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	<title>La Chambre &#187; Contos</title>
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	<description>Palavras pararealistas de Gabriel Castilho</description>
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		<title>La Chambre &#187; Contos</title>
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		<title>O hadalismo nas coisas-boas: Suicidas</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Nov 2009 02:03:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Severo sorriso às novas ciências do meu dia;
Chego ao paraíso em franco por-do-sol, quando nunca, enquanto homem, pensei que chegaria. Há beleza evanescente, sorrisos contundentemente reticentes e reencontros  sem calor. Há pouca comida, quase nenhuma empatia e o frio que sinto se dá pelos velhos lençóis de vento comido pelas traças de meu planeta. Existem, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=391&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Severo sorriso às novas ciências do meu dia;</p>
<p>Chego ao paraíso em franco por-do-sol, quando nunca, enquanto homem, pensei que chegaria. Há beleza evanescente, sorrisos contundentemente reticentes e reencontros  sem calor. Há pouca comida, quase nenhuma empatia e o frio que sinto se dá pelos velhos lençóis de vento comido pelas traças de meu planeta. Existem, sim, quintessências: rios de brilho neônico; azuis, rosas, verdes-águas e violáceos e, alguns pequenos afluentes do Rio do Senhor, prateados como a lua, que também não está no céu. Há mulheres lindas, cor de bronze, marfim e calcedônia; seios grandes como dias, coxas em que seda e renda sempre estão deslizar e rebolados que  conduzem a dança do universo, mulheres sem rosto algum.</p>
<p>Há, nas matas que percorro florescências frias , vagalumes no formato de folhas, ramos e troncos. Há inquietações na relva, como seres que se assustam com meu caminhar, há poços de lama negra e macia como creme pra cabelo.  Tenho fome, sede e insegurança de beber. Quero, desejo, todas essas mulheres, mas temo por seus hermetismos, quero visões ainda mais incríveis, mas sei que as terei pelo dia que agora não deixa vestígios</p>
<p>Chego a pensar que as noites no Paraíso, ao menos, são iguais às da Terra.</p>
<p>Estou inquieto. Sinto-me bem, em anestesia, real anestesia! Prazerosa, mas não rio, não ponho-me a deitar e a contemplar, a viajar com a mente, a relembrar e isso seria tão fácil&#8230;</p>
<p>Há consciência, há lembranças, reconheço todos que conheci, presencio o antimomento da morte de cada jovial presença que esteve comigo em vida. Mas aí retorno ao topo de meus escritos. Não há decepção, não há sequer falta. Tudo o que se faz necessário é o nome para o que ainda incompleta minha nova existência.</p>
<p>Não tão alto, mas apoiado nas nuvens, sem sensação. Observo tudo e muito mais, sem enumerar.  Desço; é tudo muito prático, não há montanhas em meu caminho.</p>
<p>Não falarei de mais prazeres desse mundo, mas se o fizesse não haveria como estar em silêncio, duraria ao menos o meu tempo de vida  no lugar-comum, isso para os que conheço, pois aqui há alguns que extrapolam minha experiência, já pensou em endorfina em pílulas? Geles que simulam as diversas sensações inter-humanos? Os intermediários entre o frio e o quente? sabores, odores e  cores autênticas? Paro aqui sem lhes dar compreensão, penso que  posso entender o lugar-comum como um todo depois de alguns dias aqui, imagino que semana que vem saberei explicar aos que ao meu lado estiverem por que cada nota da Rapsódia Húngara me conquistava, por que cada mudança de tempo alterava o tempo em que vivia em minha mente, por que cada acorde me trazia sensações que viajavam do relaxamento à frigidez saberei porque ao seu fim a ouviria novamente e eles entenderão antes mesmo de eu terminar. Entenderei sem ciência porque enlouquecia contido ao tocar meus lábios, ao tocar saliva, ao morder em suavidade, poderei medir quanta força os dentes, os músculos de ladyboca deveriam fazer sobre a minha para que eu rasgasse a primeira camada e apertasse sua cintura com uma força internalizante, poderei e não medirei. Poderei saber porque sentia a claustrofobia desesperadora de querer abandonar a vida e conhecer o lado de fora, o além-plástico da cama de água em que vivia sem medo de nada haver. Poderei saber e não poderei te contar, porque assim como enxergamos mal um cubo no papel, explicamos mal o supra-estar no lugar-comum. Não criarei contemplações, criarei divergências de opiniões e se daqui falo sobre o lugar-comum não há arrogância em dizer que não há o que questionar.</p>
<p>Seria ideal dizer que arrastando meus pés descalços sobre a grama lisa deixava a parte mais baixa da cidade, o burburinho de novos tons, contente por ter a eternidade  de meus atos em minha mão e o amanhã do sol que me deixaria examinar com pleno sentido aquele lugar que assemelhava-se tanto à minha terra. Fui visitar as terras do Senhor e deixei as profanações de lado. Nos olhos de minha imaginação via anjos, via humanos perfeitos, via asas delicadas e uniformes, via o movimento lento de seus aéreos caminhares, de um lado a outro, sem sentido, via seus olhos delicadamente fechados. Subia o rio prateado e enquanto essas imagens recuperadas da minha previsão celestial se projetavam tranquilas como o piscar de estrelas (que não existiam mais), almas sutis, com sorrisos delicados, sem sofrimento nadavam  borboleta, de costas  na exata velocidade da correnteza. Não quis ver para onde eram escoadas, mas quase quis saber como seria o instante em que deixariam de ser prateadas e se transformariam em matiz nas cores dos outros rios.</p>
<p>Julguei-os como clérigos, homens que chegaram ao supra-estar, ao supra-sonho como quaisquer outros, mas que ainda em morte escolheram a sacristia, e ao invés de rezar nadariam pela eternidade, como os peixes do Senhor.</p>
<p>Não quis imaginar o senhor. Não o faria até vê-lo.</p>
<p>Cheguei à nascente do rio, onde tudo ficava escuro e vi a sombra do grande palácio.</p>
<p>Não havia luz ou movimento. Era como acordar tarde para uma festa tarde, se vestir, o perfume&#8230;;sair de casa. Chegar em perceber que a festa acabara e não havia vestígio nem mesmo dos anfitriões em retidão. Não me decepcionei, pois no paraíso não decepção. Mas senti medo do escuro, pois no paraíso há escuridão. Há túmulos, que são portas de entrada e saída e há o desconhecido, que há em todo lugar.</p>
<p>Aquele cemitério, aquele mausoléu armada sob vigas de sombras, era o lugar de onde chegara. Ali, na orla, as matas escondiam segredos, segredos curiosos que se mexiam e contorciam-se a fim de melhores posições para dormir, mudavam de toca à procura de menos frio e também se mostravam curiosas.  Os vagalumes das proximidades da terra do Senhor eram prateados, de brilho frio e morto e sonoro. Estalos tonais&#8230; a Valsa Mephisto em plenas terras sacras; Gozei aquele momento e de relance presenciei os olhos amedrontados das criaturas, olhos pálidos, de brilho púrpura, me seguiam, amedrontadas, mas não me perdiam de vista, como se desejassem garantir, em inconsequente certeza, que eu sairia dali e iria para bem longe, de volta à parte baixa da cidade, ao circo dos mortos abençoados.</p>
<p>Catei uma taça que brilhava à margem do rio, sem me compreender; sem querer assustei uma criatura que abandonara a toca distraída para beber água: Um homem, cadavérico, curvo e magro, assustado, horrorizado, com olhar de  fria eletricidade&#8230; se escondeu na mata e se juntou aos outros olhares.</p>
<p>A mata se encerrou  e os olhares dos homens-reais ficaram para trás.</p>
<p>O medo que me foi adiado encheu a taça com qualquer líquido negro que pudesse existir, em desespero larguei-a sem jeito na correnteza . No instante de toque&#8230;</p>
<p>&#8230;o rio se apagou como uma vela ao vento;</p>
<p>Atrás de mim, os gemidos, ganidos gelados, cortantes e sofridos das criaturas humanas cadavéricas irromperam. Minutos e minutos de sofrimento que com sufoco se dissipava.</p>
<p>Vozes me falavam dos homens na terra. Dos homens em terra predestinados ao Inferno por aqueles que agora  nadam a braçadas na escuridão do rio.</p>
<p>O lugar dos que estão para se aproximar do chão, dos que estão para observar os números sendo tampados pouco a pouco, dos que estão para ligar o gás, dos que estão a observar o reflexo da luz pela superfície de corte é o paraíso.</p>
<p>Paga-se outro preço: o de estar no supra-estar e temer suas noites pela eternidade, noites idênticas às do lugar-comum; dormir de dia para compensar o sono noturno não tido.</p>
<p>As terras do Senhor são, durante a noite, o mais mórbido lugar para se estar.</p>
<p>Deixo as terras do Senhor e não olho para trás.</p>
<p>As terras do Senhor são, durante esta noite, o lugar mais silencioso para se estar</p>
<p>Deixo as terras do Senhor e não olho para trás; Uma taça de vinho branco em minha mão esquerda; Antes de beber e em êxtase sinto as criaturas me levarem a berros vítreos de volta para os bosques. Minha onda passou.</p>
<p>As terras do Senhor são, durante toda e qualquer noite, o lugar mais escuro para se estar</p>
<p>O Senhor também dorme.</p>
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		<title>Os Olhos nos Vitrais</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Jun 2009 14:19:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acusmas]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Entrou apressada, ajeitando o manto em torno do pescoço com o balançar de uma mão; Suas sapatilhas ecoavam na nave.
Estava vazia. Ainda bem, pensou;  Diante do imenso crucifixo oxidado  fez o sinal da cruz e ele ficou marcado em sua testa. Confessou 6 atos que não gostaria que ninguém ouvisse e deixou o frescor do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=283&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Entrou apressada, ajeitando o manto em torno do pescoço com o balançar de uma mão; Suas sapatilhas ecoavam na nave.</p>
<p>Estava vazia. Ainda bem, pensou;  Diante do imenso crucifixo oxidado  fez o sinal da cruz e ele ficou marcado em sua testa. Confessou 6 atos que não gostaria que ninguém ouvisse e deixou o frescor do alívio massagear seu interior.Abriu seu livro no Evangelho de Mateus e cantou a oração da maneira que gostava de fazer.</p>
<dl>
<dd><em>Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome</em></dd>
<dd><em>Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu</em></dd>
<dd><em>O pão nosso de cada dia nos dá hoje</em></dd>
<dd><em>E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores</em></dd>
<dd><em>E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal</em></dd>
<dd><em>Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre.</em></dd>
<dd><em>Amém.</em></dd>
</dl>
<p>Trovejou.  Um arrepio cálido lhe subiu do ventre;  Sentiu-se pura, serena e calma. Abriu os olhos e apreciou as ondas da abóboda; concentrou-se e rezou mais uma vez.</p>
<p>Começou a chover lá fora e ela, que era preocupada e ansiosa, simplesmente quis deixar tudo que lhe vinha à mente escorrer com a água da chuva. Sentiu o coração bater intensamente, tirou o crucifixo de estanho da bolsa e o beijou.  Estava gelado como o tempo lá fora, mas ali podia entender que o calor desejava  se esconder, esconder para ser procurado por quem realmente o deseja.</p>
<p>E ela o procurou ali mesmo, deixou acontecer o forte magnetismo entre seus lábios e cada uma das extremidades da cruz. Lágrimas fluiram lenta e sensivelmente.</p>
<p>Rezou pela terceira vez.</p>
<p>Os olhos nos grandes vitrais a observavam com suspeita. Não piscavam; estavam severamente atentos à sua presença.</p>
<p>A tempestade atingiu tal violência que ela pensou que a qualquer instante os relâmpagos trincariam o clerestório. Foi aspirada para o próprio corpo, palpitações pontuavam as piscadas selvagens, olhava para todos os lados.</p>
<p>O medo brotou;  sentiu o sussuro do vento tentando se aproximar, ouviu o bater das asas das gárgulas, sentinelas do lá-fora.  Sentiu um cheiro forte de enxofre; Quis fechar os olhos, quis muito&#8230; Conseguiu. Suas órbitas doíam, mas acreditou que pudessem se acalmar, acreditou que seu coração pudesse voltar a bater com delicadeza. As luzes da igreja foram se apagando&#8230; Aos poucos o tom amarelado, cavernoso, abafado e sóbrio da Igreja foi se apagando, migrando para apenas um ponto. Rezou novamente.</p>
<p>Não havia mais cruz, não havia altar,  retábulo, coluna, ou padre. Fora tudo consumido pelo breu. A única luz ali, pulsante como a de uma vela, esférica e contida era a da Mulher que chorava e orava com Cristo sofrendo, debatendo-se em sua mão esquerda.</p>
<p>Mas a Rosácea no centro superior do abside  e os grandes vitrais laterais também brilhavam.</p>
<p>Os olhos nos vitrais, atentos a todos os movimentos da humanidade, a todos os seus pensamentos, ilusões, angústias e sensações, estavam ali, firmemente presos à figura da moça, cautelosos como águias, prontos para fisgar  deslizes, imprudências e desvirtudes. Estufados como se não houvesse órbitas; aqueles eram os olhos de Júpiter e faziam de seus filhos sua longa órbita. Eletrocutando as bordas do livre caminho, despejando Touros furiosos sobre o livre caminho, mas, ainda assim&#8230; Concedendo terra fértil para que imponentes carvalhos cresçam nas almas de seus filhos, em direção ao céu, apontando para seu firme coração.</p>
<p>Fracamente murmurava as palavras. As palavras poderiam se amontoar no chão, formar picos intermináveis, cumes inalcançáveis pelo homem comum, montanhas sólidas e sem vida. Mas as palavras eram banhadas no místico óleo de seu próprio sentimento, no calor que, antes de alcançar, há muito já estava em torno de si, cavando as terras do inverno de seu ser&#8230; As palavras percorriam o ar como pássaros em êxtase,   rodopiavam vorazmente como nebulosas sem cor e brilho.</p>
<p>(Rezou a ultima vez)</p>
<p>Essas  palavras são as correntes que aprisionam divindades, que estraçalham sua quintessência e confinam seus pedaços em folhas de papel, quadros e estátuas. São isolantes contra os relâmpagos da criação, são amaciantes para a fúria, são encantamentos para se manter a tranquilidade. São os lapsos da onisciência, da onipresença, são a mortalidade e a desvirtude divina.</p>
<p>Ela agora sentia-se intocável pelo medo. Terminara sua missão, mergulhara na gênese e emergira no apocalipse da história de seu dia.</p>
<p>Levantou-se  e caminhou levemente até o portal.  A impressão da cruz ainda estava tatuada em sua testa.</p>
<p>A Chuva passara.</p>
<p><strong>Aquilo que criou o homem e tudo que a este está ligado não criou a Fé</strong>. <strong>A Fé foi o livre caminho que o homem encontrou de domesticar Aquilo que o criou.</strong></p>
<p>Antes que ela terminasse a ultima oração, os elétricos e atentos olhos nos vitrais,  serena e resolutamente se cerraram .</p>
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		<title>Taxidermia</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Jun 2009 23:48:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Hanna, o que você acha d&#8217;eu, nessa minha pele insossa, me apresentar para você esta noite&#8230;?
Posso lhe contar algumas histórias lúgubres, algo do conhecimento profano que não se ouve todo dia ou mesmo toda noite, alguma sujeira obscura do mundo, algo do bizarro, do vertiginoso campo da não-ciência humana.
Ah!
Mas talvez, minha cara Hanna,
talvez você queira [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=271&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Hanna, o que você acha d&#8217;eu, nessa minha pele insossa, me apresentar para você esta noite&#8230;?</p>
<p>Posso lhe contar algumas histórias lúgubres, algo do conhecimento profano que não se ouve todo dia ou mesmo toda noite, alguma sujeira obscura do mundo, algo do bizarro, do vertiginoso campo da não-ciência humana.</p>
<p>Ah!</p>
<p>Mas talvez, minha cara Hanna,</p>
<p>talvez você queira ouvir algo que ja foi dito, talvez queira que eu derrame um vinho de Baudelaire nessa seda alva que te acaba, ou talvez queira sentir um sereno arrepio na nuca enquanto te sussurro Poe.</p>
<p>Talvez queira se afogar num rio de amônia para sentir o gélido hálito de Lovecraft te trazer de volta a uma semi-vida.  Talvez queira dar as mãos a King e se prender numa esfera de vidro temperado só para trincá-la com o desespero de seus gritos&#8230;</p>
<p>Talvez queira seu corpo dissecado pelo bisturi do medo que Cook teria o prazer de  incidir cuidadosamente sobre a pele de sua lucidez&#8230; Haha&#8230; Quem sabe não quer seu nome num livro de sangue escrito por Barker?</p>
<p>Oh, querida, mas que indelicadeza minha&#8230;</p>
<p>Ja dizia uma velha voz que às vezes o que se diz nada importa diante do meio com que se diz&#8230;.</p>
<p>Então o que acha d&#8217;eu me vestir com uma pele de gato preto e te surpreender na esquina de um corredor antes de infernizar seu sono?</p>
<p>Ou talvez eu devesse me vestir com a pele de um leão e rasgar sua tranquilidade com minhas presas sujas&#8230;</p>
<p>Se eu fosse um cauteloso lobo e, caminhando através da  minha fantasmagórica presença, abocanhasse sua falta de cuidado&#8230; o que acharia?</p>
<p>Eu também poderia ter a discreta penugem de uma  coruja e lhe causar um arrepio na calada da noite. Poderia ser um víbora e fazer suas esperanças contorcerem-se, subjugadas pela minha toxina&#8230;</p>
<p>Poderia ter o corpo de um&#8217; A Coisa e tornar-me o ceifador de seus sonhos, poderia ser o próprio Cthullu e dissolver as barreiras que te separam do desconhecido.  Poderia ser a Morte Rubra e contaminar suas fantasias as tornando pestilentas úlceras emocionais&#8230;</p>
<p>Ou então&#8230; Minha linda&#8230;</p>
<p>Você pode querer que eu costure pele humana ao meu corpo, ligue veia à veia, nervo à nervo e venha travestido de mim mesmo lhe contar uma macabra história de minha autoria&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">Pois, como humanos, somos inventores de todos os pavores que assolam esse e todos os outros mundos que criamos.</p>
<p style="text-align:center;">
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		<title>E se o infinito despencar sobre mim&#8230;</title>
		<link>http://bieldeadline.wordpress.com/2008/12/17/e-se-o-infinito-despencar-sobre-mim/</link>
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		<pubDate>Wed, 17 Dec 2008 17:05:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acusmas]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[O Movimento de seu corpo reboava intransigentemente à maciez dos ares que a circundavam. Sorria, de olhos fechados, rodava, rodava, rodava e ficava tonta, cambaleava&#8230; Já estava quase caindo. Sentia a cabeça escorrer vertiginosamente pelos seus ombros e soltava um gemido que alargava deliciosamente o seu sorriso.
A garota deitou-se delicadamente como se o chão exercesse [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=184&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>O Movimento de seu corpo reboava intransigentemente à maciez dos ares que a circundavam. Sorria, de olhos fechados, rodava, rodava, rodava e ficava tonta, cambaleava&#8230; Já estava quase caindo. Sentia a cabeça escorrer vertiginosamente pelos seus ombros e soltava um gemido que alargava deliciosamente o seu sorriso.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">A garota deitou-se delicadamente como se o chão exercesse um magnetismo caridoso sobre o seu corpo&#8230; Sua pele azeitonada coberta por uma tanga clara se sujara um pouco pelas muitas vezes que repetira o ato de girar e cair. E agora não parava de cair. Sua visão continuava dançando, continuava se inclinando para a diagonal. Ela ainda virava a cabeça para deixar tudo num eixo decente, mas começava a rir e tudo balançava novamente.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Uma coisa engraçada lhe ocorrera mais cedo, quando saía de casa à procura de alguma reflexão.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Seus pés descalços tocaram o chão de terra seca e fofa, polvilhada de minúsculas folhas secas e crocitantes. Vocalizava uma música que sua mãe muito cantara para ela quando pequena e que há pouco fora redescoberta enquanto vasculhava suas memórias de menina-mirim. Achava que tinha uma voz bonita, bem sonora, na exata divisão entre o poder e a delicadeza e gostava disso. Se os outros não achavam o mesmo, bem&#8230; Quem iria impedi-la de continuar cantando?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Não obstante, a resposta ameaçou chegar monocromaticamente, mesclada ao marrom quase alaranjado dos pinheiros-do-alepo que muito cobriam o lugarejo onde morava. Apoiando-se de tronco em tronco quando inevitável, pulava, cada vez com um pé, mordendo a língua numa tentativa energética de concentração para manter o seu padrão. Em uma das curvas que fez, uma árvore diferente se posicionou para apoiá-la. Imponente, talvez rígida, castanha como quase tudo por ali. Mas a árvore sorriu e um homem surpreendentemente se revelou.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ei menina, atrapalhei sua brincadeira, não é? – A garota empinou o nariz e continuou andando. O homem a seguiu.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Que brincadeira? Não estava brincando coisa nenhuma.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ah, me desculpe, atrapalhei aquilo que você estava fazendo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Eu? O que eu estava fazendo?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O homem irritou-se com a indiferença que a impedia de parar para falar olhando em sua cara. Em um pulo segurou-a obstinadamente pelo braço e forçou-a com violência a olhá-lo no olho.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Qual é o seu problema!? O que quer de mim? – Ela retribuiu a violência com a aspereza mais corrosiva que conseguiu imprimir naquelas palavras, mas nada retornou dele em reflexo. Ele penetrava em seus olhos. Os olhos dele tremiam anacronicamente com a boca que tentava murmurar algo sem som.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- O que aconteceu? – Murmurou secamente.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Acho que dá pra ver o crepúsculo pelos seus olhos – Ela assustou-se com o tom calmo de sua voz, mas continuou carrancuda. &#8211; ou talvez a aurora&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Me larga! – Soltou-se num tranco e retomou a caminhada com seu objetivo refulgentemente ofuscando em suas passadas largas. Mas o homem não desistiu. Correu até ficar ao seu lado.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Vamos, me diz seu nome pelo menos! Deixe-me ter pelo menos alguma coisa de você!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Me erra! – Continuaram em passadas comicamente bem investidas. Ela com a cara fechada em silêncio, apressada. Ele, tentando arquitetar a próxima fala. Sucederam-se longos lapsos silenciosos</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Você quer saber de uma coisa?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Fala logo!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Acho que não devia ter olhado nos seus olhos. &#8211; Ela olhou descrente para ele, franzida e virou o rosto rapidamente, sem paciência.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Me poupe&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Alguma coisa minha ficou presa dentro dos seus olhos&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Como é?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Seus olhos roubaram algo de mim e você trancafiou isso dentro de você&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mas entre as reações que ela poderia ter desempenhado a mais adversa e curiosa foi a que traumaticamente sucedeu-se. A moça parou. freou com a firmeza de uma rocha e o encarou severamente nos olhos. E ele, mais uma vez pôde olhá-la nos olhos.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O firmamento de índigo parecia um côncavo espelho embaçado. Sentiu uma sensação engraçada ao mergulhar na coisa estranha que ocupava a tal concavidade azul, talvez fizesse isso para se enxergar no real espelho que estava ali em algum lugar por trás de todo aquele vapor. A coisa, não conseguia entender se era líquida ou gasosa, mas era densa e morna&#8230; Disso ele tinha certeza. Podia respirá-la e vinha uma sensação mais esquisita ainda quando tentava tocá-la também.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Sentiu uma picada aguda na exata fronteira entre o Canadá e a América e não se sabia qual ficava ao sul do seu pulso e qual ficava ao norte. Precisava se certificar. Olhou para o pulso, com cautela. Algo estranho poderia acontecer&#8230; Sentia que algo diabólico poderia acontecer se não enchesse aquela grande bóia que sua Tia Marta trouxera de Majorca em uma excursão paga que fizera há alguns anos. Uma vez! Vira como era potente uma vez, quando o Niágara com suas protuberantes barbas e sua douta feição assentiu que fossem, os quatro, quicando nas águas coléricas de sua maior mecha. As memórias provocaram um incômodo no exato meio-caminho entre seus dois ouvidos. A queda foi a pior parte. Ele, Al Jardine, Marta Cornwall e, não sabia ao certo o grau de parentesco, mas talvez, a prima de sua tia, <span>Marguerite Yourcenar</span>. Por ventura, foram os quatro caindo da proteção gelatinosa da bóia. Primeiro Al enquanto cantarolava a seqüência de bemóis que acabara de se sugerir, depois Marguerite. Sua avó, sagaz como sempre fora, conseguira se prender com o pé direito em uma espinha que se projetava pra fora da fluidez de toda aquela barba. &#8211; Mas uma dor incomodativa no ouvido o fez querer encerrar a lembrança mais rapidamente. – Ao ver que era o ultimo a cair, precisava fazer alguma coisa (Dores). Lembrou-se de ter se agradecido muito por lembrar do buraco de entrada do ar da bóia. Agradeceu-se centenas de vezes. Esticara o buraco para que coubesse lá dentro.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Entra logo!!! – Talvez alguém que tivera a mesma idéia que ele em outra ocasião&#8230; Uma voz mal humorada ecoou de lá de dentro.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O conteúdo que saia o puxou para dentro como uma emulsiva língua.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">PAF! Era esse o perigo, afinal de contas. Algo o dizia, com uma voz macia, que não havia razões para perder a calma. E foi assim que conseguiu se conter bem pacífico enquanto a língua moderadamente inchada lambia circunferencialmente seu pulso. Ela dizia por entre sons suculentos:</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Hum!! <span lang="IT">Sacramento, Eugene, Delícia, delícia. Spokane! Ah! </span>Salt Lake City&#8230; é por isso que o sabor acentuou-se. Cheyenne, Bismark&#8230; Não agüento! Não agüento essa tentação! Winnipeg, meu deus, sabores transcendendo fronteiras! Oh, St. Paul!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- É isso! – O rapaz acabou tomando por pista e suspeitando das posições de cada cidadezinha. Por acaso&#8230; Dentro da bóia percebeu que podia pedir ajuda ao seu velho professor de geografia que nadava vorazmente de um lado a outro daquela gelatina palidamente azul como se acabasse de se render a um descanso recreativo, fruto dos esforços de lacrar novamente a saída de ar da bóia.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Winnipeg! É Winnipeg! – Falou o rapaz passivo à dominação do êxtase. – Winnipeg é canadense! Posso apostar que é! O que me diz doutor Phillips?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Acho que precisa rever angulações! Afinal, em que sentido as cidades poderiam estar sendo enumeradas!? Mas o setor de matemática preparou uma aula especial para acabar com seus problemas! Hei! William!?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Um homem gordinho com olhos murchos assentiu com a cabeça, que era a única coisa perfeitamente visível dentro da bolha viscosa em que residia.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Cócegas.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">A língua caiu para fora do pulso levando consigo pequenas lascas das Rochosas. Do orifício que ficou, uma delicada mão-braço-cotovelo-antebraço&#8230; Emergiu viscosamente, como um bebê parido sem impedâncias. De lá foi saindo gradativamente uma bela moça de cabelos louro-prateados, sem rosto, que aproveitando as proximidades das mãos iniciou uma dança giratória com o rapaz assim que o ultimo centímetro de seu sapatinho de salto deixou o pulso.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Muito bem garoto. É simples&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Horário&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O giro que a garota deu fez o rapaz perder o equilíbrio instantaneamente. Recuperou-se e se distraiu no ato deparando-se com rochas azuladas que murchavam e inflavam por todo lugar, algumas tinhas palavras grafadas de algum modo, mas perdeu o foco depois um tempo.<span> </span>(Girava e girava) na retomada do foco, homenzinhos tocavam flauta e dançavam marotamente ao som seu som suave. Com medo de perder o foco novamente, apertou os olhos e viu que os homens martelavam bruscamente as pedras com a flautinha (girava e girava). Mas na próxima vez que perdeu o foco só ouviu as vozes&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">(É ouro, ouro!)</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">(Ele vai pagar uma fortuna por isso, Stuart!)</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">(Caramba esse negócio não é tão quente, mas uma hora, uma hora vai derreter a porcariada!)</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Por fim. Enjoado. Foi sentindo a dançarina ir diminuindo a velocidade dos giros. (parando, parando)</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Garoto, se importa se subirmos um pouco, antes de começarmos o anti-horário? O ar daqui de baixo é muito pesado.<span> </span>(Parou!) – Zonzo, o rapaz se achou num extenso salão forrado exageradamente de ouro, mas não conseguiu se ater a muita observação. Localizou duas das pedras que anteriormente eram azuis e enfim pôde ler a mensagem que elas diziam em letras garrafais: O que esta esperando, homem! Diga que não se importa!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Não, madame&#8230; Nem um pouco.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">E subiram na velocidade do som.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Durou pouco menos de vinte segundos, mas se a volta não durasse tanto quanto se não menos, morreria sem ar. “Um pouco acima” era fantástico. O azul celestial ia ficando mais opaco e escuro até que na borda do horizonte se cancelava no gélido preto e só!. Não havia por do sol, nem nuvens paradisíacas ali em cima, mas era tudo esplendorosamente mágico.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O rapaz já girava sem perceber quando de repente o senhor céu, brincalhão, notando a distração dos dois, usou toda a elasticidade que tinha, esticou-se como a base de um trampolim e deu um empurrão no casal giratório que mais parecia um pião sônico.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">E então ela soltou os braços dele. Aquela era a hora em que tudo, estranho, porém prazeroso, talvez revelasse a sua porção de perigo. Ele ia caindo e caindo. Mas não poderia cair até o fim&#8230; Aquilo destruía sua consciência (Caía mais rápido). O fluxo com que as coisas aconteciam só contribuía para que ele confiasse numa boa sorte e&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Parou. Seus braços estavam abertos e ele acabara de quicar numa ínfima nuvem, tal como a bóia ricocheteara nas águas do niágara. Mas abrir os braços não o deixara fixo no meio do céu. O que tinha em mãos, agora, era o poder quase trivial, nas circunstâncias, de cruzar o céu como uma maleável flecha.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O ar se esfregava seco em sua pele e pela primeira vez ele sentiu que a segurança era uma sensação meramente plástica. Sentia uma pressão tão intensa e prazerosa sobre sua coluna que era como se estivesse sendo conduzida por uma grande mão que conduz um avião de papel até o momento da decolagem. Sentia-se, apesar disso, unicamente dono de suas próprias asas (Só é possível voar nos mais altos limiares do céu) e que a natureza celestial era uma servente empaticamente disposta a cumprir todos os seus desejos&#8230; Era uma escra&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- NUNCA! &#8211; Gritou a garota de pele azeitonada ficando definitivamente possessa.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Nunca, em hipótese alguma, me compare a qualquer tipo de coisa que diga respeito à limitação. Eu, todo o meu corpo e principalmente toda a minha alma estamos contornados de liberdade e não seríamos potencialmente capazes de prender nada de ninguém em nenhuma figuração! E digo mais! Não tente se aproximar vetando os meus caminhos, me segurando e contendo de mansinho essa liberdade de que falo! Nunca mais tente isso dessa forma, paspalho!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- E saiu correndo velozmente para a saída da floresta que se encontrava pouco depois de uma clareira.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- O Rapaz caiu no chão desnorteado e lá ficou durante ininterruptas 2 horas em que se questionou incansavelmente quanto à solidez do que certamente lhe ocorrera entre a freada e a bronca.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">A moça ainda gargalhava imaginando o transtorno pelo qual o rapaz devia ter passado depois que ela correu sem olhar para trás. Mas o que acontecera depois de sair correndo não se ligava diretamente a estar deitada sozinha no gramado aberto em frente à floresta, olhando para o firmamento.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Suas amigas estiveram ali com ela e elas puderam se divertir um bocado. Correram milhas uma atrás da outra, depois dançaram puerilmente enquanto cantavam versões histéricas de musicas de ninar. Por fim deitaram-se exaustas nos gramados e se puseram a estudar investigativamente os vários formatos das nuvens que aconteciam na extensão daquele magnífico céu azul-furtivo. Céu que parecia impossível depois de tantos dias de chuva. Poucos minutos atrás, todas as meninas haviam voltado pra&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Ouviu o farfalhar da grama que quase ultrapassava seu tornozelo.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Era o homem de novo. Certamente que o era. Mas desta vez seria tolerante e paciente com ele.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">O homem ficara paralisado na metade do caminho que levava até ela. Para a sua surpresa, foi ela quem o chamou com o indicador, sorrindo sem mostrar os dentes pra ele.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Ficaram bons três minutos em silêncio, olhando para o horizonte que se abria completamente no panorama da grandiosa falésia sobre a qual se sentavam serenamente. Ela virou-se para ele:</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Bem, acho que fui grossa com você. Não precisava ter agido daquela forma.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Certamente que me assustou, senhorita. &#8211; Ela sorriu timidamente. – Aquelas seis moças que estavam aqui com você são suas irmãs?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- São minhas amigas, minhas grandes melhores amigas. Mas&#8230; Sim, são minhas seis irmãzinhas mais novas.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Posso saber seu nome agora? – Ela olhou pra ele sorrindo com um olhar pretensioso e murmurou:</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ainda não desistiu então&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mas é tão simples!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- É claro que é simples, mas não é nenhum pouco importante. Nem vou perguntar o seu&#8230; Mas me diga agora: Vem da cidade?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ah, sim, venho e acho que não me demoro muito por aqui, infelizmente.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Se eu te contar uma coisa promete que vai prestar bastante atenção?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mas é claro, implorei tanto por ouvir alguma coisa de você&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Pois bem. Se ficasse mais um tempo aqui, conosco&#8230; Digo conosco, por que certamente teria que conhecer as sete irmãs todas reunidas. Mas enfim, você pela primeira conseguiria comer com garfo e faca a liberdade, sabia disso?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Me atrevo a dizer que tive um contato com isso hoje&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Não, você não teve! Não teve mesmo. A Liberdade pra você ainda está lá em cima – E apontou profeticamente para o céu – A liberdade pra você ainda é um sonho bem lúcido e nada mais do que isso!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Acho que sonhei acordado hoje.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- É mesmo?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Sim, pouco antes de você me dar aquela bronca.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ora, mas não foi uma “bronca”&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Foi perto disso, mas&#8230; Bem, o que lhe digo é que aconteceu uma coisa muito singular comigo, quando olhei nos seus olhos&#8230; Acho que acabei de compreender o verdadeiro significado de sonhar acordado.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Bem, você vai achar implicância, mas eu novamente acho que você se engana! Só se sonha acordado quando se está do lado de grandes amigos. Só em momentos de grande êxtase em grupos que nossa mente se torna essa mistura de aspirador de pó com processador de alimentos.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Com o quê?! – Os dois explodiram juntos em gargalhadas.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Hei, não ria, eu falo muito sério! Sua mente eufórica vai sugando e misturando tudo que você mostra pra ela a partir do momento que ela, como um ser individual sente que a lucidez de estar acordado também pode, em alguma circunstância, ser uma válvula de escape. São aqueles que caminham ao seu lado muito proximamente que tem o toque de ativação dessa engrenagem, pois são eles que proporcionam a segurança, te deixam à vontade para que sua alma se eleve a um patamar de transitoriedade, de fornecer e receber o que circula pela atmosfera que um círculo de amigos cria&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mas com certeza foi algo diferente disso. Eu tenho a impressão de ter sido completamente condicionado a partir do instante que olhei nos seus&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Bobagem! Mamãe brinca que eu tenho um pedaço do céu nos olhos e que o céu nos deixa melancólicos, sossegados, nos faz sonhar, nos faz almejar o universo inteiro&#8230; Mas o céu está bem ali, e apenas lá, em cima de nós. – A moça soltou um curto suspiro e se deitou. Ele imitou-a. Nuvens que roubaram a luz alaranjada do sol para tentar dissolver a nulidade do preto que as matizavam moviam-se lenta e hipnoticamente através daquele céu crepuscular. Ela achava que ele ia se apagando bem devagarzinho. Soprava uma brisa tranqüilizante reminiscente de brigas em família que acabavam com morna reconciliação. Tudo era calmo e anestésico, pensava ela. E ouvir isso de si mesma a fez rir alto.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- O que foi?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ah, é esse céu&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- É muito bonito, sim&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- É maravilhoso.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mas às vezes tenho de dizer que receio um pouco que caia sobre nós.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mesmo?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Sim, acho que ele planeja vingança contra todos nós que tentamos perfurar suas entranhas&#8230; Não sei, sei que se caísse o faria impiedosamente.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- E o que você faria, se isso acontecesse, bem agora?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Acho que me ergueria e levantaria os dois braços e tentaria segurá-lo com toda a minha força.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ela olhou sarcasticamente pra ele e levantou a sobrancelha para começar a falar:</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Ah, eu acho que não faria isso&#8230; Segurar o céu é uma coisa que os pais fazem, uma coisa que fariam para proteger nossa ingenuidade de toda a violência do seu encanto. Uma coisa boba, um medo nítido da intensidade&#8230; É um desperdício.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Mas o que você faria?</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- O que eu faria&#8230; Se esse infinito desabasse sobre mim, eu me deitaria como fizemos agora há pouco e aguardaria todos os seus alucinantes enigmas, mistérios cuja natureza desconheço, dores místicas e prazeres inimagináveis se chocarem à toda velocidade possível com a ponta do meu indicador!</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">- Eles se entreolharam com curiosidade. Ela gargalhou e ele não pôde evitar&#8230; Acompanhou-a no ato desconexo de toda aquela realidade boba.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;">Conversaram até as primeiras estrelas introduzirem a segunda parte daquele sortilégio. Em seguida, cada um trilhou seu caminho para casa.</p>
<p style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;line-height:150%;margin:0 0 .0001pt;"><strong> </strong></p>
  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/bieldeadline.wordpress.com/184/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/bieldeadline.wordpress.com/184/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/bieldeadline.wordpress.com/184/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/bieldeadline.wordpress.com/184/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/bieldeadline.wordpress.com/184/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/bieldeadline.wordpress.com/184/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/bieldeadline.wordpress.com/184/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/bieldeadline.wordpress.com/184/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/bieldeadline.wordpress.com/184/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/bieldeadline.wordpress.com/184/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=184&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>A lividez de nosso amor</title>
		<link>http://bieldeadline.wordpress.com/2008/09/10/a-lividez-de-nosso-amor/</link>
		<comments>http://bieldeadline.wordpress.com/2008/09/10/a-lividez-de-nosso-amor/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 10 Sep 2008 22:50:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acusmas]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela morreu numa quinta-feira. A causa da morte não virou assunto para ninguém. Quando ele acordou ao lado dela, àquela manhã, não houve mais assunto.

 “Acordou e a primeira coisa que apareceu-lhe aos olhos foi o pomposo relógio de parede marcando quase dez horas. Os passarinhos faziam algazarra lá fora e a manhã tinha quase [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=52&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><!--[if gte mso 9]&gt;  Normal 0 21   false false false        MicrosoftInternetExplorer4  &lt;![endif]--><!--[if gte mso 9]&gt;   &lt;![endif]-->Ela morreu numa quinta-feira. A causa da morte não virou assunto para ninguém. Quando ele acordou ao lado dela, àquela manhã, não houve mais assunto.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>“Acordou e a primeira coisa que apareceu-lhe aos olhos foi o pomposo relógio de parede marcando quase dez horas. Os passarinhos faziam algazarra lá fora e a manhã tinha quase cheiro de céu claro e sol forte.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>Ergueu-se sentando na cama e fitou a mulher com curiosidade durante alguns segundos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>- Dormindo&#8230; – Concluiu num sorriso delicado; deitou-se novamente, dessa vez apoiando a cabeça sobre os braços. ”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">O relógio de parede foi, segundo ele, um presente completamente arrogante da mãe dela. Trouxera na sua última extravagante visita à filha. Escolheu o lugar do monumento com tanto descaso que extraiu dele o mais simpático “Aqui-não-é-a-sua-casa” que ele conseguiria produzir. Ela apaziguou a tensão entre a mãe e ele, mas o relógio continuou no lugar que a mãe escolheu.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">“ Ele olhou para ela novamente e um arrepio quase prazeroso o envolveu. Uma das coisas que mais gostava nela era aquele sorrisinho que parecia persistir em se estampar em seu rosto, mesmo quando estava séria ou neutra.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Quando os dois brigavam e ele, por mágoa, ficava na varando onde ela não costumava ir, lembrava-se desse sorriso de canto de rosto. Sorriso que certamente fazia parte da feição dela o tempo todo.<span> </span>(Caramba!)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">Não sabia o que se passava com ele, mas uma torrente de bom humor envolvia cada milímetro do seu corpo e (Ora bolas&#8230;)&#8230; Era inevitável. Ele ia lá tentar fazer as pazes.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Ela tinha aquele sorriso naquele instante. Ele a abraçou e encostou a boca em sua nuca. Pegou-lhe a mão gelada e cobriu o resto do corpo imaginando que sentia frio. ”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Conheceram-se há muitos outonos através de amigos. Ela o achava tímido e meio sem-graça, meio sem jeito&#8230; Ela também falava muito pouco e ele lembrava-se que até os 16 anos ela vivia ficando doente e quase nunca saia com eles, mas também se lembrava que ela tinha decorado de cabo-a-rabo o livro favorito dele “Anna Karenina”. E ficaram até tarde na pracinha do bairro, onde descobriram que eram vizinhos, trocando figurinhas e passagens do livro.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>“Ele deu uma gargalhada silenciosa quando percebeu que só conseguia se lembrar desse tipo de coisa. Aninhou o nariz no cabelo dela e deu um beijo na sua nuca&#8230; Também meio fria.”<span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Naquela época ela usava batom roxo sempre que eles se encontravam. Ele usava cabelo espetado, mas ela o convenceu a parar de usar, pois sempre que se encontravam mexia tanto nele que em questão de minutos a mão dela ficava cheia de gel e o cabelo dele bagunçado. Percebeu que, desde que começara a sair com ela, nunca mais conseguira deixar o cabelo em pé e por isso deixou-o crescer.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Eles saíam pra ir ao cinema no mínimo duas vezes por semana e ele gostava muito dessa rotina. Mas aí ela começou a levá-lo para ver filmes mudos da década de 20 num cinema bem antigo do centro da cidade. Do xadrez, com ela, ele aprendeu a gostar; do piano, como adorava música lenta, adorou que ela o ensinasse, mas nunca se afeiçoara a filmes preto-e-branco (Os mudos principalmente).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Trocaram o rotineiro cinema por passeios longos. E sustentaram isso até ele entrar pra faculdade de ciências contábeis (Fato que ela nunca entendeu).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Nessa época ele a ensinou a pescar e a convenceu a acampar pela primeira vez. Ela não mudou de idéia quanto a isso: Pescar era um saco! E esperneava quando ele propunha novamente. Mas acampar se tornou tudo. Foram várias vezes no ano que passaram a noite olhando para o céu dando nomes para as estrelas e tentando relembrar os nomes já dados.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>“ Desde que meditara no relógio que ganhara da sogra, alguma coisa em segundo plano o incomodava, mas não conseguia encontrar uma definição para o que sentia.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>De repente percebeu que o contato com ela era quase vazio. Abraçou-a com mais força e fechou os olhos. Duas lágrimas correram desimpedidas pelo rosto dele. ”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Eles romperam e voltaram várias vezes com o que construíram juntos. Ele ficara meio sem-vergonha e ela ficara um pouco mais falante depois de ficarem tanto tempo unidos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Ela era astróloga e ele trabalhava com cinema. Ele não tinha mais cabelo e batom roxo já não combinava mais com ela.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Depois da última vez que voltaram, ficaram juntos vinte anos, mas nunca se casaram oficialmente.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Os dois ainda se divertiam com trechos de “Anna Karenina”.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Um dia antes de ele estar abraçado a ela, perguntando-se por que ela estava tão fria, tinham feito amor&#8230; ali, onde estavam agora, ‘acordado e dormindo’.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Ela ofegava ao lado dele e o suor escorria pela sua pele clara. Ela virou-se para ele sorrindo e ele notou o s seus longos cabelos castanhos emaranhados, bagunçados e escorridos sobre o seu rosto. Ela tinha um ar bobo naquele momento que o fez rir.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Os dois riram durante vários instantes até que ela se deitou sobre ele simulando uma seriedade. ”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">“ – Sabe&#8230; Desde que ficamos juntos pela primeira vez, há&#8230; bom, faz muito tempo não é&#8230;? bem&#8230; eu.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>- Diz&#8230; – E ela mordeu os lábios e olhou pro lado.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>- Eu não sou mais jovem há um bocado de tempo e&#8230; hum&#8230;. você também não, é claro – Os dois sorriram. – E tampouco estou na fase mais jovial, energética e, de certa forma, harmoniosa da minha vida. (Ele sentiu um entorpecimento sutil fluir em cada ponto onde a pele nua dela tocava a dele.)<span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Mas acho que pela primeira vez desde que nos conhecemos posso me apoiar na&#8230;</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>(e sorriram juntos&#8230;)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">&#8230; na certeza de que poderia morrer agora, nesse instante de.. de tão feliz que estou e sou e&#8230; (As mesmas duas lágrimas quentes emergiram dos olhos dela)&#8230; e se as pessoas buscam um sentido maior para vida,<span> </span>elas&#8230; Bom, elas vão ficar muito desapontadas quando descobrirem que não é nada mais do que isso.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Ele a abraçou com força e as duas lágrimas que ela derramara já se confundiam sobre os rios que sua emoção não conseguia represar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">E aquela quarta-feira se foi com a noite. ”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Ele segurou o pulso dela durante longos e estáticos minutos. O frio do corpo dela agora congelava a alma dele.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Ele deitou-se sobre ela calmamente e aproximou o seu rosto do dela. Encostou sua boca na testa dela e arrastou-a lentamente pela sua bochecha esquerda, pelo seu queixo, pelo seu pescoço.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">(Chega.)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span><span style="font-size:10pt;">não há vida aqui </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:10pt;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span style="font-size:10pt;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>E o peso do que evitou pensar esmagou sua alma, vítrea. TRINCADA pelo toque vazio do corpo dela. Ele minguou. Encolheu-se. Apenas encolheu-se.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Levantou-se sobressaltado. (O quarto frio).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Seus olhos, vermelhos mas sem lágrimas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">(A lividez estava em algum lugar por ali. Espalhada. Rastejava e buscava fôlego).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>O relógio parara em 10:15</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(O tempo morreu!)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Fitou-a com ilusão, com os olhos enevoados e acariciou o seu seio esquerdo nu que estivera descoberto.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(O tempo é que morreu.)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Sorriu.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>(Para os dois).<span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">E ficou ali.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Não há nada que se suportar. A água flui viva, mas o tempo (MORTO! Está Morto! Morto!) transforma melancolia quente em vazio é com lágrimas criostáticas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Partiram. (cobriu os dois com a lividez).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(A flor murcha esmigalhou cada caco com um peso flácido)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Foram juntos (Mas os pés dele ainda estavam descobertos. Cobriu-os).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:141.6pt;">Pó e pó</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:141.6pt;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt;">O fim que eles queriam ter vivido era um filme sobre estrelas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span></p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:&quot;"><span> </span><span> </span>V I D(A M O R)T E</span></p>
<img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/bieldeadline.wordpress.com/52/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/bieldeadline.wordpress.com/52/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/bieldeadline.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/bieldeadline.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/bieldeadline.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/bieldeadline.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/bieldeadline.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/bieldeadline.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/bieldeadline.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/bieldeadline.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/bieldeadline.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/bieldeadline.wordpress.com/52/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=52&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>O Curso do Aqueronte</title>
		<link>http://bieldeadline.wordpress.com/2008/09/07/40/</link>
		<comments>http://bieldeadline.wordpress.com/2008/09/07/40/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 07 Sep 2008 19:49:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[
120.000£ &#8211; Que beleza!
Ajeitaram cuidadosamente os quatro sacos e então entraram, os dois, naquele bote de aspecto frágil e pouco confiável. O espaço era o ideal e nem mais meio além dos seis poderia estar ali enquanto remavam afobados para bem longe daquela terra asquerosa.
Mas os pensamentos já ameaçavam entorpecê-los.
Fora, em si, um dia bastante [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=40&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><!--[if gte mso 9]&gt;  Normal 0 21   false false false        MicrosoftInternetExplorer4  &lt;![endif]--><!--[if gte mso 9]&gt;   &lt;![endif]--><!--[if !mso]&gt;--></p>
<p style="text-align:justify;">120.000£ &#8211; Que beleza!</p>
<p style="text-align:justify;">Ajeitaram cuidadosamente os quatro sacos e então entraram, os dois, naquele bote de aspecto frágil e pouco confiável. O espaço era o ideal e nem mais meio além dos seis poderia estar ali enquanto remavam afobados para bem longe daquela terra asquerosa.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas os pensamentos já ameaçavam entorpecê-los.</p>
<p style="text-align:justify;">Fora, em si, um dia bastante complicado. O mais magrinho dos homens descobrira que a mãe morrera naquela madrugada gélida de sexta feira.  Tuberculose; Não conseguiram pagar o tratamento e&#8230; ah! não era só isso! Todo dinheiro que haviam conseguido juntar só serviu para pagar ao médico que diagnosticou a doença. &#8220;O Bastardo debruçado na cama da pálida senhora levanta-se sério, o olhar opaco&#8230; Dá umas duas voltas pelo quarto e (Por que esse paspalho não fala logo&#8230;!?) enquanto escreve num bloquinho amarelo alguma coisa, pigarreia com aquela mesma seriedade desumana&#8230; Como se treinasse manter a compostura para uma má notícia (Sua mãe tossindo secamente). Ele pára de repente. Arranca o papel cor-de-peste e lê com sua voz rouca o atestado de óbito para dali a dois meses que se adiantara em escrever&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">- REMA! Não vamos chegar em Southend nunca com você olhando pra cima!</p>
<p style="text-align:justify;">E os dois remaram. O mais gordinho recebeu uma visita do amigo na sua casinha em Bethnal Green. Ele não estava bem. Contou-lhe tudo sobre sua mãe&#8230; de como informou a um oficial sobre seu óbito, em prantos, e a viu sendo retirado da cama como um objeto quebrado e logo depois jogada no rio. Desistiria do plano para aquela noite. Foi quase que como uma pedrada brutalmente lançada em sua face, mas era uma decisão compreensível. Mesmo assim o encorajou. Os últimos dois meses foram de grande ambição. Se o país não pudesse ajudá-los pelas suas leis, eles conseguiriam a ajuda fora das leis do país. O dinheiro seria para o tratamento de sua mãe e quando ela estivesse boa fugiriam dali para algum lugar no País de Gales.</p>
<p style="text-align:justify;">Conseguiram abortar um cocheiro-oficial e levar quase todo o conteúdo transportado para o Banco de Londres até a repulsiva margem do Tamisa ao sul de Londres. Pretendiam atracar se não em Southend em algum lugar bem oriental do condado de Kent. Chegariam em West Sussex até dali a 12 horas. Iriam acampar em algum lugar  e até a metade da próxima semana atingiriam Somerset. Dali para Gales era um pulo.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p style="text-align:justify;">Mas a mesma realidade que lhes dera todo aquele dinheiro, retirara todo o sentido que fora conferido a ele.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>O grande êxtase do dia praticamente surgira e sumira no momento em que os dois colocaram a mão nos sacos de brim empanturrados de notas. Naquela altura, provavelmente já estavam bem longe de qualquer preocupação, mas a excitação se esvaecera toda. Fitavam apáticos as águas lodosas e densas do rio. De vez em quando, enquanto remavam, miravam o céu acinzentado e opaco que cobria a noite. Remavam anestesiados pelas seqüelas do dia que ficava para trás. Talvez a glória não fosse tão palpável quanto a fina solidez de todo aquele dinheiro.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>A água os levava para a nova vida que morava longe, mas estava carregada de morte em seu comprimento. Os corpos os acompanhariam enquanto fugissem. Lúgubres rostos esverdeados, olhares chocados ou serenamente fechados por pútridas pálpebras ainda muito viriam à superfície. A sombra da peste branca nadava a braçadas vertiginosas no curso do Aqueronte inglês.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>Foi no instante em que o rio ganhou um pouco mais de velocidade conferindo um pouco mais de vitalidade ao pensamento dos dois abalados homens.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p style="text-align:justify;">O Dinheiro poderia mesmo curar alguma coisa?</p>
<p style="text-align:justify;">O mais magro sorriu e o mais gordo tossiu.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Se a morte nos alcançar antes que alcancemos a salvação, já temos as nossas moedinhas para atravessar com o gondoleiro do inferno.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Acha que corremos o risco de ficar aqui remando para sempre?</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- No rio afluído pelos mortos, não se pode fazer nada para sempre não sendo um também. Mas isso não importa. A questão, meu rapaz, é que com todo esse dinheiro aqui não haveria um morto a vagar pelas margens dessa serpente lívida esperando uma forma de atravessar com Caronte.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Os dois explodiram em gargalhadas secas permeadas por tosses agudas e vermelhas. O gordinho fuçou desajeitado um saco de dinheiro à procura de alguma coisa. Alguns segundos depois retirou duas moedas douradas.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Acho que fomos tocados pela morte.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>- Fomos. (E naquele instante se convenceu de que mesmo todo aquele dinheiro não poderia ter trazido sua mãe de volta)</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>- Não sei quanto a você, mas eu quero um quarto bem luxuoso ao lado de Hades.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Não fico pra trás também!</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Como se tivessem combinado telepaticamente, os dois derramaram todo o dinheiro dos sacos nas águas acinzentadas e nefastas do rio. Dezenas de moedas de ouro e Milhares de libras em notas lisas e amassadas caíram umidecendo-se rapidamente. Os dois entreolharam-se e colocaram juntos, cada um, sua moeda dourada na boca.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>Pularam do barco e caíram estrondosamente no rio.</p>
<p style="text-align:justify;"><span> </span>Afogaram-se em uma passividade mórbida um tempo depois.</p>
<p><span style="font-size:12pt;font-family:&quot;"><span> </span>Naquela noite todos os derrotados conseguiram pagar sua passagem para o mundo dos mortos.</span></p>
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		<title>O Pequeno habitante do meio da praça</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Sep 2008 19:03:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Castilho Gil</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acusmas]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[
Não. Certamente ele não estava lá o tempo todo. A humanidade cria suas marionetes e espera, com equívoco, que elas só se mechem pelas mãos de quem guia. É o erro número 0? Possivelmente. Uma vez que ninguém gosta de ser tão cruelmente surpreendido, é preciso se habituar ao desejo das coisas de compartilhar comportamentos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=37&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><!--[if gte mso 9]&gt;  Normal 0 21   false false false        MicrosoftInternetExplorer4  &lt;![endif]--><!--[if gte mso 9]&gt;   &lt;![endif]--><!--[if !mso]&gt;--></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Não. Certamente ele não estava lá o tempo todo. A humanidade cria suas marionetes e espera, com equívoco, que elas só se mechem pelas mãos de quem guia.<span> </span>É o erro número 0? Possivelmente. Uma vez que ninguém gosta de ser tão cruelmente surpreendido, é preciso se habituar ao desejo das coisas de compartilhar comportamentos conosco.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Em matéria de anões de jardim, era simpaticíssimo. Ninguém teria mínima repulsão ao deparar-se com o homenzinho de meio metro, grandes e esclarecidos olhos (A sólida experiência era certamente gravada em seu olhar, mas eram olhos surpresos também…) e um sorriso sincero. A barriguinha inchada acobertada pelo falso tecido azul e seu simplório chapéu pontudo laranja; eram seus adornos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">“Meta-lhe um belo chute e terá mais que certeza que é de boa firme cerâmica!”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">E era mesmo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Era um pequeno homem de cerâmica criado por homens para se pensar que era só de cerâmica (e era mesmo). Mas ainda era um pequeno homem.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Era diversamente visto.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Nos dias de chuva as crianças que se deslocavam de carro com os pais se viravam a encará-lo pelo vidro traseiro perguntando-se quanto frio estaria sentindo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Os adolescentes luxuriosos e egotistas que brotavam aos montes por aquele lugar passavam em seus carros nos mesmos dias e ocasionalmente encontravam os olhos com a silhueta do homúnculo pelos vidros laterais (Tal relação oferece uma questão aos enveredantes no estudo da duvidosa exatidão da racionalidade humana) E os jovens pensavam com certa ironia e uma mais exata aleatoriedade: “Caramba, como seria ruim estar lá fora num tempo desses” (Como aquele homem pequeno, ali no canto (?)). Talvez a alma do pequeno esforça-se em fazer a pedra a sorrir…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.45pt;">Para os adultos era apenas a rocha simpática.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">A praça era cercada por umas oito casas. Quase todas, talvez seis… Não. Certamente seis casas tinham varanda. Mas somente a Dra. Morton parecia usar a sua. Passava horas, sentada, corrigindo provas de seus alunos da faculdade. A cadeirinha de balanço pendulava durante intermináveis tardes enquanto Fátima tinha tremeliques de fúria com as respostas mais ignóbeis possíveis.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">“Essa gente deve fazer psiquiatria só pra me sacanear. Definitivamente isso não é possível!”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>*<span> </span>*<span> </span>*</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Num “pós-prova” relativamente agitado a tarde virou noite e ela mal se deu conta disso. <span> </span>Tais notas decidiriam intensivamente aqueles que ficariam com ela mais um semestre. Não queria pegar embromações despercebidas e decidiu que corrigiria uma segunda vez a de alguns alunos de postura mais peralta para com a freqüência.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Ao lado estava a garrafa da sua cerveja favorita. Seu marido, legista e funcionário que não voltaria até as 3 da manhã, vivia perguntando se o álcool não tentaria trapacear ao lado da ganância de alguns alunos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">“Besteira! Quem fica tonto com 355 ml de cerveja?”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><em>A questão em questão</em> exibia um prognóstico de um indivíduo que supostamente apresentava déficit de atenção.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Estava escuro com força a uma boa distância do alcance da luz que jazia bem em cima de sua cabeça. <span> </span>1, 2, 3, 4 metros e já não se via nem a calçada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Mas as impressões sempre vagavam por aí…</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(… ritalina deve ser ministrada com dose de cafeína reduzida…)</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">!</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">O que foi isso?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Nem percebeu na hora. Passou alguns instantes.<span> </span>– Caramba, eu gritei? – Gritou, mas alarmante mesmo foi conseguir ter notado alguma coisa se mexer naquele breu.<span> </span>– Diabos! Está escuro pra chuchu!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Na certa foi um casal de namorados. Malditos sejam! E pra piorar o jardineiro esqueceu de ligar o poste. Isso não é direito… Precisava ter a segurança do que circulava por ali.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Mas para dizer a verdade… O poste ligado não era grande coisa. Querosene era uma bela de uma porcaria. Uma chama tosca bruxuleava sem vida; Era como um vaga-lume amarelo da sua varanda. Capaz apenas de iluminar a si mesmo! É! Exatamente: Chegava a assustar, pois parecia flutuar sobre a escuridão, fixa, mas flutuante. Ninguém tinha a mínimia certeza se havia um poste ali.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">A praça também não chegava a ser uma graça durante o dia. “O jardineiro parecia meio desleixado (Desviou o olhar das letras miúdas de Röedel Fritz e encarou o nada-negro)… BEM DESLEIXADO! Se quer realmente que eu te diga”. Tinha um anão lá também. Ele sim era uma graça, mas não via sentido da beleza de um lugar estar concentrado todo numa figura como aquela.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Ficava em baixo da árvore…</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(E os olhos cresceram com violência.)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Mas não estava no lugar certo hoje</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Soltou um grito mudo, mas caiu na gargalhada 3 instantes depois. Aquilo era perfeitamente encaixável (haha!) A droga da luz estava apagada e só por isso alguém tinha que colocar a porcaria do anão na calçada em frente a sua casa!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Taquicardíaca, ela minguou a risada histérica em um sorriso nervoso. Ainda observava-o. Sabia que o autor daquela bomba psicológica estava à espreita. O anão continuava com o seu plácido sorriso e a feição meio débil! (Mas por que raios isso mudaria!?)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>Não percebeu que tinha deixado a prova do homem no chão; Recolheu-a e voltou a corrigir.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>(A cerveja ficou esquecida)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Não, não voltou não.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">A cabeça completamente direcionada para os garranchos de Fritz, mas sem perceber, seus olhos acabavam indo parar naquela pequena figura. Fitava-o com desconfiança.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Algum tempo depois se encontrou em pé. Os arquivos novamente estavam no chão. Ela não poderia saber, mas seu rosto projetava curiosidade através de traços iracundos. Estava prostrada! Não gostara nem um pouco de ser surpreendida a tal maneira.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span> </span>- Eu sei que você tem parte da culpa por estar aí.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Encarou cada pedacinho do seu rosto meio desgastado pelo tempo. Permaneceu um pouco mais no seu nariz avantajadamente batatudo. Aproximou-se do parapeito da varanda.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(Artesão infeliz. Pra quê isso…!?)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">A verdade é que o rosto do anão ensaiava um movimento a cada instante. Parecia querer se mexer. E Fátima tinha certeza de que iria.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Algo lá dentro parecia não suportar ficar estático! A cada segundo que chegava isso parecia mais natural e a cada segundo que passava isso parecia mais inevitável.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(Não! Não! Não mesmo! Não me force a entrar em casa! Meu deus que situação estúpida!)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Conteve-se.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Mais do que a situação, ela é quem estava sendo idiota. Voltou em passos espasmódicos até a cadeira e sentou-se. Começou a balançar-se imediatamente, com delicadeza. Aceitou que estava tensa demais para terminar a correção da prova de Fritz.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Passeou com os olhos pelo ambiente. Evitou a calçada.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(Estaca-vizinho-breu-breu-parede-breu-breu-vizinho-estaca-vizinho-breu-breu-anão)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">ANÃO DE MERDA!</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Os seus olhos sempre voltavam-se para o anão. Foi neste instante que parou de tentar evitá-lo… Agora encarava-o corajosamente nos olhos (Tremia pelas marginais.)</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">(Vai piscar. Aposto que vai piscar).</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Mas não descobriu o que aconteceu. Fechou os olhos com as mãos, nervosa e tremulamente. Balançava-se doentiamente na cadeira.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Abria frestas na mão com muita cautela.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Um oitavo, um quarto, a metade, o olho inteiro via o anão no mesmo lugar, na mesma posição de antes de fechar os olhos.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">O Olho inteiro via como tudo aquilo era besta.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">E sabe o que iria fazer?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Iria até a calçada.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Pegaria o infeliz</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">O levaria até a árvore</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">E o deixaria lá</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">1</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">2</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">3</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">4 passos até a escada.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;"><span style="font-size:10pt;">E ele arredou um passo a frente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Ela perdeu o ar. Suas pernas eram firmes, mas seus joelhos dissolveram-se no medo. Tropeçou naquele maldito degrau de que seu marido tanto reclamava ao chegar em casa às escuras da madrugada. Rastejou até o meio da sala de estar quando conseguiu se levantar e correu o que restava soluçando até o quarto.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Trancou-se. Não dormiu tentando captar os ruídos de seu arrastar da calçada até a soleira.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Douglas chegou junto com o dia e sua mulher ainda acordada. Os olhos atentos e desconfiados.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:35.4pt;text-align:justify;text-indent:35.4pt;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt;">Não dormiu aquele dia.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>O dia seguinte amanheceu apático e o pequeno homem dava um pouco de cor à praça. Maroto, continuava ao pé da árvore como em todas as outras manhãs.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>De vez em quando, ao crepúsculo pouco iluminado, alguém se sentia vigiado enquanto caminhava perto da praça. Não hesitava em parar e se virar para o anão que postava-se de costas. Só de costas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>O Jardineiro cuidava da praça 1 vez por semana ou duas quando em tempos de seca. Cuidava de cada cantinho dos jardins, varria as folhas secas depositadas no chão pelas grandes árvores, adubava os canteiros e regava tudo com, aparentemente, a maior dedicação.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Boas eram as suas mãos que conseguiam fazer direito mesmo ele corria para terminar logo e se ver longe daquela [estátua maldita].</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span><span> </span>- Se eu fosse o dono deste lugar não deixaria esse gnomo aí assustando quem passa… Espionando agourento! –</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Mas a maior parte de quem olhava para ele logo criava empatia com seu bom humor pétreo e deixava o jardineiro falando sozinho.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span>Os anos passam; chuva, sol forte e fraco, frios rigorosos e confortáveis e o pequeno homem ainda lá embaixo de sua árvore, envelhecendo à sua maneira. A tristeza invisível tinge sua superfície e só se mostra para os que são levados por sensibilidade. Obrigado a ser feliz pelas mãos de quem o modelou, ele arrisca a sorte. Aposta com a eternidade que tudo é capaz de mudar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"><span> </span><span style="font-size:10pt;">Mas Fátima Morton passou a não gostar muito da va</span><span style="font-size:10pt;">randa. </span></p>
<img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/bieldeadline.wordpress.com/37/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/bieldeadline.wordpress.com/37/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/bieldeadline.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/bieldeadline.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/bieldeadline.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/bieldeadline.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/bieldeadline.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/bieldeadline.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/bieldeadline.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/bieldeadline.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/bieldeadline.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/bieldeadline.wordpress.com/37/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=bieldeadline.wordpress.com&blog=4092303&post=37&subd=bieldeadline&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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