma grande sala fechada e com iluminação fraca. O sangue ainda tangia a sola dos meus pés.
Dei dois passos firmes em frente e outro mugido irrompeu o silêncio frágil que eu tinha conseguido manter.
Eram bois… Não fazia sentido querer saber nada além de que se enfileiravam roboticamente pela sala em duto estreito que terminava num… Num…
Não sei bem o que era aquilo. Uma porta em forma de boca, só que… Poxa… Aquilo era burlesco… Todos sorriam e entravam com um passo humano na grande boca. Esperavam paciente e simpaticamente parados pela sua vez. Sorriam como o céu.
(a lâmpada piscando)
Mas por que eram tão bruscos naquele ultimo passo antes de cair na garganta do abatedouro era o meu mistério.
A luz fraca que piscava de vez em quando dizia que não havia retorno. Havia apenas uma gasosa parede escura no lugar por onde entrei.
(Mais um boi é engolido inteiro)
Me aproximei das cancelas daquele duto enorme e tentei entender uma ultima vez o que havia por trás daquele sorriso enigmaticamente assustador na cara de cada um dos (A LUZ PISCA) garotos que…
TERCEIRA LEVA!!!
Vi.
Vi e então recomecei a correr à medida que o gritante alarme vermelho acelerava a fila indiana a projetando para dentro da boca mecânica que parecia dolorida depois de tanto tempo diante dos meus olhos.
Não ponho muita fé no que vi. Naquele minucioso lapso em que a luz piscou mais fortemente eu provavelmente já não estava presenciando cada momento irrisório que se sucedia na eternidade daquela sala.
Estava correndo. O Maníaco estava por perto, convenci-me. Burrice! Estupidez eminente que me deixou letárgico observando os…
Entrava por salas escuras, fazia curvas acentuadas como nós no espaço e ia me enfiando nas profundezas daquele lugar que há tempo já adquirira o cheiro vil da podridão.
Ainda sentia o sangue se espalhar com minhas pisadas cansadas e lentas. Nunca mais sairia dali.
Duvido que saísse.
Nunca me convenceria de que o mal se fora. Agora que chegara tão perto da morte… Percorrera distâncias a um passo de se misturar a todo o sangue…
Depois ninguém viria me avisar de que o homem se fora. Estavam todos… Acho que ri de mim tentando pronunciar essas palavras, mas era isso. Todos estavam de quatro numa merda de esteira se preparando pra virar picanha, maminha, alcatra e tudo quanto é porcaria pra alguém comer num churrasco de meninos de 14 anos que se acham gênios por colocarem as mãos numa garrafa de vodka.
Mas vou levando fé em continuar aqui até conseguir sair por mim mesmo.
E eu… Eu estava encolhido no meio de um círculo de vasos de pedra no meio de uma sala sofrendo com os malditos ecos. Minha ultima queda, dessa vez sem segundo turno. Não havia mais lugar algum para ir. Não havia mais lugar para se chegar. Não havia mais lugar a partir do exato instante que me levantei sem conseguir entender com chegara ali. Fiquei
Eu levantei-me arrepiado e fui até o brilho fluorescente do interruptor de luz daquela salinha. Espremi-o com calma. PÁ.
Muito bem.
Não vou ficar embromando. Chega de fingir a surpresa que sinceramente não senti em cada um dos momentos que falei.
Não quero, na verdade, é parecer muito perturbado pelo que conto… O que aconteceu, não aconteceu rápido e de forma tão confusa assim. Na verdade foi monótono e melancólico. Até os gritos de Crania tiveram tempo de ecoar. Apenas, por favor, não leve a mal e não me chame de egoísta quando pergunto por que eu era a única coisa no abatedouro inteiro que não me sujava com o sangue.
Chega. Estou aprendendo a contar histórias.
Tudo que vocês precisam muito de saber antes de eu me deitar e sossegar-me é que 48 horas depois as coisas já tinham voltado completamente ao normal.
Quando me toquei, eu já estava sentado no gramado da escola e…
- Alb, Milou e Lapa estão em paz agora…
- É, eu soube.
- Soube?
- Sim, sim. Uma sacanagem, mesmo, não entendi…
- Não sabem quem matou os dois. Está sendo horrível estar aqui hoje, mas parece que o Rafa vai embora hoje mesmo, não sei como é o esquema, mas eu vou ficar até o fim.
- Ei, eu não queria ficar falando sobre isso… Escuta, vou dar um rolé.
- Desculpa, desculpa, Alb! (sorria)
- Não, não esquenta. Só não quero ter que ficar pensando nisso.
Acho que o meu ultimo erro antes da despedida do rafa que coincidiu com aquele dia macabro foi ter ido atrás dela. Bati na tecla.
Achei que poderia enfrentar minha garota nos olhos de novo e realmente pude. .Áuria estava sorrindo do lado de Crania, que também sorria. Mas era o sorriso de Áuria que eu queria pra mim. E sorri pra ela também. Sorri com a alma pra ela e ela alargou o sorriso.
Ela e o resto das pessoas do meu mundo… Todos sorrindo como o céu.
Foi então que fui puxado para a grande fila que escoltava Rafa pelo corredor. O garoto-piada segurando a vela como um assecla enquanto conduzia a multidão. Muitos comiam uma espécie de pão recheado. Todo mundo, sempre existiu esse esquema de alguns perguntarem o recheio do que era servido e quase nunca comerem após a resposta.
Só que dessa vez ninguém perguntou nada. Simplesmente foram pegando os pães recheados de carne no vaso de pedra e mandando para dentro.
Em seguida, foi o Rafa que apontou-me com suas mãozinhas tortas. Acho que a multidão me levantou e começou a me jogar para cima enquanto outros apenas comiam vigorosa e violentamente aquele pão, o levantam deixando sem querer seu recheio cair algumas vezes. E foi isso.
As vezes penso que seria ótimo se todos os meus problemas, dúvidas e necessidades virassem recheio de carne para pão.
Certamente algumas perguntas ficaram fedendo, repito.