Solo Áspero (IV)

Postado em Fragmentos em Maio 30, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Tenho que enfiar politonia nesse trajeto, ah se tenho. Vamos fazer uma coisa.

Vos apresento o espelho.

O espelho me diria que  eu cheguei da forma que for até o lugar que estava naquele instante, mas terá sido isso mesmo? Bem, estava como meu Jipe até então, devo ter atracado.

Cheguei, entrei, subi escadas de mármore de uma tonalidade que nunca se prende à minha mente e presenças passavam por mim, não a todo tempo, bem de vez em quando, as conhecia mas as desejava como belas moças que se vê na rua e se sabe que nunca irá se conhecer. Eu as seguia, tentava entender suas vidas dentro daquele meu novo mundo emplastrado de mármore, paredes de vidro, luzes e aquele cheiro sem cor, sem gosto e reminiscência, mas aquele cheiro formoso.

Andavam aos pares e não tinham o rosto que em alguma profundidade da minha mente ocular teria que ter. Perseguia uma de cada vez e no meio do caminho entre escadarias (e escadas rolantelantelanteslantes que ninguem sabia e queria usar)  apareciam outras que eu também tinha que seguir. Todas deveriam viver ali, ou se não, bem, se eu não via ou as ouvia talvez ja tivessem abandonado aquele mundo, aquele mundo que eu não conseguia abandonar. Era o dono dele. Mas mesmo o mundo que é grande como Shoppings Centers não é feito só de vida. Então deixei a vida do mundo um pouco de lado. E ela deixou de existir no meu mundo, rapidinho deixou.

Fui até uma das vitrines e olhei o que havia através dela e….

[Corte]

Ai!! Puts Grilla…

Deixa o espelho pra lá. Sabe quando acende aquela luz forte?? Pois então…

Isso foi o que espelho contou. E pronto e acabou. Chega. Não vou falar mais disso.

Eu que devo ter dito um bocado sobre as minhas andanças danças dançando pelo mundo ainda não falei daquelas que pedem a companhia que ia e vinha pelos aís. Diabos, até chegarmos aonde queríamos  paramos com muita força e me lembro, como do início da criação das estrelas, daquela clareira deixando de ser  clara a cada segundo morimbundo do ônibus que de forma alguma queria andar.

Dia fresco, começando a virar noite, começavam a consertar a maquinaria e eu nada mais me lembrava desse ramo (Os outros ramos nos cercavam em abundância) para poder ajudar… idiota que sou, fui querer fazer alguma coisa por aí pra não ficar parado. Todos espalhavam-se como se cumprissem ojetivos de grupo. Caçavam morcegos  e, digamos, pelo menos a maioria era caçada por eles. Para a maioria anoiteceu antes, saíram demais da nossa circunferência. Não era tão fácil voltar. Escapei e consegui me diametrar de volta para nosso (não mais meu) grande movimentador.

Talvez fosse por não gostar de viajar em companhia, mas é, pra mim, engraçado que metade dos passageiros ja não estavam mais conosco quando voltamos a viajar. Novamente olhava por alguma transparência.

A viagem seguiu curso e nessa altura da história não sei se era eu ou meu reflexo (que não me pertencia) quem atuava.


Barcarola

Postado em Acusmas em Abril 11, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Per ribeira do río
vi remar o navío,
e sabor hei da ribeira.

(Vai)

Vi, com meus olhos desejosos.  Minhas mãos trêmulas, ai Deus. A água deslizando-se pela areia deitada distante, mas a meu lado. Serenamente, a lua alisando o corpo do mar, mar somado às fluviais águas de rumo decidido, à minha frente. Ah, quisesse Deus que eu fosse o rio, breve rio defronte a mim. Rio que num piscar de uma estrela nessa clara noite se encontrará com a selvageria salgada que se torce e retorce sobre si mesma. Rio que deixando o sentido objetivo se jorra na selvageria da deriva. Ah, quisesse Deus que eu fosse o rio e me rendesse à imensidão azul. Imensidão que oscila em ondas, vem e volta, vem e volta, mais forte! Vem e volta, vem e volta! Imensidão que vai mas nunca chega, imensidão que com o orgulho da terra, vai, mas vai sempre olhando pra trás. Ai meu amigo, quisesse Deus me fazer rio pra te encontrar no vazio desse mar e me desencontrar do vazio que meu peito há de para este sempre carregar.

Irei a lo mar veé-lo meu amigo:
pregunta-lo-ei se querrá viver migo.
E vou-m’eu namorada.

Pregunta-lo-ei por que non vive migo,
e direi-lh’a coita’n que por el vivo.
E vou-m’e namorada.

(Volta)

O Tempo que passa é o vento que bate na vela e nessa imensidão confusa nos faz vagar sem cessar. A nau é o corpo resolvido e nós, que aqui atuamos, a alma perturbada, penada,  a alma que quer a terra, quer a cama, quer o cheiro do seco, quer o solo duro, quer aquela que se mostra, que se faz existir em nossas memórias, que se faz presente apenas pelo olhar que mirou a mesma água sob nosso corpo. O Destino, o Vento e o Desequilíbrio se alinham nas mãos do ancião embebido de fúria e a água está sempre a ebulir ao nosso redor. Envelhecemos o corpo e a casca da alma, nos constipamos perfurados pelos três espinhos oceânicos, mas ainda sentimos a alegria emergir da borda do horizonte, sentimos a elevação e o mesmo tempo que a cria nos faz aceitar o instante da rebentação em que tudo desaba e se emaranha na espuma.

Voltem pra mim, minha terra, meu povo, minha amada. Não mais me torturem com rochedos, afogados e ninfas. Não mais sei onde me encontro, porém mais do que sei aonde quero atingir, sei para onde quero voltar.

Nas barcas novas foi-s’o meu amigo d’aquí
e vej’eu viír barcas e tenho que ven i,
mia madre, o meu amigo.

(Vai)

Ai ,u é tu que me deixou a esperar, a receber de bom grado retornantes de corpo e espírito doentes, u é tu que acende meus eixos com navios vazios para mim, que me faz criar tormentas no meio da calmaria de praias desertas para mim, que me faz sorrir por madrugadas sonhadoras, madrugadas insones, madrugadas convictas.

Eu me desespero. Eu estraçalho as águas frias a procurar vestígios do nosso passado. Eu não quero mais suportar a madeira podre sobr’ a qual estou sentada. Não mereço, não preciso, não quero, mas me ponho a suportar…

Os mares do nosso (velho) mundo, arquipélagos inteiros,  ecos da minha mente em agonia, ai Deus, só pode ser eu, coitada e tola, que cria os maremotos em seu caminho, que faz surgir corsários em momentos de paz, que dá bela voz às sereias… Corro impaciente em volta de grandes atóis noturnos, os decoro, ignoro as marés que vem e vão por anos, tropeço na própria água dura, corro sem sair do lugar… te chamo, te grito… Gritos que sopram seu vento para o sentido errado, gritos que chegam com moléstias, gritos que acordam monstro marinhos.

porém, gritos que não quebram o silêncio do porto.

E cercarom-mi as ondas do alto mar,
nom ei i barqueiro nem sei remar.
Eu atend’o meu amigu’… e verrá?

Nom ei i barqueiro nem remador,
e morrerei eu fremosa no mar maior
Eu atendend’o meu amigu’… e verrá?

Nom ei i barqueiro nem sei remar
e morrerei eu fremosa no alto mar.
Eu atendend’o meu amigu’… verrá?

(Volta)

(Vai)

(Volta)

Solo Áspero (III)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Março 22, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Olha só como encaro tudo…

“…Meu próximo problema.”

Aiaiai! Mas é isso mesmo.

A terra grossa, sem pó, granulosa, eu, com um sorriso confiante pregado, adesivado no rosto e todo aquele chão que só fazia ficar mais familiar para mim a cada diâmetro do meu aro 15 novinho, recém desmascarado.

Era um homem de ambições fumegantes agora, mas o espírito infantil se contorcendo dentro do meu corpo elástico as vezes mostrava uma perninha ou bracinho de imaturidade que tentava romper a pele da minha barriga ou da minha testa.

Apreciável!

E o melhor de tudo era perceber que a velocidade não se sentava no banco de reservas simplesmente porque o peso queria jogar livremente. Eles eram grandes companheiros, como um dia foram Um e Uma. Eu podia correr como a  Corça de Cerínia e com a monstruosidade de um Ciclope sem me desintegrar pelas estradas bronzeadas de luz e calor.

Tempos depois eu  ja era um visionário, subindo e descendo morros encardidos, brincando com a sombra das pedras maiores que apareciam no caminho. Algo em meu interior me proibiu a certa altura de sair desse percurso que não deveria ter mais de vinte metros… talvez tenha sido aí que meu lado adulto se tornou forte e teimoso o suficientepara me avacalhar.

Tachinhas, estilingues, pó de mico e qulquer outra buginganga só tinham a me revelar que eu só conseguiria descer pelo mesmo lado do morro, por mais que meu eu criança insistisse em explorar cada grama de farelo de bauxita por ali até que fosse a hora de sair e encontrar um novo canto (uma nova melodia e um novo lugar em que pudesse deitar )…

Mas meu lado adulto amava o poente ao lado das sombras femininas e masculinas que o lugar abrigava… Pareciam artificiais para ele, mas seu calor era tão poderoso que se confundia com o do poderoso nascente  (elas nunca estavam ao meu lado nas manhas). Elas eram o sol matutino e ter essa certeza lhe bastava.

Um dia a inevitável batalha veio. Não poderia para sempre ser dois indivíduos. Teria de escolher entre continuar ali ou abandonar o lugar, entre a infância e a maturidade. Entre o morro e a continuidade da estrada, entre o sol e as sombras.

Eu fiz a escolha. Sim, fiz.

Caravanas de Acostamento

Postado em Acusmas em Fevereiro 16, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Tomando como inspiração desde belas paisagens que o cotidiano banaliza, até folhetos que a estrada não pára de trazer a nosso encontro, a história do nosso caminhar vai se formando sem nunca pedir um ponto final

O objetivo, meu chapa, é o próximo passo, que hipnotiza a musculatura treinada de nosso ser qual nunca poderia encarar a solidez de uma estátua. Que mais do que isso, se desgasta ao tentar entender o desejo humano de encontrar no meio da vida um quarto escurinho, fechado e morno; onde possa se trancar sem falha, na segurança do próximo dia e mesmo assim, resignando a sabedoria de velhos anciões que procuram uma tranqüilidade objetiva e contida e se pegam sem querer, em frenesi, frenesi, frenesi (Não respira, continua!) caminhando de um lado a outro no cômodo, botando os miolos para funcionar e se maravilhando com o movimento das próprias engrenagens. Mas por que, para que? Como é possível? Ora se não existe, no âmago da sabedoria da existência, a gota de burrice que faz transbordar o recipiente da mente humana… Transborda a sobrecarga que a mente elétrica não suporta e doa para o corpo ígneo! O corpo que nos carrega, o corpo que nos consome enquanto nós o consumimos pelas rotas siderais das nossas ambições

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única escuridão que conhecemos é a da confusão de nossas mentes entre dois passos e a dos profundos túneis rodoviários!

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única coisa fechada para os nossos olhos e para os nossos corpos é o pensamento do companheiro que está logo ao lado, aéreo entre os silêncios de assuntos que nunca acabam completamente nem começam, simplesmente cochilam

Sim, nós podemos ser humanos, mas o único calor que conhecemos é o do sol do meio dia, o sol da chegada e o sol da partida, que quase se confundem no ato instantâneo de mal se encontrar em algum lugar e começar a se desapegar. O sol está sempre, sempre a um passo de nós! Tecendo a eterna tapeçaria de luz da qual tanto deleite nos é injetado que esquecemos que o néctar é para o viajante não esse travesseiro com penas de ganso, mas o delirante sorriso do homem que nos aponta o próximo não-destino.

Um dia, na borda da estrada, nos pegamos cansados, desanimados, talvez até vegetais, apesar das passadas. A estrada também conta suas histórias… E não é que cansamos de ouvi-las, mas sim que chegamos ao ponto de precisar contá-las também

E de rios destruidores, impiedosos e incansáveis nos tornamos pequenas gotas prateadas, bem acomodadas no espaço que nos é cabido, relembrando que enquanto caminhávamos de cidade em cidade como jovens dotados de asas nos pés, ou velhos magos cinzentos, sabíamos que esse fim era fatal

Viajar nem sempre seria bom enquanto se carregasse o fardo da má notícia nas costas doloridas. Passar por qualquer lugar emanando os agouros vulturinos era o repulsor de olhares que todo andarilho gostaria de possuir enquanto cabeças lançavam olhares desprezíveis para o mendigo que o corpo revelava. Mas carregar a tanto a má quanto a boa notícia de lado a lado do mundo é para poucos… É criar pontes mais sólidas entre extremos simultaneamente intangíveis, mas criar pavores maiores do que as sombras da guerra, da fome, da peste e da morte

Uma odisséia é entre outras coisas um ato discreto de comunicação em que acabamos noticiando para nós mesmos a nossa auto-existência. Nós que corremos o mundo à procura de nós mesmos queremos auto-existir em movimento… Apenas… Apenas, meu chapa, porque nada nesse mundo que tanto  percorreremos, alguma vez, em algum instante, permanecerá completamente parado.

*                      *                      *

(E se alguém nos chama pelo nome à procura de ajuda só podemos alertar que assim como não se chega ou se parte de lugar algum não se pode pontuar ou virgular a vida)

 

Solo Áspero (II)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Fevereiro 8, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Daí que não terminei…

Vou deixar tudo mais líquido, espera:

Fui coveiro duas vezes já. Uma pra Akira, outra pra Tigre e agora pra Uma (Talvez não tenha sido por completo…). Não era meu trabalho enterrar Uma. Era o trabalho de Um, que fugiu. Desgraçado traidor, medroso que tinha medo da vingança. Talvez, pensei, se estiver debaixo da terra… Aí a enterrei… Mal. Por isso ela me persegue um pouco também. Faz um barulho gorgolejante (Górgona? Não, não, era boazinha e bonita só que agora manchada de terra.), rouco (Aqueles olhares que não transformam em pedra mas fazem a gente se lembrar das manhãs frias em que acordamos com a garganta doendo, morrendo de vontade tomar Tanjal em lata, geladinho, sonhandoodnahnos por trás daquela tosse tuberculosa ).

Mas aí fui descobrir que de alguém ela estava atrás, no meio da viagem de volta pra algum lugar.

Antes de ir atrás de Um fui atrás de Outro, é claro.

Mas Más eram aquelas intenções venturescas que me levaram pro meio da rodovia, perto de algum lugar para perto do carro que parou.

Um homem que conduzia através de ares curiosos aquele veículo que mais me lembrava um kart moderadamente bem equipado. É claro que Uma achou Um em alguma parte da história e acabou fazendo o que deveria ser feito. Foi quase assombroso ver aquilo, mas era decididamente o curso natural das coisas (como se pensa fora dos sonhosohnos). Aí, Uma e Um foram sugados pra fora do carrinho, da rodovia e por fim para fora da história que agora me dera o modesto carrinho e o desejo formidável de encontrar Outro. Para quê? Só deus sabe…

Andar é bom, mas correr é melhor quando se tem pernas que tropeçam na Lua tentando desviar da escaldância do Sol. Ficar solitário é ruim, ao se ter o pé na estrada. A todo o momento acha-se que vai se chegar a algum lugar, mas o hábito que vai se conquistando de chegar a qualquer lugar vai transformando o seu formoso destino em nenhum lugar. Aí o desespero ganha o direito de se instalar.

Mas de repente eu posso ver que já é noite e que as luzes do meu carrinho vrum,vrum me fazem um ser tão seguro que eu seria capaz de acelerar.

Contornava aqueles triangulos rodoviários com uma sensação de liberdade tão plena… Ora o que se esperaria…  Uma noite bem iluminada essa que me fez sentir como se perseguindo um cavalo que fugira. Eu vi Outro e cheguei muito perto de seu possante várias e várias vezes, mas era como se algo em mim não quizesse completamente capturá-lo. Fui perdendo o ânimo de continuar correndo e comecei a nostalgiar o ânimo daquela manhã que me enfiou na estrada.

Talvez eu ja tivesse colocado minhas mãos em Outro há muito e tivesse chegado à certeza de que não era o que eu precisava. Meus olhos olhavam para o seu limitado alcance e minhas córneas assim me agradeciam pela dissolução do panorama na imagem do velho Outro tentando dar partida no seu carro, frustrado pela falta de sucesso, mas ainda carregando a vitalidade dos garotos que pegam o carro do pai escondidos; eu provavelmente estava ao lado. Tirei uma foto que deixou o semblante do garoto eventualmente triste e foi isso que o tirou da história como todos os outros. Fosse porque fotos não mechem e por isso não podem fugir ou por ter imprimido sua frustração, que selava o fim de suas resistências.

E então eu estava sozinho na estrada, sentindo me melancólico com aquele kart. Joguei a foto ao vento abafado e tudo foi levado com o vento .

Mas foi curiosamente no menor cateto do triangulo rodoviário em que passei quase um ano circulando que a rodovia me pareceu novamente retilínea, eterna e quente como aquelas longas estradas escaldantes do Arizona.

O motor morto já há horas… Foi que olhei-o com a ternura de um pai e ele me deixou contemplá-lo ganhando uma tração nas quatro rodas.

Aí consegui abandonar o triângulo e seguir até meu próximo problema.

Metagrafia nº5

Postado em Metagrafia em Janeiro 7, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Hoje em dia quase não há mais certeza quanto a existência de qualquer coisa desesperadora. Dias comuns poderão nos levar até conjunturas bem alarmantes, mas dias comuns nunca mais poderão fazer nossos cabelos ficarem grisalhos de uma hora para outra.


Medos

Postado em Devaneios em Janeiro 6, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Medo de morrer.

Medo do papai e da mamãe morrerem.

Medo dos irmãos e dos amigos morrerem

Medo do ídolo morrer.

Medo de vomitar.

Medo de ter uma fratura exposta e ver o osso.

Medo da intensa dor.

Medor de não poder mais andar.

Medo de não poder mais enchergar.

Medo de tirar um dente.

Medo de desenvolver um Cancer.

Medo de achar manchas estranhas na ida ao banheiro.

Medo de sentir o cheiro do bicho morto.

Medo de ter uma lesma sobre a pele da cocha.

Medo de pisar num sapo.

Medo de sons de animais.

Medo de ver a agulha perfurando a pele.

Medo dele correr muito com a moto.

Medo de uma sexta feira 13

Medo da sorte falhar na hora errada.

Medo da professora te escolher.

Medo de não ter vontade de estudar.

Medo da prova

Medo de ver o Boletim.

Medo de não passar de ano.

Medo de não arrumar emprego.

Medo de depender dos pais pra sempre.

Medo de não passar no vestibular.

Medo de não encontrar a luz para resolver a ultima questão.

Medo da luz acabar.

Medo de ser surpreendido numa rua escura.

Medo de chegar em casa e não ter ninguem, numa noite tempestuosa.

Medo de raio

Medo de estar sendo perseguido num passeio pelo campo.

Medo de olhar muito tempo para um espantalho.

Medo de que fique tudo em silêncio.

Medo de buscar comida, voltar para o computador e ter algo te esperando

Medo de algo desfigurado aparecer sorrateiramente no seu segundo plano

Medo do vizinho morrer escandalosamente .

Medo de ouvir vozes.

Medo do que aconteceu na casa com os velhos moradores.

Medo da moça do quadro piscar os olhos.

Medo do espelho não fazer o que se manda.

Medo de movimentos estranhos e bruscos.

Medo do menininho com paralisia infantil.

Medo do sorriso do palhaço

Medo de risadas bizarras.

Medo de ouvir um grito seguido de uma risada histérica.

Medo de crianças em filmes de horror.

Medo de um filme repercutir na realidade.

Medo de fotografias antigas.

Medo da boneca sem pilha falar.

Medo de ouvir passos ficando mais altos.

Medo de ver sangue.

Medo de descobrir o cheiro que tanto falam que o sangue tem.

Medo das coisas terem vozes.

Medo de não saber o que falar.

Medo de apanhar do marido.

Medo de gozar rápido demais.

Medo dela não gozar.

Medo dele dormir depois de gozar.

Medo de passar a noite em claro.

Medo das cobertas se mecherem.

Medo de tomar um susto em vão.

Medo de ser assaltado enquanto dorme.

Medo de ver uma arma.

Medo do traficante de órgãos.

Medo da polícia.

Medo de algo estragar um dia feliz.

Medo do amigo não agüentar um trejeto perigoso.

Medo do amigo não conseguir correr o suficiente do indesejado.

Medo da amiga não ser forte pra resistir a um problema.

Medo da amiga não ir na sua apresentação de Jazz contemporâneo

Medo de errar um compasso numa apresentação de piano.

Medo de falar em público.

Medo de rirem de você.

Medo de falarem que você não aproveita a vida

Medo do tempo passar muito rápido.

Medo de viver com muita velocidade.

Medo de quase nunca ser feliz

Medo de não saber viver.

Medo de enlouquecer.

Medo de ir pra guerra.

Medo de fazer a escolha errada.

Medo de não ter dinheiro para comer.

Medo de ver a mãe chorar por desespero financeiro.

Medo de ouvir do pai que ele te ama muito, com olhos aquosos.

Medo de ver a mãe pela ultima vez quando ela sai pra trabalhar.

Medo de ouvir uma voz calma, profissional e desconhecida no telefone.

Medo de diagnósticos médicos.

Medo de erros médicos.

Medo de ficar sozinho no mundo.

Medo de enfretar o mundo.

Medo do mundo acabar.

Medo de morrer.

Medo de sentir medo.

Medo de sentir medo.

Medos são gigantes que engolem mundos pouco depois de nascerem com seus modestos 2 cm.

Medos se transformam, se proliferam, se deitam num velho baú esquecido no porão, ressurgem… Mas nunca nos abandonam por completo.

Medos são companheiros que estão sempre atrás de nós e nos confortam em situações revolucionárias arredando para que num piscar de olhos possamos nos esconder atrás de seus ombros.

Solo Áspero (I)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Janeiro 6, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Uma bate as botas em  1972

Um trai a alma Duma em 1973

Uma se vinga Dum em 1974.

Horrível-feia-cruel, mas olha, essa era a idéia.

Apenas Um deveria pagar a penitência da infidelidade, mas parece  (parece) que Eu ganhei amostras grátis. Aí Um estava se mastigando de medo. E se recolheu! Não sei pra onde foi! Perguntem pra Outro. Outro, animado piadista, sem vergonha, cabeçudo, não apareceu na hora certa da história. Foi deixado pra depois. Mas então você vira pra mim e sabe que sei que tem alguma coisa errada. E tem.

Sempre fui bom em enterrar as carcaças. Enterrei duas, muito bem. Não recendeu nem mesmo àquele cheirinho doce de dente mal-escovado. E mais… Só se via terra amarela-pálida-quente.

Vou explicar: No início você olha praquele chão e morre de medo da enxada não conseguir mastigar terra. Acha que vai ser que nem quando se pega a faca fraca (facafracafacafraca) e tenta-se partir um pedaço de rapadura… Que vai esfarelar sem resultado. Mas aí você entra lááááááááá no fundo. Vruuuuuuf. Vai até o inferno fofinho e se lembra que esqueceu de olhar pra ponta do cabo que segurava pra ver o tamanho da ferramenta  (Ferro e menta de comer. Menta perigosa que se funde alto, alto, alllto (Não parece ter som de U…)). Você vai tirando os quadradinhos de terra  e vai afundando o nada o suficiente até que ele consiga comportar uma vida inteira em forma de morte. Aí você termina e joga os ossinhos lá.

Acho. Não me lembro. Olha que não tenho certeza, mas deixei meu cachorrinho lá… Foram os dois? Talvez o Akira e o Tigre, mas é estranho por que nos sonhosohnos o Akira fugiu  (Que dó, filho, ele dormia em cima de um saco de lixo azul-bebê cheio de roupas dentro (Sem o saco, tudo fedia, assim como sacos de lixo fedem porque carregam o cheiro de lixo que tem quase o mesmo cheiro da morte, no inicio. Será que, então, a morte fede porque é criada em cima de sacos de lixo?)).

O Tigre eu vi, com meus dois olhos bem grandes, que concordaram em enterrá-lo. É claro que enterraram. Não vi sendo enterrado, mas é claro que enterraram. Capaz de também terem enterrado o Akira, sem que eu visse… Vejo mal.

Se era um homem, ou se era simplesmente eu, eu não sabia.

Já no canteirinho que lembrava solitárias terras de gatos eu tentei enterrar a ossada de Uma antes que as coisas piorassem. Um já devia estar tão longe…

Mas me pareceu, na exata hora em que convoquei o fio da minha enxada que não havia mais espaço pra por nem meia cartilagem. Aí fugi. Fugi pra algum lugar onde eu sabia que poderia pensar com considerável tranqüilidade que quem quer que tenha sido o coveiro para três almas durante toda uma vida, o fizera mal. Tudo ali. Tudo ali fora mal enterrado.

E se o infinito despencar sobre mim…

Postado em Acusmas, Contos em Dezembro 17, 2008 por Gabriel Castilho Gil

O Movimento de seu corpo reboava intransigentemente à maciez dos ares que a circundavam. Sorria, de olhos fechados, rodava, rodava, rodava e ficava tonta, cambaleava… Já estava quase caindo. Sentia a cabeça escorrer vertiginosamente pelos seus ombros e soltava um gemido que alargava deliciosamente o seu sorriso.

A garota deitou-se delicadamente como se o chão exercesse um magnetismo caridoso sobre o seu corpo… Sua pele azeitonada coberta por uma tanga clara se sujara um pouco pelas muitas vezes que repetira o ato de girar e cair. E agora não parava de cair. Sua visão continuava dançando, continuava se inclinando para a diagonal. Ela ainda virava a cabeça para deixar tudo num eixo decente, mas começava a rir e tudo balançava novamente.

Uma coisa engraçada lhe ocorrera mais cedo, quando saía de casa à procura de alguma reflexão.

Seus pés descalços tocaram o chão de terra seca e fofa, polvilhada de minúsculas folhas secas e crocitantes. Vocalizava uma música que sua mãe muito cantara para ela quando pequena e que há pouco fora redescoberta enquanto vasculhava suas memórias de menina-mirim. Achava que tinha uma voz bonita, bem sonora, na exata divisão entre o poder e a delicadeza e gostava disso. Se os outros não achavam o mesmo, bem… Quem iria impedi-la de continuar cantando?

Não obstante, a resposta ameaçou chegar monocromaticamente, mesclada ao marrom quase alaranjado dos pinheiros-do-alepo que muito cobriam o lugarejo onde morava. Apoiando-se de tronco em tronco quando inevitável, pulava, cada vez com um pé, mordendo a língua numa tentativa energética de concentração para manter o seu padrão. Em uma das curvas que fez, uma árvore diferente se posicionou para apoiá-la. Imponente, talvez rígida, castanha como quase tudo por ali. Mas a árvore sorriu e um homem surpreendentemente se revelou.

- Ei menina, atrapalhei sua brincadeira, não é? – A garota empinou o nariz e continuou andando. O homem a seguiu.

- Que brincadeira? Não estava brincando coisa nenhuma.

- Ah, me desculpe, atrapalhei aquilo que você estava fazendo…

- Eu? O que eu estava fazendo?

O homem irritou-se com a indiferença que a impedia de parar para falar olhando em sua cara. Em um pulo segurou-a obstinadamente pelo braço e forçou-a com violência a olhá-lo no olho.

- Qual é o seu problema!? O que quer de mim? – Ela retribuiu a violência com a aspereza mais corrosiva que conseguiu imprimir naquelas palavras, mas nada retornou dele em reflexo. Ele penetrava em seus olhos. Os olhos dele tremiam anacronicamente com a boca que tentava murmurar algo sem som.

- O que aconteceu? – Murmurou secamente.

- Acho que dá pra ver o crepúsculo pelos seus olhos – Ela assustou-se com o tom calmo de sua voz, mas continuou carrancuda. – ou talvez a aurora…

- Me larga! – Soltou-se num tranco e retomou a caminhada com seu objetivo refulgentemente ofuscando em suas passadas largas. Mas o homem não desistiu. Correu até ficar ao seu lado.

- Vamos, me diz seu nome pelo menos! Deixe-me ter pelo menos alguma coisa de você!

- Me erra! – Continuaram em passadas comicamente bem investidas. Ela com a cara fechada em silêncio, apressada. Ele, tentando arquitetar a próxima fala. Sucederam-se longos lapsos silenciosos

- Você quer saber de uma coisa?

- Fala logo!

- Acho que não devia ter olhado nos seus olhos. – Ela olhou descrente para ele, franzida e virou o rosto rapidamente, sem paciência.

- Me poupe…

- Alguma coisa minha ficou presa dentro dos seus olhos…

- Como é?

- Seus olhos roubaram algo de mim e você trancafiou isso dentro de você…

- Mas entre as reações que ela poderia ter desempenhado a mais adversa e curiosa foi a que traumaticamente sucedeu-se. A moça parou. freou com a firmeza de uma rocha e o encarou severamente nos olhos. E ele, mais uma vez pôde olhá-la nos olhos.

O firmamento de índigo parecia um côncavo espelho embaçado. Sentiu uma sensação engraçada ao mergulhar na coisa estranha que ocupava a tal concavidade azul, talvez fizesse isso para se enxergar no real espelho que estava ali em algum lugar por trás de todo aquele vapor. A coisa, não conseguia entender se era líquida ou gasosa, mas era densa e morna… Disso ele tinha certeza. Podia respirá-la e vinha uma sensação mais esquisita ainda quando tentava tocá-la também.

Sentiu uma picada aguda na exata fronteira entre o Canadá e a América e não se sabia qual ficava ao sul do seu pulso e qual ficava ao norte. Precisava se certificar. Olhou para o pulso, com cautela. Algo estranho poderia acontecer… Sentia que algo diabólico poderia acontecer se não enchesse aquela grande bóia que sua Tia Marta trouxera de Majorca em uma excursão paga que fizera há alguns anos. Uma vez! Vira como era potente uma vez, quando o Niágara com suas protuberantes barbas e sua douta feição assentiu que fossem, os quatro, quicando nas águas coléricas de sua maior mecha. As memórias provocaram um incômodo no exato meio-caminho entre seus dois ouvidos. A queda foi a pior parte. Ele, Al Jardine, Marta Cornwall e, não sabia ao certo o grau de parentesco, mas talvez, a prima de sua tia, Marguerite Yourcenar. Por ventura, foram os quatro caindo da proteção gelatinosa da bóia. Primeiro Al enquanto cantarolava a seqüência de bemóis que acabara de se sugerir, depois Marguerite. Sua avó, sagaz como sempre fora, conseguira se prender com o pé direito em uma espinha que se projetava pra fora da fluidez de toda aquela barba. – Mas uma dor incomodativa no ouvido o fez querer encerrar a lembrança mais rapidamente. – Ao ver que era o ultimo a cair, precisava fazer alguma coisa (Dores). Lembrou-se de ter se agradecido muito por lembrar do buraco de entrada do ar da bóia. Agradeceu-se centenas de vezes. Esticara o buraco para que coubesse lá dentro.

- Entra logo!!! – Talvez alguém que tivera a mesma idéia que ele em outra ocasião… Uma voz mal humorada ecoou de lá de dentro.

O conteúdo que saia o puxou para dentro como uma emulsiva língua.

PAF! Era esse o perigo, afinal de contas. Algo o dizia, com uma voz macia, que não havia razões para perder a calma. E foi assim que conseguiu se conter bem pacífico enquanto a língua moderadamente inchada lambia circunferencialmente seu pulso. Ela dizia por entre sons suculentos:

- Hum!! Sacramento, Eugene, Delícia, delícia. Spokane! Ah! Salt Lake City… é por isso que o sabor acentuou-se. Cheyenne, Bismark… Não agüento! Não agüento essa tentação! Winnipeg, meu deus, sabores transcendendo fronteiras! Oh, St. Paul!

- É isso! – O rapaz acabou tomando por pista e suspeitando das posições de cada cidadezinha. Por acaso… Dentro da bóia percebeu que podia pedir ajuda ao seu velho professor de geografia que nadava vorazmente de um lado a outro daquela gelatina palidamente azul como se acabasse de se render a um descanso recreativo, fruto dos esforços de lacrar novamente a saída de ar da bóia.

- Winnipeg! É Winnipeg! – Falou o rapaz passivo à dominação do êxtase. – Winnipeg é canadense! Posso apostar que é! O que me diz doutor Phillips?

- Acho que precisa rever angulações! Afinal, em que sentido as cidades poderiam estar sendo enumeradas!? Mas o setor de matemática preparou uma aula especial para acabar com seus problemas! Hei! William!?

- Um homem gordinho com olhos murchos assentiu com a cabeça, que era a única coisa perfeitamente visível dentro da bolha viscosa em que residia.

Cócegas.

A língua caiu para fora do pulso levando consigo pequenas lascas das Rochosas. Do orifício que ficou, uma delicada mão-braço-cotovelo-antebraço… Emergiu viscosamente, como um bebê parido sem impedâncias. De lá foi saindo gradativamente uma bela moça de cabelos louro-prateados, sem rosto, que aproveitando as proximidades das mãos iniciou uma dança giratória com o rapaz assim que o ultimo centímetro de seu sapatinho de salto deixou o pulso.

Muito bem garoto. É simples…

Horário…

O giro que a garota deu fez o rapaz perder o equilíbrio instantaneamente. Recuperou-se e se distraiu no ato deparando-se com rochas azuladas que murchavam e inflavam por todo lugar, algumas tinhas palavras grafadas de algum modo, mas perdeu o foco depois um tempo. (Girava e girava) na retomada do foco, homenzinhos tocavam flauta e dançavam marotamente ao som seu som suave. Com medo de perder o foco novamente, apertou os olhos e viu que os homens martelavam bruscamente as pedras com a flautinha (girava e girava). Mas na próxima vez que perdeu o foco só ouviu as vozes…

(É ouro, ouro!)

(Ele vai pagar uma fortuna por isso, Stuart!)

(Caramba esse negócio não é tão quente, mas uma hora, uma hora vai derreter a porcariada!)

Por fim. Enjoado. Foi sentindo a dançarina ir diminuindo a velocidade dos giros. (parando, parando)

- Garoto, se importa se subirmos um pouco, antes de começarmos o anti-horário? O ar daqui de baixo é muito pesado. (Parou!) – Zonzo, o rapaz se achou num extenso salão forrado exageradamente de ouro, mas não conseguiu se ater a muita observação. Localizou duas das pedras que anteriormente eram azuis e enfim pôde ler a mensagem que elas diziam em letras garrafais: O que esta esperando, homem! Diga que não se importa!

- Não, madame… Nem um pouco.

E subiram na velocidade do som.

Durou pouco menos de vinte segundos, mas se a volta não durasse tanto quanto se não menos, morreria sem ar. “Um pouco acima” era fantástico. O azul celestial ia ficando mais opaco e escuro até que na borda do horizonte se cancelava no gélido preto e só!. Não havia por do sol, nem nuvens paradisíacas ali em cima, mas era tudo esplendorosamente mágico.

O rapaz já girava sem perceber quando de repente o senhor céu, brincalhão, notando a distração dos dois, usou toda a elasticidade que tinha, esticou-se como a base de um trampolim e deu um empurrão no casal giratório que mais parecia um pião sônico.

E então ela soltou os braços dele. Aquela era a hora em que tudo, estranho, porém prazeroso, talvez revelasse a sua porção de perigo. Ele ia caindo e caindo. Mas não poderia cair até o fim… Aquilo destruía sua consciência (Caía mais rápido). O fluxo com que as coisas aconteciam só contribuía para que ele confiasse numa boa sorte e…

Parou. Seus braços estavam abertos e ele acabara de quicar numa ínfima nuvem, tal como a bóia ricocheteara nas águas do niágara. Mas abrir os braços não o deixara fixo no meio do céu. O que tinha em mãos, agora, era o poder quase trivial, nas circunstâncias, de cruzar o céu como uma maleável flecha.

O ar se esfregava seco em sua pele e pela primeira vez ele sentiu que a segurança era uma sensação meramente plástica. Sentia uma pressão tão intensa e prazerosa sobre sua coluna que era como se estivesse sendo conduzida por uma grande mão que conduz um avião de papel até o momento da decolagem. Sentia-se, apesar disso, unicamente dono de suas próprias asas (Só é possível voar nos mais altos limiares do céu) e que a natureza celestial era uma servente empaticamente disposta a cumprir todos os seus desejos… Era uma escra…

- NUNCA! – Gritou a garota de pele azeitonada ficando definitivamente possessa.

- Nunca, em hipótese alguma, me compare a qualquer tipo de coisa que diga respeito à limitação. Eu, todo o meu corpo e principalmente toda a minha alma estamos contornados de liberdade e não seríamos potencialmente capazes de prender nada de ninguém em nenhuma figuração! E digo mais! Não tente se aproximar vetando os meus caminhos, me segurando e contendo de mansinho essa liberdade de que falo! Nunca mais tente isso dessa forma, paspalho!

- E saiu correndo velozmente para a saída da floresta que se encontrava pouco depois de uma clareira.

- O Rapaz caiu no chão desnorteado e lá ficou durante ininterruptas 2 horas em que se questionou incansavelmente quanto à solidez do que certamente lhe ocorrera entre a freada e a bronca.

A moça ainda gargalhava imaginando o transtorno pelo qual o rapaz devia ter passado depois que ela correu sem olhar para trás. Mas o que acontecera depois de sair correndo não se ligava diretamente a estar deitada sozinha no gramado aberto em frente à floresta, olhando para o firmamento.

Suas amigas estiveram ali com ela e elas puderam se divertir um bocado. Correram milhas uma atrás da outra, depois dançaram puerilmente enquanto cantavam versões histéricas de musicas de ninar. Por fim deitaram-se exaustas nos gramados e se puseram a estudar investigativamente os vários formatos das nuvens que aconteciam na extensão daquele magnífico céu azul-furtivo. Céu que parecia impossível depois de tantos dias de chuva. Poucos minutos atrás, todas as meninas haviam voltado pra…

Ouviu o farfalhar da grama que quase ultrapassava seu tornozelo.

Era o homem de novo. Certamente que o era. Mas desta vez seria tolerante e paciente com ele.

O homem ficara paralisado na metade do caminho que levava até ela. Para a sua surpresa, foi ela quem o chamou com o indicador, sorrindo sem mostrar os dentes pra ele.

Ficaram bons três minutos em silêncio, olhando para o horizonte que se abria completamente no panorama da grandiosa falésia sobre a qual se sentavam serenamente. Ela virou-se para ele:

- Bem, acho que fui grossa com você. Não precisava ter agido daquela forma.

- Certamente que me assustou, senhorita. – Ela sorriu timidamente. – Aquelas seis moças que estavam aqui com você são suas irmãs?

- São minhas amigas, minhas grandes melhores amigas. Mas… Sim, são minhas seis irmãzinhas mais novas.

- Posso saber seu nome agora? – Ela olhou pra ele sorrindo com um olhar pretensioso e murmurou:

- Ainda não desistiu então…

- Mas é tão simples!

- É claro que é simples, mas não é nenhum pouco importante. Nem vou perguntar o seu… Mas me diga agora: Vem da cidade?

- Ah, sim, venho e acho que não me demoro muito por aqui, infelizmente.

- Se eu te contar uma coisa promete que vai prestar bastante atenção?

- Mas é claro, implorei tanto por ouvir alguma coisa de você…

- Pois bem. Se ficasse mais um tempo aqui, conosco… Digo conosco, por que certamente teria que conhecer as sete irmãs todas reunidas. Mas enfim, você pela primeira conseguiria comer com garfo e faca a liberdade, sabia disso?

- Me atrevo a dizer que tive um contato com isso hoje…

- Não, você não teve! Não teve mesmo. A Liberdade pra você ainda está lá em cima – E apontou profeticamente para o céu – A liberdade pra você ainda é um sonho bem lúcido e nada mais do que isso!

- Acho que sonhei acordado hoje.

- É mesmo?

- Sim, pouco antes de você me dar aquela bronca.

- Ora, mas não foi uma “bronca”…

- Foi perto disso, mas… Bem, o que lhe digo é que aconteceu uma coisa muito singular comigo, quando olhei nos seus olhos… Acho que acabei de compreender o verdadeiro significado de sonhar acordado.

- Bem, você vai achar implicância, mas eu novamente acho que você se engana! Só se sonha acordado quando se está do lado de grandes amigos. Só em momentos de grande êxtase em grupos que nossa mente se torna essa mistura de aspirador de pó com processador de alimentos.

- Com o quê?! – Os dois explodiram juntos em gargalhadas.

- Hei, não ria, eu falo muito sério! Sua mente eufórica vai sugando e misturando tudo que você mostra pra ela a partir do momento que ela, como um ser individual sente que a lucidez de estar acordado também pode, em alguma circunstância, ser uma válvula de escape. São aqueles que caminham ao seu lado muito proximamente que tem o toque de ativação dessa engrenagem, pois são eles que proporcionam a segurança, te deixam à vontade para que sua alma se eleve a um patamar de transitoriedade, de fornecer e receber o que circula pela atmosfera que um círculo de amigos cria…

- Mas com certeza foi algo diferente disso. Eu tenho a impressão de ter sido completamente condicionado a partir do instante que olhei nos seus…

- Bobagem! Mamãe brinca que eu tenho um pedaço do céu nos olhos e que o céu nos deixa melancólicos, sossegados, nos faz sonhar, nos faz almejar o universo inteiro… Mas o céu está bem ali, e apenas lá, em cima de nós. – A moça soltou um curto suspiro e se deitou. Ele imitou-a. Nuvens que roubaram a luz alaranjada do sol para tentar dissolver a nulidade do preto que as matizavam moviam-se lenta e hipnoticamente através daquele céu crepuscular. Ela achava que ele ia se apagando bem devagarzinho. Soprava uma brisa tranqüilizante reminiscente de brigas em família que acabavam com morna reconciliação. Tudo era calmo e anestésico, pensava ela. E ouvir isso de si mesma a fez rir alto.

- O que foi?

- Ah, é esse céu…

- É muito bonito, sim…

- É maravilhoso.

- Mas às vezes tenho de dizer que receio um pouco que caia sobre nós.

- Mesmo?

- Sim, acho que ele planeja vingança contra todos nós que tentamos perfurar suas entranhas… Não sei, sei que se caísse o faria impiedosamente.

- E o que você faria, se isso acontecesse, bem agora?

- Acho que me ergueria e levantaria os dois braços e tentaria segurá-lo com toda a minha força.

- Ela olhou sarcasticamente pra ele e levantou a sobrancelha para começar a falar:

- Ah, eu acho que não faria isso… Segurar o céu é uma coisa que os pais fazem, uma coisa que fariam para proteger nossa ingenuidade de toda a violência do seu encanto. Uma coisa boba, um medo nítido da intensidade… É um desperdício.

- Mas o que você faria?

- O que eu faria… Se esse infinito desabasse sobre mim, eu me deitaria como fizemos agora há pouco e aguardaria todos os seus alucinantes enigmas, mistérios cuja natureza desconheço, dores místicas e prazeres inimagináveis se chocarem à toda velocidade possível com a ponta do meu indicador!

- Eles se entreolharam com curiosidade. Ela gargalhou e ele não pôde evitar… Acompanhou-a no ato desconexo de toda aquela realidade boba.

Conversaram até as primeiras estrelas introduzirem a segunda parte daquele sortilégio. Em seguida, cada um trilhou seu caminho para casa.

Metagrafia nº4 (O Trevo de duas Folhas)

Postado em Devaneios, Metagrafia em Novembro 27, 2008 por Gabriel Castilho Gil

- Camarada! Hei, hei, hei! Camarada, dá uma paradinha. Rápido, te prometo.

Escuta só.

Tome isso aqui…

- Um trevo?

- Não, ah! Putz Grila, filho: “Um trevo…” Olhe pra minha cara carrancuda. Vem cá, fica pertinho de mim o suficiente pra sentir esse cheiro de catuaba que eu sei que você tá estranhando e a que eu sei que estou fedendo. isso, assim mesmo. Agora olha bem nos meus planetas…

Haha, planetas… bem, você captou a mensagem…

Agora me conta. Eu, cheio de andrajos do jeito que estou, tudo bem, tudo bem, mas, desgraçado no meu cantinho, molhando essa vida etílica de mau-humor e depois tacando fogo por cima iria te parar pra te dar sorte?

Esse não é um trevo qualquer, camarada! Não é sorte, mano. É ponderabilidade.

Cara, essa vida é muito mágica! Muito súbita, louca!! E ela vai se atirando, entende homem?

Vai se disparando na gente que nem uma maldita bazuca ou sei lá o nome dessa tralha que mata duzentos num disparo. Não, não, espera! Bazuca não! Uma arma automática mesmo! Uma daquelas que, caramba, nunca atirei numa dessas… Nunca peguei em uma arma, saca, mas se pusesse as mãos nessa metranca, ia sentir o tesão de dar um click e ver nove tiros saírem audaciosos, varrendo o ambiente, como se perseguissem os malditos pra mim. Aí mais um click, mais um click e pah!pah!pah!pah!pah! Até acabar a cólera e a munição. Bem, as vezes a munição não é suficiente….

A vida é assim! Ela se dispara em tiros secos e se você anda em todos os caminhos do meio, é acertado por ela dos dois lados!

E para os indecisos, para os aflitos, os imparciais, para os que abrem os braços em cima do muro e vão se equilibrando enquanto podem ver de um lado a pobreza e do outro a riqueza, bem e mal, amor e indiferença, pena e compaixão, sim e não….

O Meu fabuloso, caprichoso e extravagante: Trevo de Duas Folhas!

Olha só campeão, haha! Tome aí, a vida como ela é… um lado ou outro. Arranque uma folha e não é mais ninguem, sozinho andando por aí!

Repare que agora que eu matei a presença de todos os meu companheiros. Não,não, não! Não peguei em metralhadoras e saí disparando, como ja disse. Eles simplesmente não existem mais na minha vida. Tenho todos os trevos do mundo ao meu dispor . Posso ir arrancando suas folhas, como fui arrancando meus companheiros da minha vida, mas quando chegar na ultima folha, ah sim, aquela folha solitária como eu, percebi que arrancá-la fora era me arrancar da minha própria vida! Aí parei, homem! Mas agora, todos os trevos que vejo no mundo têm uma folha. Eu!

E agora, o que encontro…! Uma folha que não serve para mim. Tome aí, o Trevo-de-duas-folhas. Seu conselheiro na hora das escolhas difícies. Sua consciência e você.

Você faz uma escolha e ele lhe dá uma consequência. A vida é boa assim, a gente vive assim 300 anos sem perceber, colega. Supimpas! Caminhe por aí! Pode parecer difícil no início, mas se acostuma, se acostuma. Se acostuma a dizer não, a recusar um emprego, a dizer adeus a uma paixão, a deixar um lugar de memórias para a fome do passado, a ver um grande amigo virar para a esquerda quando o caminho da direita parece tão mais atraente, desafiador e… Bem, sim, os caminhos. São muitos…

Se acostuma a fazer tudo e se arrepender de tudo feito, em seguida… uma semana, um mes depois.

*         *        *

Bem, você, caro-leitor: Fique sabendo que recebi um trevo-de-duas-folhas em uma manhã sem graça dessa vidinha bacana.  É claro que tenho que abrir um sorrisinho indolente. Mas, intervalando o assunto rapidamente:

Sem essa de “Escrevo porque escrevo”. É claro que quero alguma coisa. Caramba, acho que quero muita coisa!

Você pode apostar o seu tempo nesse jogo de azar chamado leitura esperando um prêmio…Ha! Você é bobalhão, gente boa! Prêmio você vê gente ganhando em qualquer lugar. Talvez não funcione com qualquer um, mas estão por aí, esses vencedores.

Talvez nos jogos de azar não seja algo a se relevar, mas enquanto lê qualquer porcaria aqui ou em outro lugar já se precaveu da possibilidade de tirar uma seqüência ineditamente unica? Nada premiado, apenas inédito…

Ó, isso vive acontecendo por aqui…

“Encara aquele pernicioso calhamaço opaco: Folhas amarelo-café. Mede com a mão a extensão de anos ou minutos na vida de personagens e deixa-a passar pelo atrito do seu dedão e para na ultima página. Fica muxoxo com  o algarismo que parece mais ano histórico do que número de página e duvida da sua aptidão para tal vereda”.

E aí, em algum instante da ducentésima parte: Tsuc!

Uma ventosa singular dilata suaa pupilaa…. O erro está feito. O protagonista dá a resposta diferente, o antagonista acerta o pavio, o tempo e o espaço de ambientação posicionam o barril explosivo e sua mente entra em órbita no estouro da história (Os motores se desligam e não é mais necessário esforço algum para se manter os avanços).

Qualquer livro é digno de ser julgado pelo capa, pelo número de páginas, pela textura e aspecto das páginas, mas nunca deve-se duvidar da capacidade que um ou dois capítulos têm de atirar na fogueira da fascinação quem o tenta queimar pela falta de figuras.

Ler um livro e não ler outro é uma escolha assim como tudo na vida. É fazer a maturidade que ja se tem agir por si só e decidir a estética da sua próxima auto-evolução,  a cromosfera da sua próxima transformação. Deixamos nossa experiência criar autonomia para escolher seus caminhos e nos trazer bons frutos.

E se falha muito no ato, claro. Deixamos de lado, aos 12, bons livros para os 16 , ou nem descobrimos que seriam bons para os 16 e nunca os lemos.

Bem, o post ameaça atingir o que vai atingir daqui a algumas linhas desde o início dessa metagrafia. Não posso mandar meu ego ir plantar cipó cabeludo enquanto tento escrever sobre coisas grandiosas, toscas, prosaicas, simples e ambiciosas. Inclusive, ele tem uma participação notável em todos os acabamentos, em um ou outro Acusma, participação total e em alguns completamente impessoais foi o que engendrou o interesse motriz.

2008 torturou  (tem torturado) firmemente. Foi um ano que me exigiu muitos esforços para atingir conclusões bem infantis… Bem, sem mais demoras. um pouco sobre o que não sei explicar:

- Esse ano, aprendi que estudar, dissecar, explorar, criticar coisas que se gosta muito a nível de prazer pode, além de completamente construtivo, cruel, assentimental, criar uma série de problemas em torno da solidez dos valores individuais, pode criar uma dissociação entre velhos gostos e a própria identidade de quem gosta e por fim pode acabar te fazendo sair do confortável sofá e sair pra procurar algo novo para se apaixonar. Péssimo e Perfeito. Mas ainda hei de me acostumar, hei de me acostumar.

- Certamente, abusar de eruditismo em um texto literário torna ele, dependedo da dimensão, do patamar que você trilha como escritor, pobre, sem significado e um mero veículo para exprimir seu vocabulário. O Dicionário é um parceiro que te ajuda a concertar vasos quebrados com pequenas quantidades da emulsão-bonder (Los Termos). Você cola cada caco e tem um vaso recriado com um pouco de esforço. Mas acima de tudo, o vaso. Você abusa da cola e tem plástico em forma de vaso.

- Meus amigos estão dizendo que escrevo bem e devo muito à confiança que tenho neles para dizer que estou melhorando mesmo. Devo estar melhorando, sim.  E se realmente estou melhorando não há hora melhorar para dizer que a inspiração não é sua parceira. Quer saber escrever bem? Acho que não tem segredo (Nunca encontrei nenhum por isso estou desistindo de procurar). Escreva, apenas vá escrevendo. Não deixe para escrever quando tiver algo grandioso na cabeça. Moa-se em linhas e as organize nesse papel digital que é inesgotavelmente prático. Não gostou? apague. Mas não deixe de escrever. Nunca. Quase ninguem vem aqui, eu tenho certeza, mas isso nunca foi motivo pra eu escrever menos. Faça do cerne de seu ego seu maior leitor, seu maior espectador, aquele que bate palmas mais altas e que chora com mais volumosidade.

- Se você escreve contos vai acabar descobrindo que sua maior dificuldade é a de tratar de realidades às quais não pertence. Sempre que penso nisso me lembro que li em uma entrevista de alguma revista com Stephen King que ele se propusera a desenvolver uma história de complexidade completamente gerida pelo ventre do universo feminino e nem sabia que em sua cidade absorventes eram ventidos em máquinas.

Saia de casa. Vá viver alguma loucura, alguma coisa diferente. Crie situações reais e repentinamente se descubra dentro delas. Então saia vivo dessas situações com a palpabilidade das reações, dos instantes, dos pormenores que sofreu e reprojete-as com (agora mais facilmente) realismo em seus personagens. Antes de usar sua criatividade para contar sobre paralelos do que vive, tente viver sobre os paralelos do que quer escrever.

Grandes escritores como Tolkien, como lembra Tavos, não acreditavam na magia que utilizavam em seus enredos e faziam grandes obras representando perfis bem diferentes dos seus próprios pessoais.  É um bom patamar, mas é um caminho austero. Quando você começa a escrever, começa um processo de distanciação do seu próprio eu (existencial, filosófico, psicológico, reativo, logístico , etc.). Tudo que você vai escrevendo fica muito próximo do que você acredita, do que você entende, do que você vive. Você tem muita dificuldade de destruir a marca d’água do seu nome em cada frase que “postula”. Escreva, escreva e tente se surpreender. Deixa sua imaginação se tornar um beco sem-saída de repente e quebre essa parede com as marretadas de suas ambições.

Certo. Espero que você, que esteja lendo isso aqui, queira escrever alguma coisa depois. Adoraria que todo mundo se sentise dominado pela mesma fantasia que me envolve ao escrever.

Eu estou aprendendo ainda, espero que tenha paciência com meus errosgramaticais, ortográficos, com meus apelos coloquiais (mostram minha tentativa de mesclar o erudito e o popular) e que, mais esperançosamente, “encontre-se” em algum tema sobre o qual escrevo.

Aos poucos, escrever vai se tornando a folha do trevo que escolhi para me decidir  quanto ao lado da estrada.