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Água Pesada sobre Solo Áspero

Postado em Devaneios, Fragmentos em Outubro 13, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Eu, ela (seja lá quem fosse) e o nosso Mustangue aterrissamos estrondosamente naquelas águas fluviais.

Permaneci paralisado, intacto pela palpável realidade. O cavalo que deveria existir em movimento foi drenado pela espuma torrencial  e  foi-se. Como não pensei que a velocidade, o pleno equilíbrio imponentemente potente, a fúria dos lençóis de ar deslocados com o corpo, a integridade da moção, tudo aquilo dependia de um solo que de tão firme e seco  que fosse seria quase… áspero?

Começava a distinguir os dois lados do espelho.

Encontrei a estagnação. Não pensava em cataratas, fossas profundas ou redemoinhos, tinha tudo aquilo aqui dentro, tensão envasada, litros e litros de desilusões. Lembrei-me das moças ao longo do shopping, lembrei-me das duas, Uma insurgida atrás de vingança e Ela passiva no ponto de ônibus, lembrei-me d’Eva e sua gangorra no jardim e lembrei-me daquela dualidade na garupa do mustangue e seu humor pesado.

Ela que se dissolvera  num fluído violáceo a esticar-se brandamente nas águas, com um brilho magmático, me causava nojo e incompreensão ainda que irradiasse magia bela e perigosa. Tal foi o encanto que me causou que a estagnação dissipou-se  levemente, tentei tocar seu líquido e, no esforço:

Subi até a superfície quase sem ar… Os três peões desprovidos de armas de fogo andavam pelas margens estudando o encontro do rio Piauí com o rio Maranhão.

Havia uma fina coluna de pedra que me levava para longe daquele lugar; minha salvação da violência daquelas águas.

E subi; meu corpo pesado, monolítico… O filete de pedra me levaria até uma casinha muito simples, antes que o enjôo dilacerante me dominasse. Era tudo muito simples, aqueles que não comem, que não vivem sabores, enchem a pança de antimatéria. E era o que  me locupletava. Estava saturado; precisava de um descanso incalculável para minimamente reagir aos erros dessa era que se encerrava.

Abri a porta e presenciei o único móvel da casa, um sofá com um tamanho pouquinho menor do que as necessidades de meu sofrimento;

Deitei-me e estiquei  meus pés até tocar a eternidade e de uma vez por todas relaxei.

Abri os olhos pela ultima vez e em frente a mim, uma vitrine. Minha vista, cansada demais para reagir, venceu a luz forte e do outro lado da vitrine reconheci o observador.

Talvez quisesse saber qual era o lado de dentro e qual era o lado de fora da vitrine, mas em outra situação. Agora havia perdido a vontade de… a vontade de continuar sentido vontade de correr atrás de minhas vontades, pronto. Minha mente começou a se embrulhar como meu estômago há centenas de anos luz daqui o fizera, ou melhor, talvez ainda estivesse, mas  não mais sentisse. Creio que o tato foi a primeira coisa que perdi. Meu paladar… não não, ainda tinha meu paladar, tinha meu olfato e suas lembranças, mas não quis, não consegui mais abrir os olhos, bem talvez não tenha perdido a visão, mas a audição foi a segunda coisa que perdi…

dormira?

Aí quase quis saber se o que eu sentia era definitivamente um sabor, mas isso já não seria mais possível. A resposta para esse meu próprio devaneio veio de quando lembrei que mal vivi os sabores de minha vida, aí soube que nunca tivera paladar… ah, mas também foi a ultima coisa que me lembrei, logo depois perdi minha memória e o meu olfato.

Minha visão ja não tinha mais importância.

Aí, acho que teria contemplado a coisa-em-si se tivesse querido, mas não quis; Sem espaço, sem tempo, sem circunstância, sem representação, sem desejo, sem indivíduo e objeto; tornei-me o mundo.

O Topo (e meu céu verde ácido)

Postado em Devaneios em Setembro 19, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Em tinta torno a febre que deita comigo e a escrevo em sonhos que não tive. Ao fluir, morno-sangue, vigoroso das trépidas águas de Golã, costuro meu pranto e me faço monte pela frigidez dos desejos que cobrem minha cabeça e bla bla bla… até parece que  sinto palavras , reviro-me na cama…

Ahhhhhhhhhhhhh!!!!!!!! eeeeu só olho pr’esse céu. céu. Não quero falar dessa vez. Mas passa.

Aí eu já almejo transpirar palavras com o calor de minha pele seca por amargos desencontros de sentido, e ando por aí com este gosto horrível na boca olhando para tudo e encontrando, ah… bem os cacos do meu ser, sabe? é, é… eles vão é ficando por aí, nas solas dos sapatos de que quem caminha sobre a ponta de meu nariz, bem naquela parte onde não posso conhecer como queria, digo, ver como queria. E essas pessoas que por terem sapatos  esperam andar sobre o tabuleiro da vida e andam… e ah, você sabe, andam, ora, vão embora, me levam com elas sem me deixarem estar com elas, porque sou, porque sou apenas o topo das colinas de golã

Colinas não seguem estradas.

Colinas inabitáveis quase se amargam em serem estradas.

Mas se você quer ter uma bela vista, quer contemplar o maaaaaraaaaaaaavilhoooosooooooooo  céu ver-de-ácido  que me contorna como belas belas belas pernas pernas, quer sentir o sol causar a falsa  febre da conquista, com aquele  suor ácido ainda por cima, por que não sobe no monte que estou, por não sobe no monte que sou, por que não sobe no meu monte e griiitaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa para ver se você se ouve?

me contorço na cama seca como poeira e…

desisto!

Afinal, ja estou vendo vocês descerem levando meu eu-pó nas solas de seus sapatos, arrastando a terra, chutando pedrinhazinhas virília a baixo. E vocês vão indo, descendo calmamente como uma mão que me desliza, me causando arrepios que desconheço…

e desconheço vocês.  mas não agora, assim que já estiverem longe longe longe…

Ah, e sabe o que eu faço lá pelas 4  e pouquinho da manhã?

Enquanto – e -  se explodem – eu não – em cima  de mim – quero aguentar mais – eu EXPLODO!!!!!!!!!

Poderia  vomitar tantas tantas palavras aqui, mas olha, não é que acho que não sinto palavras para dizer, é que não quero  BORRAR A SUA VISTA PANORÂMICA!!!!! NÃO QUERO BORRRAR A SUA VISÃO DO MEU CÉU ESVERDEÁCIDO E ESTRAGAR SEU MERO DELEITE.

Só que explodo e levo frigidez, terra, libido, topo, pernas, céu, pedrinhas, orgasmo, pó… TUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUDO pelos ares. TUDO! SEM PARAR,  SGRAAAATCHSHE, SEM QUERER PARAR, NÃO PARO, E VRAARPPP

Em tinta torno a febre que deita comigo e a escrevo em sonhos que não tive.

A briga que ocorre no topo dos meus frígidos desejos  é por causa da água que escondo?

Em torno das colinas que sou só se procura o valor do pranto?

Sabe qual é o verdadeiro sonho que nunca tive?

Quero ser aquele broto lá embaixo, onde as coisas brotam.

E ter a contemplação grudada à minha pele…

aí quando eu fosse grande como a colina, subiriam em mim não para ver o céu verde-ácido, mas para estar nele.

Agora, em minha cama úmida como orvalho, durmo e mais do que ver as coisas, sou as coisas que vejo.

Água Pesada (II)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Agosto 23, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Mais uma vez, a estrada me carregava docemente. Sentia não ter pressa e não ser presa e um absurdo conforto me amaciava por dentro. Morros secos ou com verde raro circundavam meu caminho como grandes ondas de terra fadadas a se chocar que pararam no tempo. Pela primeira vez sentia-me perfeitamente ligado à minha carne, a meus ossos, era meu próprio sangue jorrando vivacidade sob controle em cada órgão de minha natureza.

Mas a estrada, que não precisava ter fim, acabaria. Pequena para a imensidão de minha mente, mas ainda assim, mais intensa do que a fé que eu tinha em sua eternidade.

Ali estava. O fim da estrada. Ela, sentada em um ponto de ônibus aguardando alguem que precisaria conhecê-la para saber até onde poderia percorrê-la, era uma marca viva e sacramente tocável  naquele canto.

Ficamos ali por anos sem nos falar. Veículos paravam e seguiam e mesmo que apenas entre olhares, nos conhecíamos. Imperfeitamente nos ignorávamos. Mas pouco a pouco compreendíamos que nós dois apenas existiríamos enquanto  houvesse pulsão para que um percorresse o outro.

E então, quando o ônibus francamente chegou eu a acompanhei, sentei-me ao fundo e ela num daqueles assentos mais altos. Foi então que o espectro do ônibus seguiu com ela e eu lá fiquei, parado, perplexo. Quando me toquei que o que ficou para trás era, apenas uma cicatriz no tempo, intocável como a luz, me arrependi de nunca ter nada dito a ela. Me arrependi por mais que nunca tivesse sido necessário fazê-lo para que nos entendêssemos.

Levantei-me. A sombra do ônibus ja estava certamente a quilômetros dali. Fui até aquela alma paralisada, aquela impressão de uma realidade alocada para outro universo que não o meu e a toquei. Como se os enfiasse em um suco gélido, meus dedos tocaram seu timo sem forma e consistência, atravessaram sem esforço seus pulmões e tocaram sem realização seu coração inválido. Seus olhos baços haviam mirado a paisagem do motorista antes de que ela fosse traduzida para um espaço que ainda hoje não entendo.

Ao me sentar, o movimento recomeçou.

Segui por caminhos estranhíssimos, atravessei desertos de ferrugem, mergulhei em rios de mágoa  temeroso pelas rodas despreparadas que me levavam, perdi a noção de dias e de noites mesmo que não mais houvesse chuva pelas bandas que percorria, dei voltas em torno de minhas próprias preocupações e atrasei o itinerário do irritado motorista  que… bem, que era o meu incomensurável desejo de tornar sombra e luz uma coisa una.

Cansado de tudo que me rodeava, das borboletas de zinco que enfeavam o jardim belo e frio de minhas esperanças, desci e segui até uma casinha esquecida que avistei dez minutos após minha decisão.

Lá dentro, como entrei sem escrúpulo algum, havia torpor… um cheiro vermelho, escaldante. Subi as escadas de madeira envernizada, a saber, bem cuidadas, e ali estava o caldeirão. Fumegava algo que não avistei.

Adão e Eva, nus e transtornados pela forma que se viam, mas com um semblante preguiçoso, ali estavam, esparramadas cada um num canto do unico quarto, a cola que os ligava estava relaxada como uma rede de chiclete esticado. Estavam cansados, exalavam um cheiro fosco de realização.

Achei que tivessem me avistado e quase me entreguei palpável atropelando sua falta de atenção. Nada disso. Cada um travestido de um desejo cálido de não estar ali, mas belo desejo, sem mágoa, ódio, arrependimento. Ela era a menina no balanço, que ficava nos fundos da casa na pequena clareira, no bosque das velhas estátuas de seu pai. O verde escuro e claro do sabado de alvorada era frio como o profundo azul que o céu deixava de irradiar naquela noite. Ele tinha a selva em seus olhos. Titãs enigmáticos que se levantavam acinzentando o mundo e dissolvendo o sol na terra. O céu laranja, enevoado e denso era a morada da lentidão dos olhos, do corpo e do pensamento flássido.

Ela se levantou, entre os seios, cabelos que tinham todas as cores do mundo, luzes espreguiçavam-se de seus olhos e de sua boca nenhuma voz saiu.

Ele ouviu  e foi atrás dela elevando a gravidade da Terra em seus passo brutos e quase firmes que em sua consistência abaixavam pouco a pouco  o sol no horizonte e estagnavam a supremacia de seu desejo mais profano:

O Céu laranja levitava lá fora, vi pela janela.

Ela se deitou no caldeirão fumegante e ele também. Tudo que senti foi um magnetismo me puxar para junto dos dois e ela, em sua beleza vertiginosa, me viu e me impediu de prosseguir. De seus olhos diamantinos que olhavam em fúria para cima, gigantes de concreto se ergueram, o calor cobriu as depressões verdes e após queimá-las fez com que prédios se espalhassem como ervas daninhas perversas.

Reiterou-se a supremacia de seu desejo; Saí da casa mentalmente sobrevivo e me pus a continuar pela rodovia que agora atingia como uma flecha o mar de cinzas em que em breve chegaria. Ao meu redor não havia violência, prédios estariam imponentes quando eu não mais estivesse para vê-los, sutileza de minha vontade se encontrava estraçalhada por aí.

Embora o céu estivesse fadado a nunca mais ser azul, sabia que a carnificina que fazia diante de  meus olhos se realizava apenas por causa do manto do crepúsculo.

Segui até a cidade, se bem me lembryo.

Solo Áspero (III)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Março 22, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Olha só como encaro tudo…

“…Meu próximo problema.”

Aiaiai! Mas é isso mesmo.

A terra grossa, sem pó, granulosa, eu, com um sorriso confiante pregado, adesivado no rosto e todo aquele chão que só fazia ficar mais familiar para mim a cada diâmetro do meu aro 15 novinho, recém desmascarado.

Era um homem de ambições fumegantes agora, mas o espírito infantil se contorcendo dentro do meu corpo elástico as vezes mostrava uma perninha ou bracinho de imaturidade que tentava romper a pele da minha barriga ou da minha testa.

Apreciável!

E o melhor de tudo era perceber que a velocidade não se sentava no banco de reservas simplesmente porque o peso queria jogar livremente. Eles eram grandes companheiros, como um dia foram Um e Uma. Eu podia correr como a  Corça de Cerínia e com a monstruosidade de um Ciclope sem me desintegrar pelas estradas bronzeadas de luz e calor.

Tempos depois eu  ja era um visionário, subindo e descendo morros encardidos, brincando com a sombra das pedras maiores que apareciam no caminho. Algo em meu interior me proibiu a certa altura de sair desse percurso que não deveria ter mais de vinte metros… talvez tenha sido aí que meu lado adulto se tornou forte e teimoso o suficientepara me avacalhar.

Tachinhas, estilingues, pó de mico e qulquer outra buginganga só tinham a me revelar que eu só conseguiria descer pelo mesmo lado do morro, por mais que meu eu criança insistisse em explorar cada grama de farelo de bauxita por ali até que fosse a hora de sair e encontrar um novo canto (uma nova melodia e um novo lugar em que pudesse deitar )…

Mas meu lado adulto amava o poente ao lado das sombras femininas e masculinas que o lugar abrigava… Pareciam artificiais para ele, mas seu calor era tão poderoso que se confundia com o do poderoso nascente  (elas nunca estavam ao meu lado nas manhas). Elas eram o sol matutino e ter essa certeza lhe bastava.

Um dia a inevitável batalha veio. Não poderia para sempre ser dois indivíduos. Teria de escolher entre continuar ali ou abandonar o lugar, entre a infância e a maturidade. Entre o morro e a continuidade da estrada, entre o sol e as sombras.

Eu fiz a escolha. Sim, fiz.

Solo Áspero (II)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Fevereiro 8, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Daí que não terminei…

Vou deixar tudo mais líquido, espera:

Fui coveiro duas vezes já. Uma pra Akira, outra pra Tigre e agora pra Uma (Talvez não tenha sido por completo…). Não era meu trabalho enterrar Uma. Era o trabalho de Um, que fugiu. Desgraçado traidor, medroso que tinha medo da vingança. Talvez, pensei, se estiver debaixo da terra… Aí a enterrei… Mal. Por isso ela me persegue um pouco também. Faz um barulho gorgolejante (Górgona? Não, não, era boazinha e bonita só que agora manchada de terra.), rouco (Aqueles olhares que não transformam em pedra mas fazem a gente se lembrar das manhãs frias em que acordamos com a garganta doendo, morrendo de vontade tomar Tanjal em lata, geladinho, sonhandoodnahnos por trás daquela tosse tuberculosa ).

Mas aí fui descobrir que de alguém ela estava atrás, no meio da viagem de volta pra algum lugar.

Antes de ir atrás de Um fui atrás de Outro, é claro.

Mas Más eram aquelas intenções venturescas que me levaram pro meio da rodovia, perto de algum lugar para perto do carro que parou.

Um homem que conduzia através de ares curiosos aquele veículo que mais me lembrava um kart moderadamente bem equipado. É claro que Uma achou Um em alguma parte da história e acabou fazendo o que deveria ser feito. Foi quase assombroso ver aquilo, mas era decididamente o curso natural das coisas (como se pensa fora dos sonhosohnos). Aí, Uma e Um foram sugados pra fora do carrinho, da rodovia e por fim para fora da história que agora me dera o modesto carrinho e o desejo formidável de encontrar Outro. Para quê? Só deus sabe…

Andar é bom, mas correr é melhor quando se tem pernas que tropeçam na Lua tentando desviar da escaldância do Sol. Ficar solitário é ruim, ao se ter o pé na estrada. A todo o momento acha-se que vai se chegar a algum lugar, mas o hábito que vai se conquistando de chegar a qualquer lugar vai transformando o seu formoso destino em nenhum lugar. Aí o desespero ganha o direito de se instalar.

Mas de repente eu posso ver que já é noite e que as luzes do meu carrinho vrum,vrum me fazem um ser tão seguro que eu seria capaz de acelerar.

Contornava aqueles triangulos rodoviários com uma sensação de liberdade tão plena… Ora o que se esperaria…  Uma noite bem iluminada essa que me fez sentir como se perseguindo um cavalo que fugira. Eu vi Outro e cheguei muito perto de seu possante várias e várias vezes, mas era como se algo em mim não quizesse completamente capturá-lo. Fui perdendo o ânimo de continuar correndo e comecei a nostalgiar o ânimo daquela manhã que me enfiou na estrada.

Talvez eu ja tivesse colocado minhas mãos em Outro há muito e tivesse chegado à certeza de que não era o que eu precisava. Meus olhos olhavam para o seu limitado alcance e minhas córneas assim me agradeciam pela dissolução do panorama na imagem do velho Outro tentando dar partida no seu carro, frustrado pela falta de sucesso, mas ainda carregando a vitalidade dos garotos que pegam o carro do pai escondidos; eu provavelmente estava ao lado. Tirei uma foto que deixou o semblante do garoto eventualmente triste e foi isso que o tirou da história como todos os outros. Fosse porque fotos não mechem e por isso não podem fugir ou por ter imprimido sua frustração, que selava o fim de suas resistências.

E então eu estava sozinho na estrada, sentindo me melancólico com aquele kart. Joguei a foto ao vento abafado e tudo foi levado com o vento .

Mas foi curiosamente no menor cateto do triangulo rodoviário em que passei quase um ano circulando que a rodovia me pareceu novamente retilínea, eterna e quente como aquelas longas estradas escaldantes do Arizona.

O motor morto já há horas… Foi que olhei-o com a ternura de um pai e ele me deixou contemplá-lo ganhando uma tração nas quatro rodas.

Aí consegui abandonar o triângulo e seguir até meu próximo problema.

Medos

Postado em Devaneios em Janeiro 6, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Medo de morrer.

Medo do papai e da mamãe morrerem.

Medo dos irmãos e dos amigos morrerem

Medo do ídolo morrer.

Medo de vomitar.

Medo de ter uma fratura exposta e ver o osso.

Medo da intensa dor.

Medor de não poder mais andar.

Medo de não poder mais enchergar.

Medo de tirar um dente.

Medo de desenvolver um Cancer.

Medo de achar manchas estranhas na ida ao banheiro.

Medo de sentir o cheiro do bicho morto.

Medo de ter uma lesma sobre a pele da cocha.

Medo de pisar num sapo.

Medo de sons de animais.

Medo de ver a agulha perfurando a pele.

Medo dele correr muito com a moto.

Medo de uma sexta feira 13

Medo da sorte falhar na hora errada.

Medo da professora te escolher.

Medo de não ter vontade de estudar.

Medo da prova

Medo de ver o Boletim.

Medo de não passar de ano.

Medo de não arrumar emprego.

Medo de depender dos pais pra sempre.

Medo de não passar no vestibular.

Medo de não encontrar a luz para resolver a ultima questão.

Medo da luz acabar.

Medo de ser surpreendido numa rua escura.

Medo de chegar em casa e não ter ninguem, numa noite tempestuosa.

Medo de raio

Medo de estar sendo perseguido num passeio pelo campo.

Medo de olhar muito tempo para um espantalho.

Medo de que fique tudo em silêncio.

Medo de buscar comida, voltar para o computador e ter algo te esperando

Medo de algo desfigurado aparecer sorrateiramente no seu segundo plano

Medo do vizinho morrer escandalosamente .

Medo de ouvir vozes.

Medo do que aconteceu na casa com os velhos moradores.

Medo da moça do quadro piscar os olhos.

Medo do espelho não fazer o que se manda.

Medo de movimentos estranhos e bruscos.

Medo do menininho com paralisia infantil.

Medo do sorriso do palhaço

Medo de risadas bizarras.

Medo de ouvir um grito seguido de uma risada histérica.

Medo de crianças em filmes de horror.

Medo de um filme repercutir na realidade.

Medo de fotografias antigas.

Medo da boneca sem pilha falar.

Medo de ouvir passos ficando mais altos.

Medo de ver sangue.

Medo de descobrir o cheiro que tanto falam que o sangue tem.

Medo das coisas terem vozes.

Medo de não saber o que falar.

Medo de apanhar do marido.

Medo de gozar rápido demais.

Medo dela não gozar.

Medo dele dormir depois de gozar.

Medo de passar a noite em claro.

Medo das cobertas se mecherem.

Medo de tomar um susto em vão.

Medo de ser assaltado enquanto dorme.

Medo de ver uma arma.

Medo do traficante de órgãos.

Medo da polícia.

Medo de algo estragar um dia feliz.

Medo do amigo não agüentar um trejeto perigoso.

Medo do amigo não conseguir correr o suficiente do indesejado.

Medo da amiga não ser forte pra resistir a um problema.

Medo da amiga não ir na sua apresentação de Jazz contemporâneo

Medo de errar um compasso numa apresentação de piano.

Medo de falar em público.

Medo de rirem de você.

Medo de falarem que você não aproveita a vida

Medo do tempo passar muito rápido.

Medo de viver com muita velocidade.

Medo de quase nunca ser feliz

Medo de não saber viver.

Medo de enlouquecer.

Medo de ir pra guerra.

Medo de fazer a escolha errada.

Medo de não ter dinheiro para comer.

Medo de ver a mãe chorar por desespero financeiro.

Medo de ouvir do pai que ele te ama muito, com olhos aquosos.

Medo de ver a mãe pela ultima vez quando ela sai pra trabalhar.

Medo de ouvir uma voz calma, profissional e desconhecida no telefone.

Medo de diagnósticos médicos.

Medo de erros médicos.

Medo de ficar sozinho no mundo.

Medo de enfretar o mundo.

Medo do mundo acabar.

Medo de morrer.

Medo de sentir medo.

Medo de sentir medo.

Medos são gigantes que engolem mundos pouco depois de nascerem com seus modestos 2 cm.

Medos se transformam, se proliferam, se deitam num velho baú esquecido no porão, ressurgem… Mas nunca nos abandonam por completo.

Medos são companheiros que estão sempre atrás de nós e nos confortam em situações revolucionárias arredando para que num piscar de olhos possamos nos esconder atrás de seus ombros.

Solo Áspero (I)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Janeiro 6, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Uma bate as botas em  1972

Um trai a alma Duma em 1973

Uma se vinga Dum em 1974.

Horrível-feia-cruel, mas olha, essa era a idéia.

Apenas Um deveria pagar a penitência da infidelidade, mas parece  (parece) que Eu ganhei amostras grátis. Aí Um estava se mastigando de medo. E se recolheu! Não sei pra onde foi! Perguntem pra Outro. Outro, animado piadista, sem vergonha, cabeçudo, não apareceu na hora certa da história. Foi deixado pra depois. Mas então você vira pra mim e sabe que sei que tem alguma coisa errada. E tem.

Sempre fui bom em enterrar as carcaças. Enterrei duas, muito bem. Não recendeu nem mesmo àquele cheirinho doce de dente mal-escovado. E mais… Só se via terra amarela-pálida-quente.

Vou explicar: No início você olha praquele chão e morre de medo da enxada não conseguir mastigar terra. Acha que vai ser que nem quando se pega a faca fraca (facafracafacafraca) e tenta-se partir um pedaço de rapadura… Que vai esfarelar sem resultado. Mas aí você entra lááááááááá no fundo. Vruuuuuuf. Vai até o inferno fofinho e se lembra que esqueceu de olhar pra ponta do cabo que segurava pra ver o tamanho da ferramenta  (Ferro e menta de comer. Menta perigosa que se funde alto, alto, alllto (Não parece ter som de U…)). Você vai tirando os quadradinhos de terra  e vai afundando o nada o suficiente até que ele consiga comportar uma vida inteira em forma de morte. Aí você termina e joga os ossinhos lá.

Acho. Não me lembro. Olha que não tenho certeza, mas deixei meu cachorrinho lá… Foram os dois? Talvez o Akira e o Tigre, mas é estranho por que nos sonhosohnos o Akira fugiu  (Que dó, filho, ele dormia em cima de um saco de lixo azul-bebê cheio de roupas dentro (Sem o saco, tudo fedia, assim como sacos de lixo fedem porque carregam o cheiro de lixo que tem quase o mesmo cheiro da morte, no inicio. Será que, então, a morte fede porque é criada em cima de sacos de lixo?)).

O Tigre eu vi, com meus dois olhos bem grandes, que concordaram em enterrá-lo. É claro que enterraram. Não vi sendo enterrado, mas é claro que enterraram. Capaz de também terem enterrado o Akira, sem que eu visse… Vejo mal.

Se era um homem, ou se era simplesmente eu, eu não sabia.

Já no canteirinho que lembrava solitárias terras de gatos eu tentei enterrar a ossada de Uma antes que as coisas piorassem. Um já devia estar tão longe…

Mas me pareceu, na exata hora em que convoquei o fio da minha enxada que não havia mais espaço pra por nem meia cartilagem. Aí fugi. Fugi pra algum lugar onde eu sabia que poderia pensar com considerável tranqüilidade que quem quer que tenha sido o coveiro para três almas durante toda uma vida, o fizera mal. Tudo ali. Tudo ali fora mal enterrado.

Metagrafia nº4 (O Trevo de duas Folhas)

Postado em Devaneios, Metagrafia em Novembro 27, 2008 por Gabriel Castilho Gil

- Camarada! Hei, hei, hei! Camarada, dá uma paradinha. Rápido, te prometo.

Escuta só.

Tome isso aqui…

- Um trevo?

- Não, ah! Putz Grila, filho: “Um trevo…” Olhe pra minha cara carrancuda. Vem cá, fica pertinho de mim o suficiente pra sentir esse cheiro de catuaba que eu sei que você tá estranhando e a que eu sei que estou fedendo. isso, assim mesmo. Agora olha bem nos meus planetas…

Haha, planetas… bem, você captou a mensagem…

Agora me conta. Eu, cheio de andrajos do jeito que estou, tudo bem, tudo bem, mas, desgraçado no meu cantinho, molhando essa vida etílica de mau-humor e depois tacando fogo por cima iria te parar pra te dar sorte?

Esse não é um trevo qualquer, camarada! Não é sorte, mano. É ponderabilidade.

Cara, essa vida é muito mágica! Muito súbita, louca!! E ela vai se atirando, entende homem?

Vai se disparando na gente que nem uma maldita bazuca ou sei lá o nome dessa tralha que mata duzentos num disparo. Não, não, espera! Bazuca não! Uma arma automática mesmo! Uma daquelas que, caramba, nunca atirei numa dessas… Nunca peguei em uma arma, saca, mas se pusesse as mãos nessa metranca, ia sentir o tesão de dar um click e ver nove tiros saírem audaciosos, varrendo o ambiente, como se perseguissem os malditos pra mim. Aí mais um click, mais um click e pah!pah!pah!pah!pah! Até acabar a cólera e a munição. Bem, as vezes a munição não é suficiente….

A vida é assim! Ela se dispara em tiros secos e se você anda em todos os caminhos do meio, é acertado por ela dos dois lados!

E para os indecisos, para os aflitos, os imparciais, para os que abrem os braços em cima do muro e vão se equilibrando enquanto podem ver de um lado a pobreza e do outro a riqueza, bem e mal, amor e indiferença, pena e compaixão, sim e não….

O Meu fabuloso, caprichoso e extravagante: Trevo de Duas Folhas!

Olha só campeão, haha! Tome aí, a vida como ela é… um lado ou outro. Arranque uma folha e não é mais ninguem, sozinho andando por aí!

Repare que agora que eu matei a presença de todos os meu companheiros. Não,não, não! Não peguei em metralhadoras e saí disparando, como ja disse. Eles simplesmente não existem mais na minha vida. Tenho todos os trevos do mundo ao meu dispor . Posso ir arrancando suas folhas, como fui arrancando meus companheiros da minha vida, mas quando chegar na ultima folha, ah sim, aquela folha solitária como eu, percebi que arrancá-la fora era me arrancar da minha própria vida! Aí parei, homem! Mas agora, todos os trevos que vejo no mundo têm uma folha. Eu!

E agora, o que encontro…! Uma folha que não serve para mim. Tome aí, o Trevo-de-duas-folhas. Seu conselheiro na hora das escolhas difícies. Sua consciência e você.

Você faz uma escolha e ele lhe dá uma consequência. A vida é boa assim, a gente vive assim 300 anos sem perceber, colega. Supimpas! Caminhe por aí! Pode parecer difícil no início, mas se acostuma, se acostuma. Se acostuma a dizer não, a recusar um emprego, a dizer adeus a uma paixão, a deixar um lugar de memórias para a fome do passado, a ver um grande amigo virar para a esquerda quando o caminho da direita parece tão mais atraente, desafiador e… Bem, sim, os caminhos. São muitos…

Se acostuma a fazer tudo e se arrepender de tudo feito, em seguida… uma semana, um mes depois.

*         *        *

Bem, você, caro-leitor: Fique sabendo que recebi um trevo-de-duas-folhas em uma manhã sem graça dessa vidinha bacana.  É claro que tenho que abrir um sorrisinho indolente. Mas, intervalando o assunto rapidamente:

Sem essa de “Escrevo porque escrevo”. É claro que quero alguma coisa. Caramba, acho que quero muita coisa!

Você pode apostar o seu tempo nesse jogo de azar chamado leitura esperando um prêmio…Ha! Você é bobalhão, gente boa! Prêmio você vê gente ganhando em qualquer lugar. Talvez não funcione com qualquer um, mas estão por aí, esses vencedores.

Talvez nos jogos de azar não seja algo a se relevar, mas enquanto lê qualquer porcaria aqui ou em outro lugar já se precaveu da possibilidade de tirar uma seqüência ineditamente unica? Nada premiado, apenas inédito…

Ó, isso vive acontecendo por aqui…

“Encara aquele pernicioso calhamaço opaco: Folhas amarelo-café. Mede com a mão a extensão de anos ou minutos na vida de personagens e deixa-a passar pelo atrito do seu dedão e para na ultima página. Fica muxoxo com  o algarismo que parece mais ano histórico do que número de página e duvida da sua aptidão para tal vereda”.

E aí, em algum instante da ducentésima parte: Tsuc!

Uma ventosa singular dilata suaa pupilaa…. O erro está feito. O protagonista dá a resposta diferente, o antagonista acerta o pavio, o tempo e o espaço de ambientação posicionam o barril explosivo e sua mente entra em órbita no estouro da história (Os motores se desligam e não é mais necessário esforço algum para se manter os avanços).

Qualquer livro é digno de ser julgado pelo capa, pelo número de páginas, pela textura e aspecto das páginas, mas nunca deve-se duvidar da capacidade que um ou dois capítulos têm de atirar na fogueira da fascinação quem o tenta queimar pela falta de figuras.

Ler um livro e não ler outro é uma escolha assim como tudo na vida. É fazer a maturidade que ja se tem agir por si só e decidir a estética da sua próxima auto-evolução,  a cromosfera da sua próxima transformação. Deixamos nossa experiência criar autonomia para escolher seus caminhos e nos trazer bons frutos.

E se falha muito no ato, claro. Deixamos de lado, aos 12, bons livros para os 16 , ou nem descobrimos que seriam bons para os 16 e nunca os lemos.

Bem, o post ameaça atingir o que vai atingir daqui a algumas linhas desde o início dessa metagrafia. Não posso mandar meu ego ir plantar cipó cabeludo enquanto tento escrever sobre coisas grandiosas, toscas, prosaicas, simples e ambiciosas. Inclusive, ele tem uma participação notável em todos os acabamentos, em um ou outro Acusma, participação total e em alguns completamente impessoais foi o que engendrou o interesse motriz.

2008 torturou  (tem torturado) firmemente. Foi um ano que me exigiu muitos esforços para atingir conclusões bem infantis… Bem, sem mais demoras. um pouco sobre o que não sei explicar:

- Esse ano, aprendi que estudar, dissecar, explorar, criticar coisas que se gosta muito a nível de prazer pode, além de completamente construtivo, cruel, assentimental, criar uma série de problemas em torno da solidez dos valores individuais, pode criar uma dissociação entre velhos gostos e a própria identidade de quem gosta e por fim pode acabar te fazendo sair do confortável sofá e sair pra procurar algo novo para se apaixonar. Péssimo e Perfeito. Mas ainda hei de me acostumar, hei de me acostumar.

- Certamente, abusar de eruditismo em um texto literário torna ele, dependedo da dimensão, do patamar que você trilha como escritor, pobre, sem significado e um mero veículo para exprimir seu vocabulário. O Dicionário é um parceiro que te ajuda a concertar vasos quebrados com pequenas quantidades da emulsão-bonder (Los Termos). Você cola cada caco e tem um vaso recriado com um pouco de esforço. Mas acima de tudo, o vaso. Você abusa da cola e tem plástico em forma de vaso.

- Meus amigos estão dizendo que escrevo bem e devo muito à confiança que tenho neles para dizer que estou melhorando mesmo. Devo estar melhorando, sim.  E se realmente estou melhorando não há hora melhorar para dizer que a inspiração não é sua parceira. Quer saber escrever bem? Acho que não tem segredo (Nunca encontrei nenhum por isso estou desistindo de procurar). Escreva, apenas vá escrevendo. Não deixe para escrever quando tiver algo grandioso na cabeça. Moa-se em linhas e as organize nesse papel digital que é inesgotavelmente prático. Não gostou? apague. Mas não deixe de escrever. Nunca. Quase ninguem vem aqui, eu tenho certeza, mas isso nunca foi motivo pra eu escrever menos. Faça do cerne de seu ego seu maior leitor, seu maior espectador, aquele que bate palmas mais altas e que chora com mais volumosidade.

- Se você escreve contos vai acabar descobrindo que sua maior dificuldade é a de tratar de realidades às quais não pertence. Sempre que penso nisso me lembro que li em uma entrevista de alguma revista com Stephen King que ele se propusera a desenvolver uma história de complexidade completamente gerida pelo ventre do universo feminino e nem sabia que em sua cidade absorventes eram ventidos em máquinas.

Saia de casa. Vá viver alguma loucura, alguma coisa diferente. Crie situações reais e repentinamente se descubra dentro delas. Então saia vivo dessas situações com a palpabilidade das reações, dos instantes, dos pormenores que sofreu e reprojete-as com (agora mais facilmente) realismo em seus personagens. Antes de usar sua criatividade para contar sobre paralelos do que vive, tente viver sobre os paralelos do que quer escrever.

Grandes escritores como Tolkien, como lembra Tavos, não acreditavam na magia que utilizavam em seus enredos e faziam grandes obras representando perfis bem diferentes dos seus próprios pessoais.  É um bom patamar, mas é um caminho austero. Quando você começa a escrever, começa um processo de distanciação do seu próprio eu (existencial, filosófico, psicológico, reativo, logístico , etc.). Tudo que você vai escrevendo fica muito próximo do que você acredita, do que você entende, do que você vive. Você tem muita dificuldade de destruir a marca d’água do seu nome em cada frase que “postula”. Escreva, escreva e tente se surpreender. Deixa sua imaginação se tornar um beco sem-saída de repente e quebre essa parede com as marretadas de suas ambições.

Certo. Espero que você, que esteja lendo isso aqui, queira escrever alguma coisa depois. Adoraria que todo mundo se sentise dominado pela mesma fantasia que me envolve ao escrever.

Eu estou aprendendo ainda, espero que tenha paciência com meus errosgramaticais, ortográficos, com meus apelos coloquiais (mostram minha tentativa de mesclar o erudito e o popular) e que, mais esperançosamente, “encontre-se” em algum tema sobre o qual escrevo.

Aos poucos, escrever vai se tornando a folha do trevo que escolhi para me decidir  quanto ao lado da estrada.

Bom dia Maria e João. Escrevo aqui pois agora há pouco descobri que não mais sou.

Postado em Devaneios em Novembro 9, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Caros Maria e João,

Devem ter achado estranho eu estar enviando-lhes uma carta. Prometi que escreveria uma pra muita gente, mas para ser cordialmente sincero acho que essa é a primeira vez que o faço. Bom, devo confirmar que é exatamente como achei que fosse.

Quero muito dizer a vocês dois que estou fascinado por terem se dado muito bem juntos, como ele e ela. Juro. Sem lisonja. É todo aquele papo bobinho dos dois que nunca poderiam ser imaginadosjuntos até aparecerem de mãos dadas no meio da pracinha, sabem? Ora, é claro que sabem. Consegui encontrar mais uma vez com a velha galera, aquela que vivi falando pra vocês mas que acabei nunca apresentando… Estavam todos meio molecões… Atirando papel toalha em bolinhas com canudos de milk-shake… mas eles são eles.

Assisti a uma palestra em vídeo sobre -  Não sei que nome se dá àquilo -  mas algo genial. O cara que deu a palestra riria dessa carta, mas isso não vêm ao caso. Em algum momento ele deu um exemplo…

Um homem vira para o outro e pergunta: Quem é você?  O outro responde: Ao seus olhos, sou absolutamente quem você quer eu seja.

Acho que era assim. Não lembro bem, mas era quase isso. A resposta é banal e é excentricamente previsível, mas é a reposta mais sincera e reflexiva que alguem poderia dar e que eu nunca teria coragem de dar. Achei bonita e simples; é isso mesmo.

Ela afirma que a pergunta é besta, entendem? Não se deve ir sondando as pessoas aos poucos achando que é útil entendê-las através do que se extrai delas propositadamente.  Nunca faça nenhuma dessas duas coisas a não ser que queira conhecer sombras. É isso. Sombras é tudo que temos das pessoas a quem apenas pré-conceituamos e das pessoas a quem pedimos respostas.

Essa pergunta me deixou meio mal, sacam?Também faço isso. Eu julgo pra dedéu. Mas, bem, não vou estender muito isso…

E o pior é que uso esse argumento injusto pra continuar escrevendo essa carta. Acho que hoje mais cedo eu encontrei algo em mim que está cansado de ser uma sombra. Talvez eu seja injusto com o mundo, mas talvez não seja direito saberem da minha vida sem que queiram se envolver com ela. Sei que não é bem assim que as coisas funcionam. Ja enfiei na minha cabeça que não é assim que funciona, mas escapa.

Está  difícil ser alguém nos ultimos tempos. Também, ando sem tempo de ser alguém, mas quando conquisto algum tempo eu o desperdiço tentando, não consigo simplesmente ser. É, acho que é isso.

Eu prometi pra mim, esse ano, que seria alguem mais flexível, mais compreensivo, mais calmo, menos preocupado, mais honesto comigo mesmo, mais paciente…

Mas a vida não está me dando vontande de querer ser forte e conseguir me apoiar em cada uma dessas coisas. E não é culpa dela. Ela é boa demais. amo-a.

Meu humor anda meio volátil, entendem?

Eu, bem, não diria isso a qualquer hora e sei que vocês vão achar normal, mas choro todas as noites, sacam? Choro porque não tenho idéias, choro porque não tenho iniciativa, choro por que não consigo ter vontade de lutar pra não chorar na noite seguinte. Sou cruel comigo e sei disso. Não deveria fazer isso. Também não falo pra ninguem que estou meio mal. Todo mundo me pergunta se eu estou bem, todos me perguntam se preciso de ajuda… Todos gostam de mim, eu sinto isso!

Mas de manhã é sempre diferente. Acordo com os olhos inchados, mas com um humor renovado, acordo sentindo que o dia vai ser bom, que o sol antecipa a glória e o diferencial de um dia que ainda está para acontecer.

Mas sabe o que me destrói?  – O dia piora, sim piora, mas não é isso que me incomoda – . O que me destrói é que ele não piora todo de uma vez e nunca piora todo. Ele vai piorando aos poucos, consigo ouvir minha alma fazendo uma contagem regressiva monótona como um dia simplesmente nublado… Ninguem morre, mas niguém me esfrega a beleza da vida, nada acaba tragicamente, mas nada acontece milagrosamente, nada é realmente terrível, mas nada é realmente belo. Nada acontece!

Mas que fique claro que tive 10000 oportunidades de mudar de vértice e neguei todas. É possível que eu tenha conquistado o direito de continuar nessa jogada, paralizado.

É nessas horas que me pergunto se ter uma terceira opção além de um lado ou outro do rio vale a à pena. Pois se eu vivo o equilíbrio do Bem e do Mal com este sendo apenas o Indeciso, acho que não vale à pena viver atrás desse equilíbrio.

Escrevo pra vocês dois pois estou numa rara manhã ruim, não foi a primeira, mas curiosamente, hoje, uma manhã ruim . Escrevo pois estou cansado de estar bem e mal ao mesmo tempo num mesmo dia . Escrevo pois gostaria de conseguir deixar de ser apenas uma sombra e passar a ser algo palpável.

Mas se conseguir depende de tentar, vivi minha vida inteira para descobrir que sou covarde para a vida e que seria capaz de coragens que muitos seriam covardes ao realizar.

O que mais temo ter que enfrentar nesse carrossel não é descobrir que não mais serei alguém no mundo, mas descobrir que não deixarei de ser alguém para o mundo.

Sou covarde, pois não tentei a vida, pois falei que ela não dava valor a mim enquanto me abraçava à sua beleza. Sou covarde pois vivi a mudança durante anos de minha vida e agora nesse instante que me separa do não-ser sou incapaz de admitir que tudo pode mudar. Sou covarde por destruir a naturalidade da vida, por fazer pessoas chorarem oceanos mesmo nunca tendo agüentado ver uma gota abandonar os olhos de outros pelas conseqüências de meus atos. Sou covarde por escolher às cegas o lado feio da calçada, por estar cansado de continuar seguindo pela apatia do meio da estrada.

Acima de tudo, Maria e João, sou covarde pois a única carta que escrevi na vida para alguém que amo foi para declarar que sou covarde porque deixei de “ser”.

Afetuosamente,

O Homem-que-torturava-o-amor.

Manhã daquele dia escuro.

O Fôlego de Marte

Postado em Acusmas, Devaneios em Setembro 22, 2008 por Gabriel Castilho Gil

inspira…

(*  *  *

I Ato

Cada passo bem marcado até o início de um pesadelo é como sentir o hálito ígneo da fera que adormece plenamente, porém sem adormecer a imponência que a produz.

Os homens conseguem enxergar um no outro o próprio medo flacidamente travestido de rigidez uniforme pela expressão neutra. Alguns deixam mulher, filhos, parentes queridos, muitos ou poucos amigos, planos, saudades, outras dores e outros medos, sensações vividas e lembranças. Sempre muitas lembranças. Alguns caminham ao lado de amigos. Caminham ao lado de bons amigos com a mesma indiferença inerte dos poucos segundos que antecederam o seu primeiro contato.

No dia em que acorda, a manhã nublada e o estranho sentido que o primeiro instante do despertar ganha, torna tudo já vivido, conhecido ou caído em rotina, novo. A água tem o gosto substancial que a sede de um dia quente a remete. Cada batata partida parece liberar um suave e delicado vapor colorido de eventualidade… Aquela mesma surpresa subtil de se encontrar um trevo de quatro folhas. Os Cabelos da mulher têm um brilho formoso, a expressão de seu rosto volatiliza de uma vez todas as fascinações vividas desde o primeiro instante em que estiveram juntos. A cidade parece nunca ter sido tão pitoresca. Todos compartilham a amenidade inquestionável mesmo ja compartilhando a áspera tensão desde que a califonia natural do dia-a-dia começou a murchar.

Cada mau bom homem acorda e vê seus comuns definhando diante do invólucro insignificante de algo muito mais funesto. Fitam em pranto tristes olhares embarcando e se perguntam se algo mais seria capaz de replementar o sofrimento

Nas terras estranhas em que chegam, a angústia se mistura aos simulacros de crueldade, à confiança forjada e principalmente o medo.

Alguns exalam bom humor, repetem frases de segurança e se mostram estar ali como simples e temporários arredios. Desatado da rotina por alguns poucos dias. Mas no âmago de todos jaz a certeza de que a Terra agora parece um animal trasmalhado do resto do universo e enquanto se dirigem ao cerco mal notam as calmas notas da melodia do existir transformarem-se numa sinfonia do inferno.

*   *   *

II Ato

De repente nada mais parece funcionar da forma a que se está acostumado. A fome, as pestes e a morte parecem mais compreensíveis do que o alívio, a coragem e a esperança. Pela primeira vez em sua vida, cada homem consegue projetar sua determinação em algo que não acredita. Mantem compostura e firmeza em cada situação que além de não querendo entrar ainda acaba encontrando obstáculos intransponíveis.

O imutável destino da caminhada rítmica eleva tons cromáticos na escala desastrosa em que todos os caminhantes se esforçam para harmonizar. Os participantes ocultam seus olhos, fingem ter almas opacas para aqueles que os manobram e gastam o resto de sua energia mental em carregar uma ira artificial e um pavio para detoná-la.

E atingem então aquele compasso mais robótico na música. Cada um com uma fúria criada ao seu estilo, esquece-se instantaneamente do coletivismo impresso em tinta barata e tornam a composição de sua fúria a marca máxima de sua presença individual.

Naquele lapso imensurável conseguem em uma realização única na vida mesclar uniformente a existência psicológica com a existência real. As fúrias em ritmos alternados, contrapontuadas por ambos os lados se chocam violentamente numa dissonância afônica. O campo extenso de terra marrom clara e seca que atiça o desespero encasulado dos homens temedores da solidão de ermas terras é o que mais perto chega de convencer o pandemônio sincopado de explosões, rajadas e estrondos a revolver-se ao apático adágio que as sombras de marte engendraram sobre suas almas até aquele instante.

*  *  *

III Ato

Tudo indica que o clímax de tudo aquilo há de chegar em breve. Só há vazio em cada torrente de atos que se propulsiona dos iracundos homens-dos-dois-lados. A palidez do céu  vai se tornando sombria como um primeiro sinal de tempestade e os raios tangem a terra sem que os homens julguem os deuses quanto ao lado que tentam ajudar. Trovões marcam o pulso veloz  daquela mesma música tenebrosa. O medo que um dia se espalhou de rumores, de conspirações e segredos impregnados em xícaras de chá que transbordam em seus pires, o medo que se movia como um vapor venenoso que vaza de um barril que se rompeu… Esse medo agora saía dos buracos dolorosos no corpo daqueles que caíam inconscientes no campo de batalha, Adormecia nas lacunas do tambor de armas bem usadas ou nos grãos de salitre que penetravam a carne fraca e assustada de um homem. O Desespero se instalava na troca de ar rápida fria entre os que gritavam correndo de um lado a outro e aqueles que ainda conseguiam segurar uma arma.

E o clímax, mal situado por silêncios que até então nunca apareceram, chega repentinamente, sem ensaios junto com a chuva extrema. O temor não deitara. Com os olhares cautelosos eles caminham trôpegos de um lado a outro procurando um norte… Os que restavam percebiam aos poucos que as explosões ja não mais ocorriam, que os disparos não mais cortavam o ar e que os berros, o choro afobado e a troca infrutífera de informações bradadas ja não eram tão palpáveis.

Os corpos coalhavam a terra enlameada sem cerimônia. Quase nunca mostravam rostos. Todos se deitaram como se executassem a expressão de rosto que ensaiaram durante todas as marcha. Alguns homens rondavam mancos chutando com delicadeza companheiros, à procura de um sinal de vida. Muitos choravam diante dos corpos daqueles que eram amigos. Muitos sentiam frio. Muitos sentiam dor. Todos sofriam.

*  *  *

IV ato

Mas em algum instante, sem que ninguém se preocupasse em registrar, a chuva parou. O Cansaço era carregado de um lado a outro, como um peso morto a muitos que ajudavam a enfileirar os corpos aliados e inimigos. Suas mentes circundavam um vazio denso que os colocava horas inteiras em posições estáticas.

Certo momento, alguém olhou para o céu.

As nuvens se moviam rápidas e amorficamente . A escuridão ia se dissolvendo em nuvens que se afastavam carregando um plácido brilho alvo. Então o sol vespertino surgiu e fez cada um dos homens olhar para o céu. Todos quase ao mesmo tempo perceberam que um brilho de aspecto novo transversava os extensos campos de marrom penetrante, escuro e úmido e iluminava os muitos corpos arrumados naquela interminável fileira. Cada homem vivo e ainda aturdido conseguiu encontrar no seu tempo o restante de força-de-vontade que precisava para reanimar a esperança há muito tempo morta. Esperança de voltar a arriscar uma melodia delicada e adagiosa cantada por vozes celestiais.

A Guerra acabou.

Mas pela dor e o choque que costurou cada homem de uma forma diferente à lembrança da guerra, a melodia só poderia ser cantada por aqueles homens que lutaram juntos e definharam diante do inevitável curso do fôlego de ares.

*  *  *

…expira.

*  *  *)

Baseado na peça musical de David Gilmour, Nick Mason, Rick Wright e Roger Waters; A Saucerful of Secrets