Os Olhos nos Vitrais

Postado em Acusmas, Contos em Junho 27, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Entrou apressada, ajeitando o manto em torno do pescoço com o balançar de uma mão; Suas sapatilhas ecoavam na nave.

Estava vazia. Ainda bem, pensou;  Diante do imenso crucifixo oxidado  fez o sinal da cruz e ele ficou marcado em sua testa. Confessou 6 atos que não gostaria que ninguém ouvisse e deixou o frescor do alívio massagear seu interior.Abriu seu livro no Evangelho de Mateus e cantou a oração da maneira que gostava de fazer.

Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome
Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu
O pão nosso de cada dia nos dá hoje
E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores
E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal
Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre.
Amém.

Trovejou.  Um arrepio cálido lhe subiu do ventre;  Sentiu-se pura, serena e calma. Abriu os olhos e apreciou as ondas da abóboda; concentrou-se e rezou mais uma vez.

Começou a chover lá fora e ela, que era preocupada e ansiosa, simplesmente quis deixar tudo que lhe vinha à mente escorrer com a água da chuva. Sentiu o coração bater intensamente, tirou o crucifixo de estanho da bolsa e o beijou.  Estava gelado como o tempo lá fora, mas ali podia entender que o calor desejava  se esconder, esconder para ser procurado por quem realmente o deseja.

E ela o procurou ali mesmo, deixou acontecer o forte magnetismo entre seus lábios e cada uma das extremidades da cruz. Lágrimas fluiram lenta e sensivelmente.

Rezou pela terceira vez.

Os olhos nos grandes vitrais a observavam com suspeita. Não piscavam; estavam severamente atentos à sua presença.

A tempestade atingiu tal violência que ela pensou que a qualquer instante os relâmpagos trincariam o clerestório. Foi aspirada para o próprio corpo, palpitações pontuavam as piscadas selvagens, olhava para todos os lados.

O medo brotou;  sentiu o sussuro do vento tentando se aproximar, ouviu o bater das asas das gárgulas, sentinelas do lá-fora.  Sentiu um cheiro forte de enxofre; Quis fechar os olhos, quis muito… Conseguiu. Suas órbitas doíam, mas acreditou que pudessem se acalmar, acreditou que seu coração pudesse voltar a bater com delicadeza. As luzes da igreja foram se apagando… Aos poucos o tom amarelado, cavernoso, abafado e sóbrio da Igreja foi se apagando, migrando para apenas um ponto. Rezou novamente.

Não havia mais cruz, não havia altar,  retábulo, coluna, ou padre. Fora tudo consumido pelo breu. A única luz ali, pulsante como a de uma vela, esférica e contida era a da Mulher que chorava e orava com Cristo sofrendo, debatendo-se em sua mão esquerda.

Mas a Rosácea no centro superior do abside  e os grandes vitrais laterais também brilhavam.

Os olhos nos vitrais, atentos a todos os movimentos da humanidade, a todos os seus pensamentos, ilusões, angústias e sensações, estavam ali, firmemente presos à figura da moça, cautelosos como águias, prontos para fisgar  deslizes, imprudências e desvirtudes. Estufados como se não houvesse órbitas; aqueles eram os olhos de Júpiter e faziam de seus filhos sua longa órbita. Eletrocutando as bordas do livre caminho, despejando Touros furiosos sobre o livre caminho, mas, ainda assim… Concedendo terra fértil para que imponentes carvalhos cresçam nas almas de seus filhos, em direção ao céu, apontando para seu firme coração.

Fracamente murmurava as palavras. As palavras poderiam se amontoar no chão, formar picos intermináveis, cumes inalcançáveis pelo homem comum, montanhas sólidas e sem vida. Mas as palavras eram banhadas no místico óleo de seu próprio sentimento, no calor que, antes de alcançar, há muito já estava em torno de si, cavando as terras do inverno de seu ser… As palavras percorriam o ar como pássaros em êxtase,   rodopiavam vorazmente como nebulosas sem cor e brilho.

(Rezou a ultima vez)

Essas  palavras são as correntes que aprisionam divindades, que estraçalham sua quintessência e confinam seus pedaços em folhas de papel, quadros e estátuas. São isolantes contra os relâmpagos da criação, são amaciantes para a fúria, são encantamentos para se manter a tranquilidade. São os lapsos da onisciência, da onipresença, são a mortalidade e a desvirtude divina.

Ela agora sentia-se intocável pelo medo. Terminara sua missão, mergulhara na gênese e emergira no apocalipse da história de seu dia.

Levantou-se  e caminhou levemente até o portal.  A impressão da cruz ainda estava tatuada em sua testa.

A Chuva passara.

Aquilo que criou o homem e tudo que a este está ligado não criou a Fé. A Fé foi o livre caminho que o homem encontrou de domesticar Aquilo que o criou.

Antes que ela terminasse a ultima oração, os elétricos e atentos olhos nos vitrais,  serena e resolutamente se cerraram .

Taxidermia

Postado em Contos em Junho 14, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Hanna, o que você acha d’eu, nessa minha pele insossa, me apresentar para você esta noite…?

Posso lhe contar algumas histórias lúgubres, algo do conhecimento profano que não se ouve todo dia ou mesmo toda noite, alguma sujeira obscura do mundo, algo do bizarro, do vertiginoso campo da não-ciência humana.

Ah!

Mas talvez, minha cara Hanna,

talvez você queira ouvir algo que ja foi dito, talvez queira que eu derrame um vinho de Baudelaire nessa seda alva que te acaba, ou talvez queira sentir um sereno arrepio na nuca enquanto te sussurro Poe.

Talvez queira se afogar num rio de amônia para sentir o gélido hálito de Lovecraft te trazer de volta a uma semi-vida.  Talvez queira dar as mãos a King e se prender numa esfera de vidro temperado só para trincá-la com o desespero de seus gritos…

Talvez queira seu corpo dissecado pelo bisturi do medo que Cook teria o prazer de  incidir cuidadosamente sobre a pele de sua lucidez… Haha… Quem sabe não quer seu nome num livro de sangue escrito por Barker?

Oh, querida, mas que indelicadeza minha…

Ja dizia uma velha voz que às vezes o que se diz nada importa diante do meio com que se diz….

Então o que acha d’eu me vestir com uma pele de gato preto e te surpreender na esquina de um corredor antes de infernizar seu sono?

Ou talvez eu devesse me vestir com a pele de um leão e rasgar sua tranquilidade com minhas presas sujas…

Se eu fosse um cauteloso lobo e, caminhando através da  minha fantasmagórica presença, abocanhasse sua falta de cuidado… o que acharia?

Eu também poderia ter a discreta penugem de uma  coruja e lhe causar um arrepio na calada da noite. Poderia ser um víbora e fazer suas esperanças contorcerem-se, subjugadas pela minha toxina…

Poderia ter o corpo de um’ A Coisa e tornar-me o ceifador de seus sonhos, poderia ser o próprio Cthullu e dissolver as barreiras que te separam do desconhecido.  Poderia ser a Morte Rubra e contaminar suas fantasias as tornando pestilentas úlceras emocionais…

Ou então… Minha linda…

Você pode querer que eu costure pele humana ao meu corpo, ligue veia à veia, nervo à nervo e venha travestido de mim mesmo lhe contar uma macabra história de minha autoria…

Pois, como humanos, somos inventores de todos os pavores que assolam esse e todos os outros mundos que criamos.

Solo Áspero (IV)

Postado em Fragmentos em Maio 30, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Tenho que enfiar politonia nesse trajeto, ah se tenho. Vamos fazer uma coisa.

Vos apresento o espelho.

O espelho me diria que  eu cheguei da forma que for até o lugar que estava naquele instante, mas terá sido isso mesmo? Bem, estava como meu Jipe até então, devo ter atracado.

Cheguei, entrei, subi escadas de mármore de uma tonalidade que nunca se prende à minha mente e presenças passavam por mim, não a todo tempo, bem de vez em quando, as conhecia mas as desejava como belas moças que se vê na rua e se sabe que nunca irá se conhecer. Eu as seguia, tentava entender suas vidas dentro daquele meu novo mundo emplastrado de mármore, paredes de vidro, luzes e aquele cheiro sem cor, sem gosto e reminiscência, mas aquele cheiro formoso.

Andavam aos pares e não tinham o rosto que em alguma profundidade da minha mente ocular teria que ter. Perseguia uma de cada vez e no meio do caminho entre escadarias (e escadas rolantelantelanteslantes que ninguem sabia e queria usar)  apareciam outras que eu também tinha que seguir. Todas deveriam viver ali, ou se não, bem, se eu não via ou as ouvia talvez ja tivessem abandonado aquele mundo, aquele mundo que eu não conseguia abandonar. Era o dono dele. Mas mesmo o mundo que é grande como Shoppings Centers não é feito só de vida. Então deixei a vida do mundo um pouco de lado. E ela deixou de existir no meu mundo, rapidinho deixou.

Fui até uma das vitrines e olhei o que havia através dela e….

[Corte]

Ai!! Puts Grilla…

Deixa o espelho pra lá. Sabe quando acende aquela luz forte?? Pois então…

Isso foi o que espelho contou. E pronto e acabou. Chega. Não vou falar mais disso.

Eu que devo ter dito um bocado sobre as minhas andanças danças dançando pelo mundo ainda não falei daquelas que pedem a companhia que ia e vinha pelos aís. Diabos, até chegarmos aonde queríamos  paramos com muita força e me lembro, como do início da criação das estrelas, daquela clareira deixando de ser  clara a cada segundo morimbundo do ônibus que de forma alguma queria andar.

Dia fresco, começando a virar noite, começavam a consertar a maquinaria e eu nada mais me lembrava desse ramo (Os outros ramos nos cercavam em abundância) para poder ajudar… idiota que sou, fui querer fazer alguma coisa por aí pra não ficar parado. Todos espalhavam-se como se cumprissem ojetivos de grupo. Caçavam morcegos  e, digamos, pelo menos a maioria era caçada por eles. Para a maioria anoiteceu antes, saíram demais da nossa circunferência. Não era tão fácil voltar. Escapei e consegui me diametrar de volta para nosso (não mais meu) grande movimentador.

Talvez fosse por não gostar de viajar em companhia, mas é, pra mim, engraçado que metade dos passageiros ja não estavam mais conosco quando voltamos a viajar. Novamente olhava por alguma transparência.

A viagem seguiu curso e nessa altura da história não sei se era eu ou meu reflexo (que não me pertencia) quem atuava.


Barcarola

Postado em Acusmas em Abril 11, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Per ribeira do río
vi remar o navío,
e sabor hei da ribeira.

(Vai)

Vi, com meus olhos desejosos.  Minhas mãos trêmulas, ai Deus. A água deslizando-se pela areia deitada distante, mas a meu lado. Serenamente, a lua alisando o corpo do mar, mar somado às fluviais águas de rumo decidido, à minha frente. Ah, quisesse Deus que eu fosse o rio, breve rio defronte a mim. Rio que num piscar de uma estrela nessa clara noite se encontrará com a selvageria salgada que se torce e retorce sobre si mesma. Rio que deixando o sentido objetivo se jorra na selvageria da deriva. Ah, quisesse Deus que eu fosse o rio e me rendesse à imensidão azul. Imensidão que oscila em ondas, vem e volta, vem e volta, mais forte! Vem e volta, vem e volta! Imensidão que vai mas nunca chega, imensidão que com o orgulho da terra, vai, mas vai sempre olhando pra trás. Ai meu amigo, quisesse Deus me fazer rio pra te encontrar no vazio desse mar e me desencontrar do vazio que meu peito há de para este sempre carregar.

Irei a lo mar veé-lo meu amigo:
pregunta-lo-ei se querrá viver migo.
E vou-m’eu namorada.

Pregunta-lo-ei por que non vive migo,
e direi-lh’a coita’n que por el vivo.
E vou-m’e namorada.

(Volta)

O Tempo que passa é o vento que bate na vela e nessa imensidão confusa nos faz vagar sem cessar. A nau é o corpo resolvido e nós, que aqui atuamos, a alma perturbada, penada,  a alma que quer a terra, quer a cama, quer o cheiro do seco, quer o solo duro, quer aquela que se mostra, que se faz existir em nossas memórias, que se faz presente apenas pelo olhar que mirou a mesma água sob nosso corpo. O Destino, o Vento e o Desequilíbrio se alinham nas mãos do ancião embebido de fúria e a água está sempre a ebulir ao nosso redor. Envelhecemos o corpo e a casca da alma, nos constipamos perfurados pelos três espinhos oceânicos, mas ainda sentimos a alegria emergir da borda do horizonte, sentimos a elevação e o mesmo tempo que a cria nos faz aceitar o instante da rebentação em que tudo desaba e se emaranha na espuma.

Voltem pra mim, minha terra, meu povo, minha amada. Não mais me torturem com rochedos, afogados e ninfas. Não mais sei onde me encontro, porém mais do que sei aonde quero atingir, sei para onde quero voltar.

Nas barcas novas foi-s’o meu amigo d’aquí
e vej’eu viír barcas e tenho que ven i,
mia madre, o meu amigo.

(Vai)

Ai ,u é tu que me deixou a esperar, a receber de bom grado retornantes de corpo e espírito doentes, u é tu que acende meus eixos com navios vazios para mim, que me faz criar tormentas no meio da calmaria de praias desertas para mim, que me faz sorrir por madrugadas sonhadoras, madrugadas insones, madrugadas convictas.

Eu me desespero. Eu estraçalho as águas frias a procurar vestígios do nosso passado. Eu não quero mais suportar a madeira podre sobr’ a qual estou sentada. Não mereço, não preciso, não quero, mas me ponho a suportar…

Os mares do nosso (velho) mundo, arquipélagos inteiros,  ecos da minha mente em agonia, ai Deus, só pode ser eu, coitada e tola, que cria os maremotos em seu caminho, que faz surgir corsários em momentos de paz, que dá bela voz às sereias… Corro impaciente em volta de grandes atóis noturnos, os decoro, ignoro as marés que vem e vão por anos, tropeço na própria água dura, corro sem sair do lugar… te chamo, te grito… Gritos que sopram seu vento para o sentido errado, gritos que chegam com moléstias, gritos que acordam monstro marinhos.

porém, gritos que não quebram o silêncio do porto.

E cercarom-mi as ondas do alto mar,
nom ei i barqueiro nem sei remar.
Eu atend’o meu amigu’… e verrá?

Nom ei i barqueiro nem remador,
e morrerei eu fremosa no mar maior
Eu atendend’o meu amigu’… e verrá?

Nom ei i barqueiro nem sei remar
e morrerei eu fremosa no alto mar.
Eu atendend’o meu amigu’… verrá?

(Volta)

(Vai)

(Volta)

Solo Áspero (III)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Março 22, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Olha só como encaro tudo…

“…Meu próximo problema.”

Aiaiai! Mas é isso mesmo.

A terra grossa, sem pó, granulosa, eu, com um sorriso confiante pregado, adesivado no rosto e todo aquele chão que só fazia ficar mais familiar para mim a cada diâmetro do meu aro 15 novinho, recém desmascarado.

Era um homem de ambições fumegantes agora, mas o espírito infantil se contorcendo dentro do meu corpo elástico as vezes mostrava uma perninha ou bracinho de imaturidade que tentava romper a pele da minha barriga ou da minha testa.

Apreciável!

E o melhor de tudo era perceber que a velocidade não se sentava no banco de reservas simplesmente porque o peso queria jogar livremente. Eles eram grandes companheiros, como um dia foram Um e Uma. Eu podia correr como a  Corça de Cerínia e com a monstruosidade de um Ciclope sem me desintegrar pelas estradas bronzeadas de luz e calor.

Tempos depois eu  ja era um visionário, subindo e descendo morros encardidos, brincando com a sombra das pedras maiores que apareciam no caminho. Algo em meu interior me proibiu a certa altura de sair desse percurso que não deveria ter mais de vinte metros… talvez tenha sido aí que meu lado adulto se tornou forte e teimoso o suficientepara me avacalhar.

Tachinhas, estilingues, pó de mico e qulquer outra buginganga só tinham a me revelar que eu só conseguiria descer pelo mesmo lado do morro, por mais que meu eu criança insistisse em explorar cada grama de farelo de bauxita por ali até que fosse a hora de sair e encontrar um novo canto (uma nova melodia e um novo lugar em que pudesse deitar )…

Mas meu lado adulto amava o poente ao lado das sombras femininas e masculinas que o lugar abrigava… Pareciam artificiais para ele, mas seu calor era tão poderoso que se confundia com o do poderoso nascente  (elas nunca estavam ao meu lado nas manhas). Elas eram o sol matutino e ter essa certeza lhe bastava.

Um dia a inevitável batalha veio. Não poderia para sempre ser dois indivíduos. Teria de escolher entre continuar ali ou abandonar o lugar, entre a infância e a maturidade. Entre o morro e a continuidade da estrada, entre o sol e as sombras.

Eu fiz a escolha. Sim, fiz.

Caravanas de Acostamento

Postado em Acusmas em Fevereiro 16, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Tomando como inspiração desde belas paisagens que o cotidiano banaliza, até folhetos que a estrada não pára de trazer a nosso encontro, a história do nosso caminhar vai se formando sem nunca pedir um ponto final

O objetivo, meu chapa, é o próximo passo, que hipnotiza a musculatura treinada de nosso ser qual nunca poderia encarar a solidez de uma estátua. Que mais do que isso, se desgasta ao tentar entender o desejo humano de encontrar no meio da vida um quarto escurinho, fechado e morno; onde possa se trancar sem falha, na segurança do próximo dia e mesmo assim, resignando a sabedoria de velhos anciões que procuram uma tranqüilidade objetiva e contida e se pegam sem querer, em frenesi, frenesi, frenesi (Não respira, continua!) caminhando de um lado a outro no cômodo, botando os miolos para funcionar e se maravilhando com o movimento das próprias engrenagens. Mas por que, para que? Como é possível? Ora se não existe, no âmago da sabedoria da existência, a gota de burrice que faz transbordar o recipiente da mente humana… Transborda a sobrecarga que a mente elétrica não suporta e doa para o corpo ígneo! O corpo que nos carrega, o corpo que nos consome enquanto nós o consumimos pelas rotas siderais das nossas ambições

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única escuridão que conhecemos é a da confusão de nossas mentes entre dois passos e a dos profundos túneis rodoviários!

Sim, nós podemos ser humanos, mas a única coisa fechada para os nossos olhos e para os nossos corpos é o pensamento do companheiro que está logo ao lado, aéreo entre os silêncios de assuntos que nunca acabam completamente nem começam, simplesmente cochilam

Sim, nós podemos ser humanos, mas o único calor que conhecemos é o do sol do meio dia, o sol da chegada e o sol da partida, que quase se confundem no ato instantâneo de mal se encontrar em algum lugar e começar a se desapegar. O sol está sempre, sempre a um passo de nós! Tecendo a eterna tapeçaria de luz da qual tanto deleite nos é injetado que esquecemos que o néctar é para o viajante não esse travesseiro com penas de ganso, mas o delirante sorriso do homem que nos aponta o próximo não-destino.

Um dia, na borda da estrada, nos pegamos cansados, desanimados, talvez até vegetais, apesar das passadas. A estrada também conta suas histórias… E não é que cansamos de ouvi-las, mas sim que chegamos ao ponto de precisar contá-las também

E de rios destruidores, impiedosos e incansáveis nos tornamos pequenas gotas prateadas, bem acomodadas no espaço que nos é cabido, relembrando que enquanto caminhávamos de cidade em cidade como jovens dotados de asas nos pés, ou velhos magos cinzentos, sabíamos que esse fim era fatal

Viajar nem sempre seria bom enquanto se carregasse o fardo da má notícia nas costas doloridas. Passar por qualquer lugar emanando os agouros vulturinos era o repulsor de olhares que todo andarilho gostaria de possuir enquanto cabeças lançavam olhares desprezíveis para o mendigo que o corpo revelava. Mas carregar a tanto a má quanto a boa notícia de lado a lado do mundo é para poucos… É criar pontes mais sólidas entre extremos simultaneamente intangíveis, mas criar pavores maiores do que as sombras da guerra, da fome, da peste e da morte

Uma odisséia é entre outras coisas um ato discreto de comunicação em que acabamos noticiando para nós mesmos a nossa auto-existência. Nós que corremos o mundo à procura de nós mesmos queremos auto-existir em movimento… Apenas… Apenas, meu chapa, porque nada nesse mundo que tanto  percorreremos, alguma vez, em algum instante, permanecerá completamente parado.

*                      *                      *

(E se alguém nos chama pelo nome à procura de ajuda só podemos alertar que assim como não se chega ou se parte de lugar algum não se pode pontuar ou virgular a vida)

 

Solo Áspero (II)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Fevereiro 8, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Daí que não terminei…

Vou deixar tudo mais líquido, espera:

Fui coveiro duas vezes já. Uma pra Akira, outra pra Tigre e agora pra Uma (Talvez não tenha sido por completo…). Não era meu trabalho enterrar Uma. Era o trabalho de Um, que fugiu. Desgraçado traidor, medroso que tinha medo da vingança. Talvez, pensei, se estiver debaixo da terra… Aí a enterrei… Mal. Por isso ela me persegue um pouco também. Faz um barulho gorgolejante (Górgona? Não, não, era boazinha e bonita só que agora manchada de terra.), rouco (Aqueles olhares que não transformam em pedra mas fazem a gente se lembrar das manhãs frias em que acordamos com a garganta doendo, morrendo de vontade tomar Tanjal em lata, geladinho, sonhandoodnahnos por trás daquela tosse tuberculosa ).

Mas aí fui descobrir que de alguém ela estava atrás, no meio da viagem de volta pra algum lugar.

Antes de ir atrás de Um fui atrás de Outro, é claro.

Mas Más eram aquelas intenções venturescas que me levaram pro meio da rodovia, perto de algum lugar para perto do carro que parou.

Um homem que conduzia através de ares curiosos aquele veículo que mais me lembrava um kart moderadamente bem equipado. É claro que Uma achou Um em alguma parte da história e acabou fazendo o que deveria ser feito. Foi quase assombroso ver aquilo, mas era decididamente o curso natural das coisas (como se pensa fora dos sonhosohnos). Aí, Uma e Um foram sugados pra fora do carrinho, da rodovia e por fim para fora da história que agora me dera o modesto carrinho e o desejo formidável de encontrar Outro. Para quê? Só deus sabe…

Andar é bom, mas correr é melhor quando se tem pernas que tropeçam na Lua tentando desviar da escaldância do Sol. Ficar solitário é ruim, ao se ter o pé na estrada. A todo o momento acha-se que vai se chegar a algum lugar, mas o hábito que vai se conquistando de chegar a qualquer lugar vai transformando o seu formoso destino em nenhum lugar. Aí o desespero ganha o direito de se instalar.

Mas de repente eu posso ver que já é noite e que as luzes do meu carrinho vrum,vrum me fazem um ser tão seguro que eu seria capaz de acelerar.

Contornava aqueles triangulos rodoviários com uma sensação de liberdade tão plena… Ora o que se esperaria…  Uma noite bem iluminada essa que me fez sentir como se perseguindo um cavalo que fugira. Eu vi Outro e cheguei muito perto de seu possante várias e várias vezes, mas era como se algo em mim não quizesse completamente capturá-lo. Fui perdendo o ânimo de continuar correndo e comecei a nostalgiar o ânimo daquela manhã que me enfiou na estrada.

Talvez eu ja tivesse colocado minhas mãos em Outro há muito e tivesse chegado à certeza de que não era o que eu precisava. Meus olhos olhavam para o seu limitado alcance e minhas córneas assim me agradeciam pela dissolução do panorama na imagem do velho Outro tentando dar partida no seu carro, frustrado pela falta de sucesso, mas ainda carregando a vitalidade dos garotos que pegam o carro do pai escondidos; eu provavelmente estava ao lado. Tirei uma foto que deixou o semblante do garoto eventualmente triste e foi isso que o tirou da história como todos os outros. Fosse porque fotos não mexem e por isso não podem fugir ou por ter imprimido sua frustração, que selava o fim de suas resistências.

E então eu estava sozinho na estrada, sentindo me melancólico com aquele kart. Joguei a foto ao vento abafado e tudo foi levado com o vento .

Mas foi curiosamente no menor cateto do triangulo rodoviário em que passei quase um ano circulando que a rodovia me pareceu novamente retilínea, eterna e quente como aquelas longas estradas escaldantes do Arizona.

O motor morto já há horas… Foi que olhei-o com a ternura de um pai e ele me deixou contemplá-lo ganhando uma tração nas quatro rodas.

Aí consegui abandonar o triângulo e seguir até meu próximo problema.

Metagrafia nº5

Postado em Metagrafia em Janeiro 7, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Hoje em dia quase não há mais certeza quanto a existência de qualquer coisa desesperadora. Dias comuns poderão nos levar até conjunturas bem alarmantes, mas dias comuns nunca mais poderão fazer nossos cabelos ficarem grisalhos de uma hora para outra.


Medos

Postado em Devaneios em Janeiro 6, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Medo de morrer.

Medo do papai e da mamãe morrerem.

Medo dos irmãos e dos amigos morrerem

Medo do ídolo morrer.

Medo de vomitar.

Medo de ter uma fratura exposta e ver o osso.

Medo da intensa dor.

Medor de não poder mais andar.

Medo de não poder mais enchergar.

Medo de tirar um dente.

Medo de desenvolver um Cancer.

Medo de achar manchas estranhas na ida ao banheiro.

Medo de sentir o cheiro do bicho morto.

Medo de ter uma lesma sobre a pele da cocha.

Medo de pisar num sapo.

Medo de sons de animais.

Medo de ver a agulha perfurando a pele.

Medo dele correr muito com a moto.

Medo de uma sexta feira 13

Medo da sorte falhar na hora errada.

Medo da professora te escolher.

Medo de não ter vontade de estudar.

Medo da prova

Medo de ver o Boletim.

Medo de não passar de ano.

Medo de não arrumar emprego.

Medo de depender dos pais pra sempre.

Medo de não passar no vestibular.

Medo de não encontrar a luz para resolver a ultima questão.

Medo da luz acabar.

Medo de ser surpreendido numa rua escura.

Medo de chegar em casa e não ter ninguem, numa noite tempestuosa.

Medo de raio

Medo de estar sendo perseguido num passeio pelo campo.

Medo de olhar muito tempo para um espantalho.

Medo de que fique tudo em silêncio.

Medo de buscar comida, voltar para o computador e ter algo te esperando

Medo de algo desfigurado aparecer sorrateiramente no seu segundo plano

Medo do vizinho morrer escandalosamente .

Medo de ouvir vozes.

Medo do que aconteceu na casa com os velhos moradores.

Medo da moça do quadro piscar os olhos.

Medo do espelho não fazer o que se manda.

Medo de movimentos estranhos e bruscos.

Medo do menininho com paralisia infantil.

Medo do sorriso do palhaço

Medo de risadas bizarras.

Medo de ouvir um grito seguido de uma risada histérica.

Medo de crianças em filmes de horror.

Medo de um filme repercutir na realidade.

Medo de fotografias antigas.

Medo da boneca sem pilha falar.

Medo de ouvir passos ficando mais altos.

Medo de ver sangue.

Medo de descobrir o cheiro que tanto falam que o sangue tem.

Medo das coisas terem vozes.

Medo de não saber o que falar.

Medo de apanhar do marido.

Medo de gozar rápido demais.

Medo dela não gozar.

Medo dele dormir depois de gozar.

Medo de passar a noite em claro.

Medo das cobertas se mecherem.

Medo de tomar um susto em vão.

Medo de ser assaltado enquanto dorme.

Medo de ver uma arma.

Medo do traficante de órgãos.

Medo da polícia.

Medo de algo estragar um dia feliz.

Medo do amigo não agüentar um trejeto perigoso.

Medo do amigo não conseguir correr o suficiente do indesejado.

Medo da amiga não ser forte pra resistir a um problema.

Medo da amiga não ir na sua apresentação de Jazz contemporâneo

Medo de errar um compasso numa apresentação de piano.

Medo de falar em público.

Medo de rirem de você.

Medo de falarem que você não aproveita a vida

Medo do tempo passar muito rápido.

Medo de viver com muita velocidade.

Medo de quase nunca ser feliz

Medo de não saber viver.

Medo de enlouquecer.

Medo de ir pra guerra.

Medo de fazer a escolha errada.

Medo de não ter dinheiro para comer.

Medo de ver a mãe chorar por desespero financeiro.

Medo de ouvir do pai que ele te ama muito, com olhos aquosos.

Medo de ver a mãe pela ultima vez quando ela sai pra trabalhar.

Medo de ouvir uma voz calma, profissional e desconhecida no telefone.

Medo de diagnósticos médicos.

Medo de erros médicos.

Medo de ficar sozinho no mundo.

Medo de enfretar o mundo.

Medo do mundo acabar.

Medo de morrer.

Medo de sentir medo.

Medo de sentir medo.

Medos são gigantes que engolem mundos pouco depois de nascerem com seus modestos 2 cm.

Medos se transformam, se proliferam, se deitam num velho baú esquecido no porão, ressurgem… Mas nunca nos abandonam por completo.

Medos são companheiros que estão sempre atrás de nós e nos confortam em situações revolucionárias arredando para que num piscar de olhos possamos nos esconder atrás de seus ombros.

Solo Áspero (I)

Postado em Devaneios, Fragmentos em Janeiro 6, 2009 por Gabriel Castilho Gil

Uma bate as botas em  1972

Um trai a alma Duma em 1973

Uma se vinga Dum em 1974.

Horrível-feia-cruel, mas olha, essa era a idéia.

Apenas Um deveria pagar a penitência da infidelidade, mas parece  (parece) que Eu ganhei amostras grátis. Aí Um estava se mastigando de medo. E se recolheu! Não sei pra onde foi! Perguntem pra Outro. Outro, animado piadista, sem vergonha, cabeçudo, não apareceu na hora certa da história. Foi deixado pra depois. Mas então você vira pra mim e sabe que sei que tem alguma coisa errada. E tem.

Sempre fui bom em enterrar as carcaças. Enterrei duas, muito bem. Não recendeu nem mesmo àquele cheirinho doce de dente mal-escovado. E mais… Só se via terra amarela-pálida-quente.

Vou explicar: No início você olha praquele chão e morre de medo da enxada não conseguir mastigar terra. Acha que vai ser que nem quando se pega a faca fraca (facafracafacafraca) e tenta-se partir um pedaço de rapadura… Que vai esfarelar sem resultado. Mas aí você entra lááááááááá no fundo. Vruuuuuuf. Vai até o inferno fofinho e se lembra que esqueceu de olhar pra ponta do cabo que segurava pra ver o tamanho da ferramenta  (Ferro e menta de comer. Menta perigosa que se funde alto, alto, alllto (Não parece ter som de U…)). Você vai tirando os quadradinhos de terra  e vai afundando o nada o suficiente até que ele consiga comportar uma vida inteira em forma de morte. Aí você termina e joga os ossinhos lá.

Acho. Não me lembro. Olha que não tenho certeza, mas deixei meu cachorrinho lá… Foram os dois? Talvez o Akira e o Tigre, mas é estranho por que nos sonhosohnos o Akira fugiu  (Que dó, filho, ele dormia em cima de um saco de lixo azul-bebê cheio de roupas dentro (Sem o saco, tudo fedia, assim como sacos de lixo fedem porque carregam o cheiro de lixo que tem quase o mesmo cheiro da morte, no inicio. Será que, então, a morte fede porque é criada em cima de sacos de lixo?)).

O Tigre eu vi, com meus dois olhos bem grandes, que concordaram em enterrá-lo. É claro que enterraram. Não vi sendo enterrado, mas é claro que enterraram. Capaz de também terem enterrado o Akira, sem que eu visse… Vejo mal.

Se era um homem, ou se era simplesmente eu, eu não sabia.

Já no canteirinho que lembrava solitárias terras de gatos eu tentei enterrar a ossada de Uma antes que as coisas piorassem. Um já devia estar tão longe…

Mas me pareceu, na exata hora em que convoquei o fio da minha enxada que não havia mais espaço pra por nem meia cartilagem. Aí fugi. Fugi pra algum lugar onde eu sabia que poderia pensar com considerável tranqüilidade que quem quer que tenha sido o coveiro para três almas durante toda uma vida, o fizera mal. Tudo ali. Tudo ali fora mal enterrado.