Entrou apressada, ajeitando o manto em torno do pescoço com o balançar de uma mão; Suas sapatilhas ecoavam na nave.
Estava vazia. Ainda bem, pensou; Diante do imenso crucifixo oxidado fez o sinal da cruz e ele ficou marcado em sua testa. Confessou 6 atos que não gostaria que ninguém ouvisse e deixou o frescor do alívio massagear seu interior.Abriu seu livro no Evangelho de Mateus e cantou a oração da maneira que gostava de fazer.
- Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome
- Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu
- O pão nosso de cada dia nos dá hoje
- E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores
- E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal
- Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre.
- Amém.
Trovejou. Um arrepio cálido lhe subiu do ventre; Sentiu-se pura, serena e calma. Abriu os olhos e apreciou as ondas da abóboda; concentrou-se e rezou mais uma vez.
Começou a chover lá fora e ela, que era preocupada e ansiosa, simplesmente quis deixar tudo que lhe vinha à mente escorrer com a água da chuva. Sentiu o coração bater intensamente, tirou o crucifixo de estanho da bolsa e o beijou. Estava gelado como o tempo lá fora, mas ali podia entender que o calor desejava se esconder, esconder para ser procurado por quem realmente o deseja.
E ela o procurou ali mesmo, deixou acontecer o forte magnetismo entre seus lábios e cada uma das extremidades da cruz. Lágrimas fluiram lenta e sensivelmente.
Rezou pela terceira vez.
Os olhos nos grandes vitrais a observavam com suspeita. Não piscavam; estavam severamente atentos à sua presença.
A tempestade atingiu tal violência que ela pensou que a qualquer instante os relâmpagos trincariam o clerestório. Foi aspirada para o próprio corpo, palpitações pontuavam as piscadas selvagens, olhava para todos os lados.
O medo brotou; sentiu o sussuro do vento tentando se aproximar, ouviu o bater das asas das gárgulas, sentinelas do lá-fora. Sentiu um cheiro forte de enxofre; Quis fechar os olhos, quis muito… Conseguiu. Suas órbitas doíam, mas acreditou que pudessem se acalmar, acreditou que seu coração pudesse voltar a bater com delicadeza. As luzes da igreja foram se apagando… Aos poucos o tom amarelado, cavernoso, abafado e sóbrio da Igreja foi se apagando, migrando para apenas um ponto. Rezou novamente.
Não havia mais cruz, não havia altar, retábulo, coluna, ou padre. Fora tudo consumido pelo breu. A única luz ali, pulsante como a de uma vela, esférica e contida era a da Mulher que chorava e orava com Cristo sofrendo, debatendo-se em sua mão esquerda.
Mas a Rosácea no centro superior do abside e os grandes vitrais laterais também brilhavam.
Os olhos nos vitrais, atentos a todos os movimentos da humanidade, a todos os seus pensamentos, ilusões, angústias e sensações, estavam ali, firmemente presos à figura da moça, cautelosos como águias, prontos para fisgar deslizes, imprudências e desvirtudes. Estufados como se não houvesse órbitas; aqueles eram os olhos de Júpiter e faziam de seus filhos sua longa órbita. Eletrocutando as bordas do livre caminho, despejando Touros furiosos sobre o livre caminho, mas, ainda assim… Concedendo terra fértil para que imponentes carvalhos cresçam nas almas de seus filhos, em direção ao céu, apontando para seu firme coração.
Fracamente murmurava as palavras. As palavras poderiam se amontoar no chão, formar picos intermináveis, cumes inalcançáveis pelo homem comum, montanhas sólidas e sem vida. Mas as palavras eram banhadas no místico óleo de seu próprio sentimento, no calor que, antes de alcançar, há muito já estava em torno de si, cavando as terras do inverno de seu ser… As palavras percorriam o ar como pássaros em êxtase, rodopiavam vorazmente como nebulosas sem cor e brilho.
(Rezou a ultima vez)
Essas palavras são as correntes que aprisionam divindades, que estraçalham sua quintessência e confinam seus pedaços em folhas de papel, quadros e estátuas. São isolantes contra os relâmpagos da criação, são amaciantes para a fúria, são encantamentos para se manter a tranquilidade. São os lapsos da onisciência, da onipresença, são a mortalidade e a desvirtude divina.
Ela agora sentia-se intocável pelo medo. Terminara sua missão, mergulhara na gênese e emergira no apocalipse da história de seu dia.
Levantou-se e caminhou levemente até o portal. A impressão da cruz ainda estava tatuada em sua testa.
A Chuva passara.
Aquilo que criou o homem e tudo que a este está ligado não criou a Fé. A Fé foi o livre caminho que o homem encontrou de domesticar Aquilo que o criou.
Antes que ela terminasse a ultima oração, os elétricos e atentos olhos nos vitrais, serena e resolutamente se cerraram .