E se o infinito despencar sobre mim…

Postado em Acusmas, Contos em Dezembro 17, 2008 por Gabriel Castilho Gil

O Movimento de seu corpo reboava intransigentemente à maciez dos ares que a circundavam. Sorria, de olhos fechados, rodava, rodava, rodava e ficava tonta, cambaleava… Já estava quase caindo. Sentia a cabeça escorrer vertiginosamente pelos seus ombros e soltava um gemido que alargava deliciosamente o seu sorriso.

A garota deitou-se delicadamente como se o chão exercesse um magnetismo caridoso sobre o seu corpo… Sua pele azeitonada coberta por uma tanga clara se sujara um pouco pelas muitas vezes que repetira o ato de girar e cair. E agora não parava de cair. Sua visão continuava dançando, continuava se inclinando para a diagonal. Ela ainda virava a cabeça para deixar tudo num eixo decente, mas começava a rir e tudo balançava novamente.

Uma coisa engraçada lhe ocorrera mais cedo, quando saía de casa à procura de alguma reflexão.

Seus pés descalços tocaram o chão de terra seca e fofa, polvilhada de minúsculas folhas secas e crocitantes. Vocalizava uma música que sua mãe muito cantara para ela quando pequena e que há pouco fora redescoberta enquanto vasculhava suas memórias de menina-mirim. Achava que tinha uma voz bonita, bem sonora, na exata divisão entre o poder e a delicadeza e gostava disso. Se os outros não achavam o mesmo, bem… Quem iria impedi-la de continuar cantando?

Não obstante, a resposta ameaçou chegar monocromaticamente, mesclada ao marrom quase alaranjado dos pinheiros-do-alepo que muito cobriam o lugarejo onde morava. Apoiando-se de tronco em tronco quando inevitável, pulava, cada vez com um pé, mordendo a língua numa tentativa energética de concentração para manter o seu padrão. Em uma das curvas que fez, uma árvore diferente se posicionou para apoiá-la. Imponente, talvez rígida, castanha como quase tudo por ali. Mas a árvore sorriu e um homem surpreendentemente se revelou.

- Ei menina, atrapalhei sua brincadeira, não é? – A garota empinou o nariz e continuou andando. O homem a seguiu.

- Que brincadeira? Não estava brincando coisa nenhuma.

- Ah, me desculpe, atrapalhei aquilo que você estava fazendo…

- Eu? O que eu estava fazendo?

O homem irritou-se com a indiferença que a impedia de parar para falar olhando em sua cara. Em um pulo segurou-a obstinadamente pelo braço e forçou-a com violência a olhá-lo no olho.

- Qual é o seu problema!? O que quer de mim? – Ela retribuiu a violência com a aspereza mais corrosiva que conseguiu imprimir naquelas palavras, mas nada retornou dele em reflexo. Ele penetrava em seus olhos. Os olhos dele tremiam anacronicamente com a boca que tentava murmurar algo sem som.

- O que aconteceu? – Murmurou secamente.

- Acho que dá pra ver o crepúsculo pelos seus olhos – Ela assustou-se com o tom calmo de sua voz, mas continuou carrancuda. – ou talvez a aurora…

- Me larga! – Soltou-se num tranco e retomou a caminhada com seu objetivo refulgentemente ofuscando em suas passadas largas. Mas o homem não desistiu. Correu até ficar ao seu lado.

- Vamos, me diz seu nome pelo menos! Deixe-me ter pelo menos alguma coisa de você!

- Me erra! – Continuaram em passadas comicamente bem investidas. Ela com a cara fechada em silêncio, apressada. Ele, tentando arquitetar a próxima fala. Sucederam-se longos lapsos silenciosos

- Você quer saber de uma coisa?

- Fala logo!

- Acho que não devia ter olhado nos seus olhos. – Ela olhou descrente para ele, franzida e virou o rosto rapidamente, sem paciência.

- Me poupe…

- Alguma coisa minha ficou presa dentro dos seus olhos…

- Como é?

- Seus olhos roubaram algo de mim e você trancafiou isso dentro de você…

- Mas entre as reações que ela poderia ter desempenhado a mais adversa e curiosa foi a que traumaticamente sucedeu-se. A moça parou. freou com a firmeza de uma rocha e o encarou severamente nos olhos. E ele, mais uma vez pôde olhá-la nos olhos.

O firmamento de índigo parecia um côncavo espelho embaçado. Sentiu uma sensação engraçada ao mergulhar na coisa estranha que ocupava a tal concavidade azul, talvez fizesse isso para se enxergar no real espelho que estava ali em algum lugar por trás de todo aquele vapor. A coisa, não conseguia entender se era líquida ou gasosa, mas era densa e morna… Disso ele tinha certeza. Podia respirá-la e vinha uma sensação mais esquisita ainda quando tentava tocá-la também.

Sentiu uma picada aguda na exata fronteira entre o Canadá e a América e não se sabia qual ficava ao sul do seu pulso e qual ficava ao norte. Precisava se certificar. Olhou para o pulso, com cautela. Algo estranho poderia acontecer… Sentia que algo diabólico poderia acontecer se não enchesse aquela grande bóia que sua Tia Marta trouxera de Majorca em uma excursão paga que fizera há alguns anos. Uma vez! Vira como era potente uma vez, quando o Niágara com suas protuberantes barbas e sua douta feição assentiu que fossem, os quatro, quicando nas águas coléricas de sua maior mecha. As memórias provocaram um incômodo no exato meio-caminho entre seus dois ouvidos. A queda foi a pior parte. Ele, Al Jardine, Marta Cornwall e, não sabia ao certo o grau de parentesco, mas talvez, a prima de sua tia, Marguerite Yourcenar. Por ventura, foram os quatro caindo da proteção gelatinosa da bóia. Primeiro Al enquanto cantarolava a seqüência de bemóis que acabara de se sugerir, depois Marguerite. Sua avó, sagaz como sempre fora, conseguira se prender com o pé direito em uma espinha que se projetava pra fora da fluidez de toda aquela barba. – Mas uma dor incomodativa no ouvido o fez querer encerrar a lembrança mais rapidamente. – Ao ver que era o ultimo a cair, precisava fazer alguma coisa (Dores). Lembrou-se de ter se agradecido muito por lembrar do buraco de entrada do ar da bóia. Agradeceu-se centenas de vezes. Esticara o buraco para que coubesse lá dentro.

- Entra logo!!! – Talvez alguém que tivera a mesma idéia que ele em outra ocasião… Uma voz mal humorada ecoou de lá de dentro.

O conteúdo que saia o puxou para dentro como uma emulsiva língua.

PAF! Era esse o perigo, afinal de contas. Algo o dizia, com uma voz macia, que não havia razões para perder a calma. E foi assim que conseguiu se conter bem pacífico enquanto a língua moderadamente inchada lambia circunferencialmente seu pulso. Ela dizia por entre sons suculentos:

- Hum!! Sacramento, Eugene, Delícia, delícia. Spokane! Ah! Salt Lake City… é por isso que o sabor acentuou-se. Cheyenne, Bismark… Não agüento! Não agüento essa tentação! Winnipeg, meu deus, sabores transcendendo fronteiras! Oh, St. Paul!

- É isso! – O rapaz acabou tomando por pista e suspeitando das posições de cada cidadezinha. Por acaso… Dentro da bóia percebeu que podia pedir ajuda ao seu velho professor de geografia que nadava vorazmente de um lado a outro daquela gelatina palidamente azul como se acabasse de se render a um descanso recreativo, fruto dos esforços de lacrar novamente a saída de ar da bóia.

- Winnipeg! É Winnipeg! – Falou o rapaz passivo à dominação do êxtase. – Winnipeg é canadense! Posso apostar que é! O que me diz doutor Phillips?

- Acho que precisa rever angulações! Afinal, em que sentido as cidades poderiam estar sendo enumeradas!? Mas o setor de matemática preparou uma aula especial para acabar com seus problemas! Hei! William!?

- Um homem gordinho com olhos murchos assentiu com a cabeça, que era a única coisa perfeitamente visível dentro da bolha viscosa em que residia.

Cócegas.

A língua caiu para fora do pulso levando consigo pequenas lascas das Rochosas. Do orifício que ficou, uma delicada mão-braço-cotovelo-antebraço… Emergiu viscosamente, como um bebê parido sem impedâncias. De lá foi saindo gradativamente uma bela moça de cabelos louro-prateados, sem rosto, que aproveitando as proximidades das mãos iniciou uma dança giratória com o rapaz assim que o ultimo centímetro de seu sapatinho de salto deixou o pulso.

Muito bem garoto. É simples…

Horário…

O giro que a garota deu fez o rapaz perder o equilíbrio instantaneamente. Recuperou-se e se distraiu no ato deparando-se com rochas azuladas que murchavam e inflavam por todo lugar, algumas tinhas palavras grafadas de algum modo, mas perdeu o foco depois um tempo. (Girava e girava) na retomada do foco, homenzinhos tocavam flauta e dançavam marotamente ao som seu som suave. Com medo de perder o foco novamente, apertou os olhos e viu que os homens martelavam bruscamente as pedras com a flautinha (girava e girava). Mas na próxima vez que perdeu o foco só ouviu as vozes…

(É ouro, ouro!)

(Ele vai pagar uma fortuna por isso, Stuart!)

(Caramba esse negócio não é tão quente, mas uma hora, uma hora vai derreter a porcariada!)

Por fim. Enjoado. Foi sentindo a dançarina ir diminuindo a velocidade dos giros. (parando, parando)

- Garoto, se importa se subirmos um pouco, antes de começarmos o anti-horário? O ar daqui de baixo é muito pesado. (Parou!) – Zonzo, o rapaz se achou num extenso salão forrado exageradamente de ouro, mas não conseguiu se ater a muita observação. Localizou duas das pedras que anteriormente eram azuis e enfim pôde ler a mensagem que elas diziam em letras garrafais: O que esta esperando, homem! Diga que não se importa!

- Não, madame… Nem um pouco.

E subiram na velocidade do som.

Durou pouco menos de vinte segundos, mas se a volta não durasse tanto quanto se não menos, morreria sem ar. “Um pouco acima” era fantástico. O azul celestial ia ficando mais opaco e escuro até que na borda do horizonte se cancelava no gélido preto e só!. Não havia por do sol, nem nuvens paradisíacas ali em cima, mas era tudo esplendorosamente mágico.

O rapaz já girava sem perceber quando de repente o senhor céu, brincalhão, notando a distração dos dois, usou toda a elasticidade que tinha, esticou-se como a base de um trampolim e deu um empurrão no casal giratório que mais parecia um pião sônico.

E então ela soltou os braços dele. Aquela era a hora em que tudo, estranho, porém prazeroso, talvez revelasse a sua porção de perigo. Ele ia caindo e caindo. Mas não poderia cair até o fim… Aquilo destruía sua consciência (Caía mais rápido). O fluxo com que as coisas aconteciam só contribuía para que ele confiasse numa boa sorte e…

Parou. Seus braços estavam abertos e ele acabara de quicar numa ínfima nuvem, tal como a bóia ricocheteara nas águas do niágara. Mas abrir os braços não o deixara fixo no meio do céu. O que tinha em mãos, agora, era o poder quase trivial, nas circunstâncias, de cruzar o céu como uma maleável flecha.

O ar se esfregava seco em sua pele e pela primeira vez ele sentiu que a segurança era uma sensação meramente plástica. Sentia uma pressão tão intensa e prazerosa sobre sua coluna que era como se estivesse sendo conduzida por uma grande mão que conduz um avião de papel até o momento da decolagem. Sentia-se, apesar disso, unicamente dono de suas próprias asas (Só é possível voar nos mais altos limiares do céu) e que a natureza celestial era uma servente empaticamente disposta a cumprir todos os seus desejos… Era uma escra…

- NUNCA! – Gritou a garota de pele azeitonada ficando definitivamente possessa.

- Nunca, em hipótese alguma, me compare a qualquer tipo de coisa que diga respeito à limitação. Eu, todo o meu corpo e principalmente toda a minha alma estamos contornados de liberdade e não seríamos potencialmente capazes de prender nada de ninguém em nenhuma figuração! E digo mais! Não tente se aproximar vetando os meus caminhos, me segurando e contendo de mansinho essa liberdade de que falo! Nunca mais tente isso dessa forma, paspalho!

- E saiu correndo velozmente para a saída da floresta que se encontrava pouco depois de uma clareira.

- O Rapaz caiu no chão desnorteado e lá ficou durante ininterruptas 2 horas em que se questionou incansavelmente quanto à solidez do que certamente lhe ocorrera entre a freada e a bronca.

A moça ainda gargalhava imaginando o transtorno pelo qual o rapaz devia ter passado depois que ela correu sem olhar para trás. Mas o que acontecera depois de sair correndo não se ligava diretamente a estar deitada sozinha no gramado aberto em frente à floresta, olhando para o firmamento.

Suas amigas estiveram ali com ela e elas puderam se divertir um bocado. Correram milhas uma atrás da outra, depois dançaram puerilmente enquanto cantavam versões histéricas de musicas de ninar. Por fim deitaram-se exaustas nos gramados e se puseram a estudar investigativamente os vários formatos das nuvens que aconteciam na extensão daquele magnífico céu azul-furtivo. Céu que parecia impossível depois de tantos dias de chuva. Poucos minutos atrás, todas as meninas haviam voltado pra…

Ouviu o farfalhar da grama que quase ultrapassava seu tornozelo.

Era o homem de novo. Certamente que o era. Mas desta vez seria tolerante e paciente com ele.

O homem ficara paralisado na metade do caminho que levava até ela. Para a sua surpresa, foi ela quem o chamou com o indicador, sorrindo sem mostrar os dentes pra ele.

Ficaram bons três minutos em silêncio, olhando para o horizonte que se abria completamente no panorama da grandiosa falésia sobre a qual se sentavam serenamente. Ela virou-se para ele:

- Bem, acho que fui grossa com você. Não precisava ter agido daquela forma.

- Certamente que me assustou, senhorita. – Ela sorriu timidamente. – Aquelas seis moças que estavam aqui com você são suas irmãs?

- São minhas amigas, minhas grandes melhores amigas. Mas… Sim, são minhas seis irmãzinhas mais novas.

- Posso saber seu nome agora? – Ela olhou pra ele sorrindo com um olhar pretensioso e murmurou:

- Ainda não desistiu então…

- Mas é tão simples!

- É claro que é simples, mas não é nenhum pouco importante. Nem vou perguntar o seu… Mas me diga agora: Vem da cidade?

- Ah, sim, venho e acho que não me demoro muito por aqui, infelizmente.

- Se eu te contar uma coisa promete que vai prestar bastante atenção?

- Mas é claro, implorei tanto por ouvir alguma coisa de você…

- Pois bem. Se ficasse mais um tempo aqui, conosco… Digo conosco, por que certamente teria que conhecer as sete irmãs todas reunidas. Mas enfim, você pela primeira conseguiria comer com garfo e faca a liberdade, sabia disso?

- Me atrevo a dizer que tive um contato com isso hoje…

- Não, você não teve! Não teve mesmo. A Liberdade pra você ainda está lá em cima – E apontou profeticamente para o céu – A liberdade pra você ainda é um sonho bem lúcido e nada mais do que isso!

- Acho que sonhei acordado hoje.

- É mesmo?

- Sim, pouco antes de você me dar aquela bronca.

- Ora, mas não foi uma “bronca”…

- Foi perto disso, mas… Bem, o que lhe digo é que aconteceu uma coisa muito singular comigo, quando olhei nos seus olhos… Acho que acabei de compreender o verdadeiro significado de sonhar acordado.

- Bem, você vai achar implicância, mas eu novamente acho que você se engana! Só se sonha acordado quando se está do lado de grandes amigos. Só em momentos de grande êxtase em grupos que nossa mente se torna essa mistura de aspirador de pó com processador de alimentos.

- Com o quê?! – Os dois explodiram juntos em gargalhadas.

- Hei, não ria, eu falo muito sério! Sua mente eufórica vai sugando e misturando tudo que você mostra pra ela a partir do momento que ela, como um ser individual sente que a lucidez de estar acordado também pode, em alguma circunstância, ser uma válvula de escape. São aqueles que caminham ao seu lado muito proximamente que tem o toque de ativação dessa engrenagem, pois são eles que proporcionam a segurança, te deixam à vontade para que sua alma se eleve a um patamar de transitoriedade, de fornecer e receber o que circula pela atmosfera que um círculo de amigos cria…

- Mas com certeza foi algo diferente disso. Eu tenho a impressão de ter sido completamente condicionado a partir do instante que olhei nos seus…

- Bobagem! Mamãe brinca que eu tenho um pedaço do céu nos olhos e que o céu nos deixa melancólicos, sossegados, nos faz sonhar, nos faz almejar o universo inteiro… Mas o céu está bem ali, e apenas lá, em cima de nós. – A moça soltou um curto suspiro e se deitou. Ele imitou-a. Nuvens que roubaram a luz alaranjada do sol para tentar dissolver a nulidade do preto que as matizavam moviam-se lenta e hipnoticamente através daquele céu crepuscular. Ela achava que ele ia se apagando bem devagarzinho. Soprava uma brisa tranqüilizante reminiscente de brigas em família que acabavam com morna reconciliação. Tudo era calmo e anestésico, pensava ela. E ouvir isso de si mesma a fez rir alto.

- O que foi?

- Ah, é esse céu…

- É muito bonito, sim…

- É maravilhoso.

- Mas às vezes tenho de dizer que receio um pouco que caia sobre nós.

- Mesmo?

- Sim, acho que ele planeja vingança contra todos nós que tentamos perfurar suas entranhas… Não sei, sei que se caísse o faria impiedosamente.

- E o que você faria, se isso acontecesse, bem agora?

- Acho que me ergueria e levantaria os dois braços e tentaria segurá-lo com toda a minha força.

- Ela olhou sarcasticamente pra ele e levantou a sobrancelha para começar a falar:

- Ah, eu acho que não faria isso… Segurar o céu é uma coisa que os pais fazem, uma coisa que fariam para proteger nossa ingenuidade de toda a violência do seu encanto. Uma coisa boba, um medo nítido da intensidade… É um desperdício.

- Mas o que você faria?

- O que eu faria… Se esse infinito desabasse sobre mim, eu me deitaria como fizemos agora há pouco e aguardaria todos os seus alucinantes enigmas, mistérios cuja natureza desconheço, dores místicas e prazeres inimagináveis se chocarem à toda velocidade possível com a ponta do meu indicador!

- Eles se entreolharam com curiosidade. Ela gargalhou e ele não pôde evitar… Acompanhou-a no ato desconexo de toda aquela realidade boba.

Conversaram até as primeiras estrelas introduzirem a segunda parte daquele sortilégio. Em seguida, cada um trilhou seu caminho para casa.

Metagrafia nº4 (O Trevo de duas Folhas)

Postado em Devaneios, Metagrafia em Novembro 27, 2008 por Gabriel Castilho Gil

- Camarada! Hei, hei, hei! Camarada, dá uma paradinha. Rápido, te prometo.

Escuta só.

Tome isso aqui…

- Um trevo?

- Não, ah! Putz Grila, filho: “Um trevo…” Olhe pra minha cara carrancuda. Vem cá, fica pertinho de mim o suficiente pra sentir esse cheiro de catuaba que eu sei que você tá estranhando e a que eu sei que estou fedendo. isso, assim mesmo. Agora olha bem nos meus planetas…

Haha, planetas… bem, você captou a mensagem…

Agora me conta. Eu, cheio de andrajos do jeito que estou, tudo bem, tudo bem, mas, desgraçado no meu cantinho, molhando essa vida etílica de mau-humor e depois tacando fogo por cima iria te parar pra te dar sorte?

Esse não é um trevo qualquer, camarada! Não é sorte, mano. É ponderabilidade.

Cara, essa vida é muito mágica! Muito súbita, louca!! E ela vai se atirando, entende homem?

Vai se disparando na gente que nem uma maldita bazuca ou sei lá o nome dessa tralha que mata duzentos num disparo. Não, não, espera! Bazuca não! Uma arma automática mesmo! Uma daquelas que, caramba, nunca atirei numa dessas… Nunca peguei em uma arma, saca, mas se pusesse as mãos nessa metranca, ia sentir o tesão de dar um click e ver nove tiros saírem audaciosos, varrendo o ambiente, como se perseguissem os malditos pra mim. Aí mais um click, mais um click e pah!pah!pah!pah!pah! Até acabar a cólera e a munição. Bem, as vezes a munição não é suficiente….

A vida é assim! Ela se dispara em tiros secos e se você anda em todos os caminhos do meio, é acertado por ela dos dois lados!

E para os indecisos, para os aflitos, os imparciais, para os que abrem os braços em cima do muro e vão se equilibrando enquanto podem ver de um lado a pobreza e do outro a riqueza, bem e mal, amor e indiferença, pena e compaixão, sim e não….

O Meu fabuloso, caprichoso e extravagante: Trevo de Duas Folhas!

Olha só campeão, haha! Tome aí, a vida como ela é… um lado ou outro. Arranque uma folha e não é mais ninguem, sozinho andando por aí!

Repare que agora que eu matei a presença de todos os meu companheiros. Não,não, não! Não peguei em metralhadoras e saí disparando, como ja disse. Eles simplesmente não existem mais na minha vida. Tenho todos os trevos do mundo ao meu dispor . Posso ir arrancando suas folhas, como fui arrancando meus companheiros da minha vida, mas quando chegar na ultima folha, ah sim, aquela folha solitária como eu, percebi que arrancá-la fora era me arrancar da minha própria vida! Aí parei, homem! Mas agora, todos os trevos que vejo no mundo têm uma folha. Eu!

E agora, o que encontro…! Uma folha que não serve para mim. Tome aí, o Trevo-de-duas-folhas. Seu conselheiro na hora das escolhas difícies. Sua consciência e você.

Você faz uma escolha e ele lhe dá uma consequência. A vida é boa assim, a gente vive assim 300 anos sem perceber, colega. Supimpas! Caminhe por aí! Pode parecer difícil no início, mas se acostuma, se acostuma. Se acostuma a dizer não, a recusar um emprego, a dizer adeus a uma paixão, a deixar um lugar de memórias para a fome do passado, a ver um grande amigo virar para a esquerda quando o caminho da direita parece tão mais atraente, desafiador e… Bem, sim, os caminhos. São muitos…

Se acostuma a fazer tudo e se arrepender de tudo feito, em seguida… uma semana, um mes depois.

*         *        *

Bem, você, caro-leitor: Fique sabendo que recebi um trevo-de-duas-folhas em uma manhã sem graça dessa vidinha bacana.  É claro que tenho que abrir um sorrisinho indolente. Mas, intervalando o assunto rapidamente:

Sem essa de “Escrevo porque escrevo”. É claro que quero alguma coisa. Caramba, acho que quero muita coisa!

Você pode apostar o seu tempo nesse jogo de azar chamado leitura esperando um prêmio…Ha! Você é bobalhão, gente boa! Prêmio você vê gente ganhando em qualquer lugar. Talvez não funcione com qualquer um, mas estão por aí, esses vencedores.

Talvez nos jogos de azar não seja algo a se relevar, mas enquanto lê qualquer porcaria aqui ou em outro lugar já se precaveu da possibilidade de tirar uma seqüência ineditamente unica? Nada premiado, apenas inédito…

Ó, isso vive acontecendo por aqui…

“Encara aquele pernicioso calhamaço opaco: Folhas amarelo-café. Mede com a mão a extensão de anos ou minutos na vida de personagens e deixa-a passar pelo atrito do seu dedão e para na ultima página. Fica muxoxo com  o algarismo que parece mais ano histórico do que número de página e duvida da sua aptidão para tal vereda”.

E aí, em algum instante da ducentésima parte: Tsuc!

Uma ventosa singular dilata suaa pupilaa…. O erro está feito. O protagonista dá a resposta diferente, o antagonista acerta o pavio, o tempo e o espaço de ambientação posicionam o barril explosivo e sua mente entra em órbita no estouro da história (Os motores se desligam e não é mais necessário esforço algum para se manter os avanços).

Qualquer livro é digno de ser julgado pelo capa, pelo número de páginas, pela textura e aspecto das páginas, mas nunca deve-se duvidar da capacidade que um ou dois capítulos têm de atirar na fogueira da fascinação quem o tenta queimar pela falta de figuras.

Ler um livro e não ler outro é uma escolha assim como tudo na vida. É fazer a maturidade que ja se tem agir por si só e decidir a estética da sua próxima auto-evolução,  a cromosfera da sua próxima transformação. Deixamos nossa experiência criar autonomia para escolher seus caminhos e nos trazer bons frutos.

E se falha muito no ato, claro. Deixamos de lado, aos 12, bons livros para os 16 , ou nem descobrimos que seriam bons para os 16 e nunca os lemos.

Bem, o post ameaça atingir o que vai atingir daqui a algumas linhas desde o início dessa metagrafia. Não posso mandar meu ego ir plantar cipó cabeludo enquanto tento escrever sobre coisas grandiosas, toscas, prosaicas, simples e ambiciosas. Inclusive, ele tem uma participação notável em todos os acabamentos, em um ou outro Acusma, participação total e em alguns completamente impessoais foi o que engendrou o interesse motriz.

2008 torturou  (tem torturado) firmemente. Foi um ano que me exigiu muitos esforços para atingir conclusões bem infantis… Bem, sem mais demoras. um pouco sobre o que não sei explicar:

- Esse ano, aprendi que estudar, dissecar, explorar, criticar coisas que se gosta muito a nível de prazer pode, além de completamente construtivo, cruel, assentimental, criar uma série de problemas em torno da solidez dos valores individuais, pode criar uma dissociação entre velhos gostos e a própria identidade de quem gosta e por fim pode acabar te fazendo sair do confortável sofá e sair pra procurar algo novo para se apaixonar. Péssimo e Perfeito. Mas ainda hei de me acostumar, hei de me acostumar.

- Certamente, abusar de eruditismo em um texto literário torna ele, dependedo da dimensão, do patamar que você trilha como escritor, pobre, sem significado e um mero veículo para exprimir seu vocabulário. O Dicionário é um parceiro que te ajuda a concertar vasos quebrados com pequenas quantidades da emulsão-bonder (Los Termos). Você cola cada caco e tem um vaso recriado com um pouco de esforço. Mas acima de tudo, o vaso. Você abusa da cola e tem plástico em forma de vaso.

- Meus amigos estão dizendo que escrevo bem e devo muito à confiança que tenho neles para dizer que estou melhorando mesmo. Devo estar melhorando, sim.  E se realmente estou melhorando não há hora melhorar para dizer que a inspiração não é sua parceira. Quer saber escrever bem? Acho que não tem segredo (Nunca encontrei nenhum por isso estou desistindo de procurar). Escreva, apenas vá escrevendo. Não deixe para escrever quando tiver algo grandioso na cabeça. Moa-se em linhas e as organize nesse papel digital que é inesgotavelmente prático. Não gostou? apague. Mas não deixe de escrever. Nunca. Quase ninguem vem aqui, eu tenho certeza, mas isso nunca foi motivo pra eu escrever menos. Faça do cerne de seu ego seu maior leitor, seu maior espectador, aquele que bate palmas mais altas e que chora com mais volumosidade.

- Se você escreve contos vai acabar descobrindo que sua maior dificuldade é a de tratar de realidades às quais não pertence. Sempre que penso nisso me lembro que li em uma entrevista de alguma revista com Stephen King que ele se propusera a desenvolver uma história de complexidade completamente gerida pelo ventre do universo feminino e nem sabia que em sua cidade absorventes eram ventidos em máquinas.

Saia de casa. Vá viver alguma loucura, alguma coisa diferente. Crie situações reais e repentinamente se descubra dentro delas. Então saia vivo dessas situações com a palpabilidade das reações, dos instantes, dos pormenores que sofreu e reprojete-as com (agora mais facilmente) realismo em seus personagens. Antes de usar sua criatividade para contar sobre paralelos do que vive, tente viver sobre os paralelos do que quer escrever.

Grandes escritores como Tolkien, como lembra Tavos, não acreditavam na magia que utilizavam em seus enredos e faziam grandes obras representando perfis bem diferentes dos seus próprios pessoais.  É um bom patamar, mas é um caminho austero. Quando você começa a escrever, começa um processo de distanciação do seu próprio eu (existencial, filosófico, psicológico, reativo, logístico , etc.). Tudo que você vai escrevendo fica muito próximo do que você acredita, do que você entende, do que você vive. Você tem muita dificuldade de destruir a marca d’água do seu nome em cada frase que “postula”. Escreva, escreva e tente se surpreender. Deixa sua imaginação se tornar um beco sem-saída de repente e quebre essa parede com as marretadas de suas ambições.

Certo. Espero que você, que esteja lendo isso aqui, queira escrever alguma coisa depois. Adoraria que todo mundo se sentise dominado pela mesma fantasia que me envolve ao escrever.

Eu estou aprendendo ainda, espero que tenha paciência com meus errosgramaticais, ortográficos, com meus apelos coloquiais (mostram minha tentativa de mesclar o erudito e o popular) e que, mais esperançosamente, “encontre-se” em algum tema sobre o qual escrevo.

Aos poucos, escrever vai se tornando a folha do trevo que escolhi para me decidir  quanto ao lado da estrada.

Afronesia de Chumbo

Postado em Acusmas em Novembro 13, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Devo empunhar esta foice ou girar a roda do zodíaco?

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Vai passar, vai passar. Sempre passe, meu bom homem.

Passa.

Olha ali Bianca! É aquela menina com a qual um dia você quis poder compartilhar as mãos. Quis que te empurrasse no balanço, que brincasse com as suas bonecas adereçadas à ponto russo, que um dia virou pra você e te falou do Diogo, do André, do Denis, do Túlio, do…

Bianca vem cá. O quê que aconteceu a vocês duas? Eram tão amigas, não? Não existiam separadas, simbiose feminina de quarto grau eu diria… Mas vem, me fale o que não mais existe entre vocês.

Senhor dia-após-dia.

A Talita está diferente. Ela começou a passar o recreio com outras meninas também e está vindo com umas idéias esquisitas pra conversar comigo. Eu, eu estou achando ela meio chata. Não queria que ela ficasse diferente. Quero a Talita de sempre. Queria conseguir sorrir pra ela de novo e andar ao lado dela contente de novo e me divertir com ela de novo, mas hoje, mais exatamente nesse instante me lembrei que estou tomando um café com leite, seis minutos atrasada para ficar 6 horas sentada num escritório. Acho que o Sr. Francis não vai me notar, mas essa mancha marrom na minha camisa branquinha… Pago a conta e vou, não é isso? Deixo para pensar nessa história às duas horas da manhã naquela madrugada em que encontrar a nossa bonequinha siamesa nas caixas da mudança. Bianlita, era esse o nomezinho.


Salve-salve seus filhotes lindos, Helena. Os dois pequenos que você achou que não teria quando chupava limões e os cobria de tequila em troca de alguma loucura. Os dois pequenos que serão sempre seus pequenos (Ai, ai me solta!).

Um dia você acordou e descobriu que os dois bebês não estavam no chiqueirinho, onde seu marido os deixava toda manhã ao sair com o cachorro. Helena, Helena, você estava enjoada de aflição quando se pôs a procurar em silêncio pela casa inteira esperando ouvir alguma risada ou gemido de Rômulo. Foi ao banheiro, onde uma vez Remo bateu o queixo na quina da banheira enquanto a observava dar banho no irmãozinho. É isso aí, foi lá umas duas vezes, mas só na terceira olhou para o espelho.

Encontrou aquela placa cristalina embaçada de onde uma mulher de pele amassada por expressões da idade olhava diretamente em seus olhos. (Ah, sim! E você sabe bem que só se olha nos olhos de outra pessoa direta e indiscutivelmente, quando se está postado diante do espelho). Seus lábios trêmulos, intumescidos, fora de foco murmuravam palavras de descrença e repulsão, enquanto você afastava-se um centímetro para cada fio branco que lhe acontecia.

O telefone tocou e você foi atrás do que deveria ser a voz do seu marido a uns dois quilômetros dali, voltando com Asterix da caminhada matutina.

A Secretária eletrônica, mulher bela de voz morna que fora a mesma, sem perder amigos e filhos para… Bem, para a vida, durante 17 anos, comunica:

Mamãe, não volto hoje para o almoço. Vou ver se consigo o visto ainda essa tarde, mas não conte comigo até pelo menos as dezenove horas. Beijo. Te amo mamãe.

Senhor dia-após-dia,

Rômulo e Remo não ficam mais em casa. Os dois têm namoradas que ainda não me foram apresentadas direito e isso me preocupa. Vi a do Reminho uma vez, saindo com ele daqui de casa para o Show do Arrigo Barnabé, mas a do Rô foi só dentro do carro em movimento. Ah, sim, senhor. O Carro. Céus não consigo acreditar que já dirigem. O pior é que quase acredito que isso virou nosso muro. Não me visitam mais e eu, eu já estou ficando maluca com isso. E o pior é que o Hilton apenas continua lendo aquele maldito jornal, me mandando ficar calma, mas eu não posso ficar calma!
Certo, certo. Talvez não seja preciso esse escândalo, mas quando lembro do dia em que Hilton achou que seria uma boa idéia deixar o cômodo livre da casa nova para guardar os jornais velhos tenho que lembrar dos meus pequenos apostando corrida de velotrol, Deus, eram tão meus… Não consigo entender mais nada. Mas agora, talvez nesse instante, não consigo também engolir aquela pilha de papel contendo cada dia da vida que aconteceu fora da minha casa gravada à tinta plúmbea (Maldita, Maldita!) e (Por favor, não me faça ter que tentar, não me deixe pensar em tentar)  não posso digerir um acidente de carro, céus! Não consigo limpar minhas mãos sujas da terra que joguei sobre o caixão do meu pequeno Remo. Falho em tudo, tudo.

(É a idade, homem, é a idade.)

Senhores de Roma, que ergueram a eternidade da civilização e ousaram estender o arco do domínio pelos três cantos do velho mundo. Homens que me dominaram à lã, a chumbo e a números. Costuraram seus exércitos pelas vísceras circulares da mãe terra e colocaram sob seus anulares a imortalidade das eras.

Mas mesmo esse passar dos dias, infreavel como os anéis que me circundam, é abastecido por transformações. E é a mesma solidez dos blocos de gelo eterno quais giram indefinidamente sobre aquele ponto do universo que penetra pelas suas pré-potências, pelos seus equívocos, pelas suas negligências minando-a com o imprevisível. Então tudo mingua num lento e glorioso fim, quando o gigante se deita para a eternidade inviolável e deixa que outros disputem o seu patamar e recriem a certeza fútil de que o sol da grandiosidade surge no leste todas as manhãs.

É isso que lhes tenho a dizer. Sou o pai e não deixo que meus filhos escapem da corda bamba que existe na altura dos meus três olhos.

Passado, para os garotos que fogem de casa numa noite escura e desenterram o cachorro lacrado pela terra da semana passada na esperança de que ele ainda irradie o brilho de velhos presentes.

Presente, para os homens que entendem que a sabedoria não é concedida a quem tem todas as respostas e sim a quem aprende a viver sem elas.

Futuro, aos velhos que viveram o passado e dele, entre várias outras somas, extraíram a segurança para enfrentar o fim e a certeza clórica de que os parasitas que se incubam no seu interior, no interior daquele seu velho cachorro de infância escoltam a vida que existe dentro da morte e a resposta cuja pergunta eles nunca quiseram calar por completo:

O que reconecta o fim ao início?

Moro na casa onde sempre morei. Sou o homem que não perde amigos e não perde parentes.

Sou o homem que engole a todos.

Sou o homem que transforma 10 minutos em uma hora, antes que a cirurgia acabe.

Sou o homem que transforma uma hora em 10 minutos quando ele e ela se olham com todos os  olhos do corpo.

Sou um andarilho insano sobre os anéis de Saturno.

Meu nome é Tempo.

Bom dia Maria e João. Escrevo aqui pois agora há pouco descobri que não mais sou.

Postado em Devaneios em Novembro 9, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Caros Maria e João,

Devem ter achado estranho eu estar enviando-lhes uma carta. Prometi que escreveria uma pra muita gente, mas para ser cordialmente sincero acho que essa é a primeira vez que o faço. Bom, devo confirmar que é exatamente como achei que fosse.

Quero muito dizer a vocês dois que estou fascinado por terem se dado muito bem juntos, como ele e ela. Juro. Sem lisonja. É todo aquele papo bobinho dos dois que nunca poderiam ser imaginadosjuntos até aparecerem de mãos dadas no meio da pracinha, sabem? Ora, é claro que sabem. Consegui encontrar mais uma vez com a velha galera, aquela que vivi falando pra vocês mas que acabei nunca apresentando… Estavam todos meio molecões… Atirando papel toalha em bolinhas com canudos de milk-shake… mas eles são eles.

Assisti a uma palestra em vídeo sobre -  Não sei que nome se dá àquilo -  mas algo genial. O cara que deu a palestra riria dessa carta, mas isso não vêm ao caso. Em algum momento ele deu um exemplo…

Um homem vira para o outro e pergunta: Quem é você?  O outro responde: Ao seus olhos, sou absolutamente quem você quer eu seja.

Acho que era assim. Não lembro bem, mas era quase isso. A resposta é banal e é excentricamente previsível, mas é a reposta mais sincera e reflexiva que alguem poderia dar e que eu nunca teria coragem de dar. Achei bonita e simples; é isso mesmo.

Ela afirma que a pergunta é besta, entendem? Não se deve ir sondando as pessoas aos poucos achando que é útil entendê-las através do que se extrai delas propositadamente.  Nunca faça nenhuma dessas duas coisas a não ser que queira conhecer sombras. É isso. Sombras é tudo que temos das pessoas a quem apenas pré-conceituamos e das pessoas a quem pedimos respostas.

Essa pergunta me deixou meio mal, sacam?Também faço isso. Eu julgo pra dedéu. Mas, bem, não vou estender muito isso…

E o pior é que uso esse argumento injusto pra continuar escrevendo essa carta. Acho que hoje mais cedo eu encontrei algo em mim que está cansado de ser uma sombra. Talvez eu seja injusto com o mundo, mas talvez não seja direito saberem da minha vida sem que queiram se envolver com ela. Sei que não é bem assim que as coisas funcionam. Ja enfiei na minha cabeça que não é assim que funciona, mas escapa.

Está  difícil ser alguém nos ultimos tempos. Também, ando sem tempo de ser alguém, mas quando conquisto algum tempo eu o desperdiço tentando, não consigo simplesmente ser. É, acho que é isso.

Eu prometi pra mim, esse ano, que seria alguem mais flexível, mais compreensivo, mais calmo, menos preocupado, mais honesto comigo mesmo, mais paciente…

Mas a vida não está me dando vontande de querer ser forte e conseguir me apoiar em cada uma dessas coisas. E não é culpa dela. Ela é boa demais. amo-a.

Meu humor anda meio volátil, entendem?

Eu, bem, não diria isso a qualquer hora e sei que vocês vão achar normal, mas choro todas as noites, sacam? Choro porque não tenho idéias, choro porque não tenho iniciativa, choro por que não consigo ter vontade de lutar pra não chorar na noite seguinte. Sou cruel comigo e sei disso. Não deveria fazer isso. Também não falo pra ninguem que estou meio mal. Todo mundo me pergunta se eu estou bem, todos me perguntam se preciso de ajuda… Todos gostam de mim, eu sinto isso!

Mas de manhã é sempre diferente. Acordo com os olhos inchados, mas com um humor renovado, acordo sentindo que o dia vai ser bom, que o sol antecipa a glória e o diferencial de um dia que ainda está para acontecer.

Mas sabe o que me destrói?  – O dia piora, sim piora, mas não é isso que me incomoda – . O que me destrói é que ele não piora todo de uma vez e nunca piora todo. Ele vai piorando aos poucos, consigo ouvir minha alma fazendo uma contagem regressiva monótona como um dia simplesmente nublado… Ninguem morre, mas niguém me esfrega a beleza da vida, nada acaba tragicamente, mas nada acontece milagrosamente, nada é realmente terrível, mas nada é realmente belo. Nada acontece!

Mas que fique claro que tive 10000 oportunidades de mudar de vértice e neguei todas. É possível que eu tenha conquistado o direito de continuar nessa jogada, paralizado.

É nessas horas que me pergunto se ter uma terceira opção além de um lado ou outro do rio vale a à pena. Pois se eu vivo o equilíbrio do Bem e do Mal com este sendo apenas o Indeciso, acho que não vale à pena viver atrás desse equilíbrio.

Escrevo pra vocês dois pois estou numa rara manhã ruim, não foi a primeira, mas curiosamente, hoje, uma manhã ruim . Escrevo pois estou cansado de estar bem e mal ao mesmo tempo num mesmo dia . Escrevo pois gostaria de conseguir deixar de ser apenas uma sombra e passar a ser algo palpável.

Mas se conseguir depende de tentar, vivi minha vida inteira para descobrir que sou covarde para a vida e que seria capaz de coragens que muitos seriam covardes ao realizar.

O que mais temo ter que enfrentar nesse carrossel não é descobrir que não mais serei alguém no mundo, mas descobrir que não deixarei de ser alguém para o mundo.

Sou covarde, pois não tentei a vida, pois falei que ela não dava valor a mim enquanto me abraçava à sua beleza. Sou covarde pois vivi a mudança durante anos de minha vida e agora nesse instante que me separa do não-ser sou incapaz de admitir que tudo pode mudar. Sou covarde por destruir a naturalidade da vida, por fazer pessoas chorarem oceanos mesmo nunca tendo agüentado ver uma gota abandonar os olhos de outros pelas conseqüências de meus atos. Sou covarde por escolher às cegas o lado feio da calçada, por estar cansado de continuar seguindo pela apatia do meio da estrada.

Acima de tudo, Maria e João, sou covarde pois a única carta que escrevi na vida para alguém que amo foi para declarar que sou covarde porque deixei de “ser”.

Afetuosamente,

O Homem-que-torturava-o-amor.

Manhã daquele dia escuro.

Abatedouro

Postado em Acusmas em Novembro 2, 2008 por Gabriel Castilho Gil

- Quem é o Maníaco?

- Quem será o Maníaco…?

Perguntas ficaram fedendo.

 

- Vamos nos apressando. Vamos nos apressando, pessoal! O Rafa vai embora e temos que nos preparar para a despedida que o pessoal estava programando.

- Meu chapa! Presta atenção no que aconteceu! Não tem como ter cerimônia nenhuma agora, nessa situação!!

- O Rafa vai embora, apesar de tudo. É a despedida dele, por pior que seja essa que sofremos. Ponto final; não compliquem…

Meio mal-humorados com a insensibilidade do garoto-piada, foram-se todos para o hall da escola.

Tudo aquilo começou dois dias antes.

Alb é meu nome e eu sou um dos que ficou. Na verdade não foram muitos que nos deixaram, mas o choque que sofremos não vai parar de cutucar tão cedo.

Foi com a idéia fraca de visitarmos aquele lugar com cheiro de xixi. Não devíamos ter feito aquilo. Não devíamos mesmo. Milou era vegetariano e Lapa comia de tudo. Áuria e Crania também eram, mas a persuasão caminhou toda da boca de Milou. Acho que ele queria nos chocar com o que veríamos, mesmo ele nunca tendo visto tudo aquilo. Quando abrimos alguns bichos na aula de biologia ele mesmo não viu nada. Não quis ver. Disse que era crueldade e era mesmo.

Mas eu, Alb, fiquei surpreso quando ele pediu pra que fôssemos até o lugar. Fiquei surpreso, digo, surpreso do meu jeito… Meio abobado, olhando pra cara do homem com a boca aberta balançando a cabeça de um lado para o outro, mas depois incorporava o espírito. Sempre incorporo!

O que me deixou mesmo estupefato (Adoro tanto essa palavra) foi o fato dos outros aceitarem o convite (isso já bagunça minha mente toda! Milou propõe uma coisa dessas! Uma coisa dessas, meu chapa! E ainda por cima os outros aceitam…) Pois bem, todos aceitaram pra valer. Tinindo de ânimo, aquele bando de meninos e meninas que achavam a palavra “odeio” forte demais para ser usada em qualquer frase, ou que ouviam falar de morte e completavam: Credo gente! Aquele pessoal que eu amo pra chuchu, mas fresco até pescar baleia. Todos aceitaram ir pelo caminho mais curto.

Não sei como chegamos lá, não sei se fomos com algum maioral, algum manda-chuva, saca? Mas fomos daquele nosso jeito descontraído e só não depravado por causa das pequenas meninas-mulher.

E eu queria a Áuria. Queria a todo custo, gostava do jeito calmo dela pra falar qualquer coisa… Não falava muito. Parecia medir o número certo de palavras pra usar e sempre completava o sentido de qualquer frase com umas rodadinhas com aquela mão minúscula dela. Caminhava toda bonitinha junto com as outras amigas. Ela e a amigona Gala eram as menorzinhas. Mas enfim, ela estava perdida na primeira mancada que desse… O lugar era estranho e não tinha absolutamente nada a ver com ela. Mas pra tê-la ali, eu seria capaz de tudo, meu caro… Mataria! Mataria pra valer, talvez. Pegaria um machado de um ou dois gumes (tanto faz, ora) e acertaria bem no…

PRIMEIRA LEVA!!!!

Tudo de repente começou a piscar em vermelho, como se uma emergência estivesse ocorrendo. Uma sirene bem subtil soou assustadora. Foi só ali que eu reparei no lugar. Era tudo! Tudo forrado de azulejos brancos: Parede, teto, e piso. Quando a luz vermelha apagava, eu podia perceber nitidamente que o lugar era velho, muito velho e era a céu aberto, não sei como (O pior é que não sei mesmo! Mas podia apostar que os azulejos cobriam o teto). Não tenho certeza se alguém emitiu aquela alerta berrada ou se fui eu quem a imaginou. Lembro que quis perguntar o que poderia ser aquilo, mas tinha de ser pra Milou. Pra ser sincero, tive um bocado de medo daquele lugar desde que entrei lá. Milou desde o início fora o cabeça daquela expedição e, por isso, queria saber o que ele pensava disso tudo. Por ventura, creio que naquele momento eu estava sozinho em um determinado ponto daquele lugar. Estava sozinho e o pior é que eu tinha certeza de que isso era a coisa mais natural do mundo. Mais natural do mundo!

Já excursionou com amigos, não?

Sabe que se você é mais velho, sempre tem aquele momento em que cada um vai pra um canto… Acha alguma coisa interessante pra bisbilhotar…

Mas eu não achava nada interessante ali. Mas era como se eu já conhecesse tudo ali. A sirene e as luzes continuavam apesar de enfraquecerem aos poucos e eu começava a sentir um cheiro estranho, um cheiro forte de carne.

O ponto em que eu estava era um imenso pátio de azulejos com algumas nivelações e degraus de azulejo também que davam para um segundo andar… uma plataforma na verdade, pois não havia paredes. Com o esvair da alerta agora eu observava um céu bem nublado lá em cima… Certamente não havia azulejos no céu.

Uma vez nós abrimos um coração de boi na aula de ciências. Se tem uma coisa de que me lembro dessa ocasião era o cheiro da carne que começava a envelhecer. Conseguia notar perfeitamente a transição do cheiro de mijo, Amônia, ou sei lá o nome que eles dão pra essa merda, para um cheiro de carne velha. Olhava ao meu redor e não via nada.

Estava começando a ficar nervoso. Sentia que ia aparecer sangue daqui a pouco. Jesus! era um abatedouro esse lugar em que estávamos…

Ninguém estava no mesmo pátio azulejado que eu. Havia outras comunicações com outras alas desse lugar maldito, mas do ponto em que estava parado olhando pra todos os pequenos becos, não podia ver ninguém (estava tudo sob controle… De vez em quando uma voz irradiava e a certeza de que havia gente por ali era sólida como um muro).

A carne ia aparecer em algum instante. Caramba. Carne é algo saboroso, mas não queria ver um boi sendo morto. Não queria mesmo! Não queria que cortassem sua garganta na minha frente, que o carneassem diante dos meus olhos. Imaginava que aqueles becozinhos espalhados pela ala acomodariam um abatedor carregando os seus 60 quilos padrões para divisão de peças Ele aparecia a qualquer instante.

Como Crania e Áuria lidariam como o sangue e como estavam lidando com o cheiro só Deus sabe. Também não queria vê-las mal. Principalmente Áuria. Quando a melancolia e a tensão de estar sozinho naquele lugar me venceram, caminhei cuidadosamente até os degraus azulejados.

Eu ia subindo cada patamar com dificuldade e o próximo não falhava de jeito maneira em ser mais difícil ainda de ser escalado. Em alguns eu só conseguia transpor meio deitado e isso era o pior que podia acontecer. Quando me levantava suado eu reforçava mais e mais a impressão de estar fugindo de algo, de alguém… O cheiro acentuava-se à media que alcançava a plataforma. Tinha medo de olhar para trás e ver aquele sangue embebendo miúdos, tripas e ter que misturar o cheiro que eu já sentia a esse composto.

Em algum momento acho que falhei. Olhei para trás mecanicamente, apenas observando todo o progresso estúpido que fiz; Não era só mais alto do que eu tinha subido… Minha visão fisgou os justos pontos que temi serem os pontos sangrentos daquela ala. Havia muita coisa esparramada num cantinho, como fruto de um serviço já realizado, mas o sangue era o que mais espantava… Céus, ele não era como nos filmes em que ele possui um percurso curvilíneo, com se tivesse simplesmente escorrido. Ele parecia ter sido jorrado contra o chão, como se tivesse sido vomitado violentamente por alguém. Arrepiei-me todo; Por fim aqueles azulejos brancos… (por que Brancos? Por que Brancos?). Faziam o sangue parecer obra de um controle preciso. Como se escoasse o quanto desejassem e até quanto permitissem. Aquilo me deixava louco! Tudo era branco e perfeitamente simétrico, porém o sangue e a morte se ejetavam do nada como a loucura em uma solitária em uso.

Em algum instante não agüentei e olhei pra cima. Um intervalo naquele brilho branco e vermelho. Um intervalo cinza… Deus, como eu queria odiar esse dia!

E comecei uma caminhada interminável sobre o patamar que interligava com mais rapidez cada uma das alas que cobriam o horizonte. O alcance da sua visão enjoada e bromosensível à carne ocasionalmente espalhada por alguns lugares…

A coisa mais estranha que me aconteceu nítida em memória foi o fato de eu ter sido o único a usar aquele diabo de plataforma no segundo andar. Eu ouvia um ou outro correndo, mas quando procurava com os olhos tudo que restava era uma perna atravessando uma curva.

De um lado a outro eu notava a melancolia se reproduzir loucamente, dominando-me cautelosamente. Sentei-me umas duas vezes com as pernas balançando sobre o degrau para espera alguém aparecer completamente e me dar um toque de como estava achando aquele recinto macabro, bizarro e outras dezenas de adjetivos indesejáveis e que seria uma idéia batuta dar o fora desse pandemônio de imagens indesejáveis. Bom, ninguém chegou.

Queria realmente saber onde esse pessoal havia se metido. No instante em que quase me dei ao luxo de um disparate eu poderia descer aquilo tudo num salto e começar a correr atrás do pessoal maldito que corria como um bando de animais fugindo de um predador. Seria capaz de pegar um machado, um arpão, uma pistola de ar, ou o que fosse para fazer alguém parar 10 segundos que fosse e olhar na minha cara.

Uma machadada e tudo certo! Bingo!

SEGUNDA LEVA!!!

A sirene rasgou o silêncio de novo e a luz vermelha a acompanhou, mas dessa vez não durou nem dez segundos.

Mas eu preferia ver o vermelho das lâmpadas, do que os jorros vermelhos emanados de encanações (senhor, como eu não percebi esses canos!?). O sangue abundante alagava todas as alas como uma gigantesca inundação. O cheiro agora era funestamente inevitável. Era como presenciar um incêndio diferente… A frieza morta do que produzira tudo aquilo, mas ao mesmo tempo o calor dos últimos fiapos de vida. Sangue ainda coalhado de oxigênio. Vívido. Voltei a disparar pela plataforma. Não queria ficar ali e ver coisas piores surgirem.

Mas aonde quer que meus pés me levavam o vermelho dançava diante do meu desespero. Apenas eu usava aquela plataforma… Eu ouvia cascos batendo contra o chão respingando sangue para todos os lados… Perseguia os rastros temerosamente e me deparava com mais silhuetas humanas. Silhuetas dos meus colegas serelepes que pareciam não entender que tinham as calças saturadas de vermelho e morte!

Duas alas.

Bom. Sempre se pode pensar que o palco de tudo gira em torna de você.

Seis alas.

“Mera eventualidade, mera eventualidade, meu campeão. Os olhos curiosos da juventude se encantam veementemente com as infinitas possibilidades de exploração…”

Onze alas.

“Ou talvez você estivesse procurando no lugar errado durante todo esse tempo… Tentar ver as coisas por cima, afinal de contas, só foi uma boa estratégia enquanto seu professor martelava o erro…”

dezenove alas.

Lá. Limpo. Leucosamente triste, porém singular. Um intervalo no meio do vermelho. Dessa vez um intervalo de total fuga. É claro que eu entrei nessa maldita ala.

Bom. Minha garota estava lá. Meu deus, eu não acreditei mesmo. Ela estava lá de costas pra mim e conversava com a sua amiga Gala e com dois outros colegas que nunca aprendi o nome. Juro que cheguei bem de fininho, indeciso quanto ao alívio ou a boa oportunidade. Eu a toquei e todos os outros sumiram dali. Desequilibraram-se das cadeiras onde estavam sentados e saíram os três correndo dali. Ela continuou parada de costas pra mim, como se estivesse esperando.

Meu rapaz, eu encostei meu nariz no pescoço dela no exato instante que a abracei pelos quadris e senti que ela teve um pequeno sobressalto (e sorri para mim mesmo). Ela inclinou o pescoço e eu apertei com mais firmeza…

Ei boneca, me diz o quê que ta acontecendo com o pessoal…

- Oi?

- Quê que esta acontecendo?

- O que ta acontecendo, Alb, é bem simples.

Ela se virou para mim com uma cara de surpresa e começou a falar:

- Bom, cara. Você fala muito baixo! Tem que falar mais alto e tem que falar coisas mais interessantes também! Estou sempre sentada no meu canto quando você aparece e… Poxa! Ah, mas como eu sou boazinha… Fico lá no meu canto mesmo depois de te ver aparecer, andando desse seu jeito estranho. Deixo de lado toda a preguiça que todo mundo tem de você só pra simpaticamente ouvir toda a mesmice que você vem falar no meu ouvido! Alb, você tem que ser mais interessante e…

Eu não esperava ouvir tudo aquilo, mas acima de tudo não esperava ouvir da forma que ouvi. Não sei como não fiquei mal na hora pelo que ouvi, mas… Ela babava enquanto falava e fazia aquela voz fingida como se caçoasse de mim, não liguei para o que ela disse, mas aí ela começou a me rodear enquanto falava babando toscamente… Nesse instante não tive como evitar nervosismo e segurei firme alguma coisa que tinha pegado sem perceber com a mão esquerda só para ficar me distraindo enquanto andava lá em cima.

Caramba, eu tive que fechar os olhos…

Ouvi dois mugidos.

Quando abri de novo os olhos ela não estava mais do meu lado. Graças a deus. Não queria ter que encará-la de frente de novo. Não conseguiria.

Mas agora havia sangue até meu tornozelo. Perdi meu olfato! Por algum santo motivo fodido não conseguia sentir o cheiro daquele lago vermelho que cobria meus malditos pés e dei graças a deus por não conseguir.

Foi naquele momento que tive medo de não haver saída para aquilo. Não tinha mais como subir de volta. Estava tudo malditamente emplastrado de sangue, como se ele tivesse caída dos céus e respingado em cada lajota de azulejo. Nos últimos degraus tinha carne morta e…

Carne morta e principalmente quente como o sangue que encostava na pele da minha perna. O sangue repugnantemente morno e vivo. Sangue de instantes atrás.

(Não vi nada! Estava de olhos fechados. Nada, nada! Senhor, obrigado por me poupado desse instante perdido odioso).

Aí eu corri.

Ainda não entendia como não tinha me abalado com o que ouvi. Na hora, naquela exata badalada que corria espalhando ondas escarlates de ala em ala o que me passava pela mente era apenas entender tudo aquilo… Antes mesmo de ir embora. Talvez fossem até a mesma coisa, mas a princípio eu queria compreender a armadilha que eu tinha me colocado.

E Foi no pátio em que percebi que já tinha perdido a contagem dos pátios há um bom tempo que eu vi. Aquela cena horrorosa!

Não consegui ver quem era quando me deparei com tal. Maldição! Não entendi coisa alguma. Era tentar ver o tempo passar pelo relógio… Eu olhava para aquela moça encharcada de sangue, gritando. Fora do meu foco todos corriam… Eu via a Gala, Áuria, via Otová tentando escalar para chegar à plataforma, via Milou… via Lapa também… Aliás, ver eu não via, por que eu só via Crania ensangüentada e gritando na minha frente, virada para os outros, mas sabia que eram eles que corriam de um lado para o outro. Quando eu tentava me concentrar no ambiente eu só os via saindo daquela ala. Via apenas seus pés e se prestasse um pouco mais de atenção eu não via nada. Aí voltava a me concentrar e eles voltavam a aparecer fora de foco.

Tive o ódio mais ígneo de toda a minha vida e olhei rubramente para Crania com o corpo inteiro molhado de sangue. Aí quando entendi o que ela gritava, corri antes mesmo dela terminar de falar aquela palavra com M

 

GENTE FOGE DAQUI! O MANÍACO! VAI MATAR TODO MUNDO, CORRE, CORRE! ELE VAI CHEGAR, GENTE!

Eu não vi nenhum abatedor apesar de ter certeza de que eles estavam por ali fazendo seu trabalho sem ligar para as adversidades. Aquilo tinha bem a cara de Crania. Criar aquele escândalo pra chocar todo mundo. Trazer más memórias acerca da carne. Mas ainda assim eu saí correndo. Disparei dali desesperado.

Corria, escorregava e perdia o equilíbrio despencando naquela poça enorme. Levantava aflito e continuava a correr. Ala a Ala, sem coragem de olhar pra trás.

Mas foi aí que entrei em algum lugar diferente, foi quando as alas finalmente deram lugar a uma grande sala fechada e com iluminação fraca. O sangue ainda tangia a sola dos meus pés.

Dei dois passos firmes em frente e outro mugido irrompeu o silêncio frágil que eu tinha conseguido manter.

Eram bois… Não fazia sentido querer saber nada além de que se enfileiravam roboticamente pela sala em duto estreito que terminava num… Num…

Não sei bem o que era aquilo. Uma porta em forma de boca, só que… Poxa… Aquilo era burlesco… Todos sorriam e entravam com um passo humano na grande boca. Esperavam paciente e simpaticamente parados pela sua vez. Sorriam como o céu.

(a lâmpada piscando)

Mas por que eram tão bruscos naquele ultimo passo antes de cair na garganta do abatedouro era o meu mistério.

A luz fraca que piscava de vez em quando dizia que não havia retorno. Havia apenas uma gasosa parede escura no lugar por onde entrei.

(Mais um boi é engolido inteiro)

Me aproximei das cancelas daquele duto enorme e tentei entender uma ultima vez o que havia por trás daquele sorriso enigmaticamente assustador na cara de cada um dos (A LUZ PISCA) garotos que…

TERCEIRA LEVA!!!

Vi.

Vi e então recomecei a correr à medida que o gritante alarme vermelho acelerava a fila indiana a projetando para dentro da boca mecânica que parecia dolorida depois de tanto tempo diante dos meus olhos.

Não ponho muita fé no que vi. Naquele minucioso lapso em que a luz piscou mais fortemente eu provavelmente já não estava presenciando cada momento irrisório que se sucedia na eternidade daquela sala.

Estava correndo. O Maníaco estava por perto, convenci-me. Burrice! Estupidez eminente que me deixou letárgico observando os…

Entrava por salas escuras, fazia curvas acentuadas como nós no espaço e ia me enfiando nas profundezas daquele lugar que há tempo já adquirira o cheiro vil da podridão.

Ainda sentia o sangue se espalhar com minhas pisadas cansadas e lentas. Nunca mais sairia dali.

Duvido que saísse.

Nunca me convenceria de que o mal se fora. Agora que chegara tão perto da morte… Percorrera distâncias a um passo de se misturar a todo o sangue…

Depois ninguém viria me avisar de que o homem se fora. Estavam todos… Acho que ri de mim tentando pronunciar essas palavras, mas era isso. Todos estavam de quatro numa merda de esteira se preparando pra virar picanha, maminha, alcatra e tudo quanto é porcaria pra alguém comer num churrasco de meninos de 14 anos que se acham gênios por colocarem as mãos numa garrafa de vodka.

Mas vou levando fé em continuar aqui até conseguir sair por mim mesmo.

E eu… Eu estava encolhido no meio de um círculo de vasos de pedra no meio de uma sala sofrendo com os malditos ecos. Minha ultima queda, dessa vez sem segundo turno. Não havia mais lugar algum para ir. Não havia mais lugar para se chegar. Não havia mais lugar a partir do exato instante que me levantei sem conseguir entender com chegara ali. Fiquei

Eu levantei-me arrepiado e fui até o brilho fluorescente do interruptor de luz daquela salinha. Espremi-o com calma. PÁ.

 

Muito bem.

Não vou ficar embromando. Chega de fingir a surpresa que sinceramente não senti em cada um dos momentos que falei.

Não quero, na verdade, é parecer muito perturbado pelo que conto… O que aconteceu, não aconteceu rápido e de forma tão confusa assim. Na verdade foi monótono e melancólico. Até os gritos de Crania tiveram tempo de ecoar. Apenas, por favor, não leve a mal e não me chame de egoísta quando pergunto por que eu era a única coisa no abatedouro inteiro que não me sujava com o sangue.

 

Chega. Estou aprendendo a contar histórias.

Tudo que vocês precisam muito de saber antes de eu me deitar e sossegar-me é que 48 horas depois as coisas já tinham voltado completamente ao normal.

Quando me toquei, eu já estava sentado no gramado da escola e…

- Alb, Milou e Lapa estão em paz agora…

- É, eu soube.

- Soube?

- Sim, sim. Uma sacanagem, mesmo, não entendi…

- Não sabem quem matou os dois. Está sendo horrível estar aqui hoje, mas parece que o Rafa vai embora hoje mesmo, não sei como é o esquema, mas eu vou ficar até o fim.

- Ei, eu não queria ficar falando sobre isso… Escuta, vou dar um rolé.

- Desculpa, desculpa, Alb! (sorria)

- Não, não esquenta. Só não quero ter que ficar pensando nisso.

Acho que o meu ultimo erro antes da despedida do rafa que coincidiu com aquele dia macabro foi ter ido atrás dela. Bati na tecla.

Achei que poderia enfrentar minha garota nos olhos de novo e realmente pude. .Áuria estava sorrindo do lado de Crania, que também sorria. Mas era o sorriso de Áuria que eu queria pra mim. E sorri pra ela também. Sorri com a alma pra ela e ela alargou o sorriso.

Ela e o resto das pessoas do meu mundo… Todos sorrindo como o céu.

Foi então que fui puxado para a grande fila que escoltava Rafa pelo corredor. O garoto-piada segurando a vela como um assecla enquanto conduzia a multidão. Muitos comiam uma espécie de pão recheado. Todo mundo, sempre existiu esse esquema de alguns perguntarem o recheio do que era servido e quase nunca comerem após a resposta.

Só que dessa vez ninguém perguntou nada. Simplesmente foram pegando os pães recheados de carne no vaso de pedra e mandando para dentro.

Em seguida, foi o Rafa que apontou-me com suas mãozinhas tortas. Acho que a multidão me levantou e começou a me jogar para cima enquanto outros apenas comiam vigorosa e violentamente aquele pão, o levantam deixando sem querer seu recheio cair algumas vezes. E foi isso.

As vezes penso que seria ótimo se todos os meus problemas, dúvidas e necessidades virassem recheio de carne para pão.

Certamente algumas perguntas ficaram fedendo, repito.

Metagrafia nº3 (Cansado do passo-a-passo para se fazer qualquer-coisa ?)

Postado em Metagrafia em Outubro 13, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Hoje fui no teatro.

Já devem ter te contado alguma coisa sobre a palpabilidade de se ver alguém brincando de  vida. Mas a singularidade que qualquer coisa ganha ao ser encenada é indescritível.

Mas você tem que ir sozinho. Vá sozinho mesmo! Não crie perspectivas para alimentar agonias quanto ao infeliz do seu  acompanhante cutucando o celular, aturdido com uma ligação escandalosa. Não crie perspectivas para a audição de comentários que vão demandar muita sorte (Muita sorte) para encaixarem-se aos soquetes com ar misterioso que sua própria mente vai criando. Leve seu corpo e sua mente. Só os dois. e deixe os dois namorarem gritantemente enquanto vão descobrindo aos pouquinhos as revelações que um caminho completamente desconhecido, mas ainda assim, sinonímico à vida irá te mostrar.

E Nunca! Nunca procure ir atrás dos atores depois da peça. Sobretudo se a peça tocar e trincar o âmago vítreo do seu ser. Continue… Viva e morra pensando que o momento em que as cortinas se fecham demarcam o instante que aquela crônica daquelas pessoas se conclui. Considere os aplausos e tudo mais m-e-r-a-f-o-r-m-a-l-i-d-a-d-e rude e emplastrada de realismo insensível que só está ali para cortar as raízes do mais próximo de uma magia humana. Tenha ódio ou contemplação pelo vilão quando o vir rindo descontraidamente no barzinho e glorifique ou crucifique o protagonista quando o vir fumando um cigarro apaticamente enquanto toma um c-a-f-é-n-t-e-d-i-a-n-t-e num desses momentos de eventualidade parabólica.

Achei que o cinema tinha me adotado e tinha se tornado um pai egoísta e inflexível e isso era irremediável. Mas eu não teria conseguido viver sem esse lado mais delicado e melindroso da arte e acabei me prendendo ao teatro também. Dividido.  (Ja estabelecidas as regras de convívio.)

Mas nem era necessário tagarelar tanto assim…

Só não queria um post vazio, no estilo COMUNICAMOS A TODOS QUE  (Segue o exemplo):

[O Blog estará em hiato a partir do dia 13 de Outubro (tempo de recesso indeterminado ou apenas com uma ocorrência menos prioritária de atualizações aqui.) em função de projetos paralelos do autor (Literários também) que terão projeção mais futura.

Grato, o mesmo]

O Fôlego de Marte

Postado em Acusmas, Devaneios em Setembro 22, 2008 por Gabriel Castilho Gil

inspira…

(*  *  *

I Ato

Cada passo bem marcado até o início de um pesadelo é como sentir o hálito ígneo da fera que adormece plenamente, porém sem adormecer a imponência que a produz.

Os homens conseguem enxergar um no outro o próprio medo flacidamente travestido de rigidez uniforme pela expressão neutra. Alguns deixam mulher, filhos, parentes queridos, muitos ou poucos amigos, planos, saudades, outras dores e outros medos, sensações vividas e lembranças. Sempre muitas lembranças. Alguns caminham ao lado de amigos. Caminham ao lado de bons amigos com a mesma indiferença inerte dos poucos segundos que antecederam o seu primeiro contato.

No dia em que acorda, a manhã nublada e o estranho sentido que o primeiro instante do despertar ganha, torna tudo já vivido, conhecido ou caído em rotina, novo. A água tem o gosto substancial que a sede de um dia quente a remete. Cada batata partida parece liberar um suave e delicado vapor colorido de eventualidade… Aquela mesma surpresa subtil de se encontrar um trevo de quatro folhas. Os Cabelos da mulher têm um brilho formoso, a expressão de seu rosto volatiliza de uma vez todas as fascinações vividas desde o primeiro instante em que estiveram juntos. A cidade parece nunca ter sido tão pitoresca. Todos compartilham a amenidade inquestionável mesmo ja compartilhando a áspera tensão desde que a califonia natural do dia-a-dia começou a murchar.

Cada mau bom homem acorda e vê seus comuns definhando diante do invólucro insignificante de algo muito mais funesto. Fitam em pranto tristes olhares embarcando e se perguntam se algo mais seria capaz de replementar o sofrimento

Nas terras estranhas em que chegam, a angústia se mistura aos simulacros de crueldade, à confiança forjada e principalmente o medo.

Alguns exalam bom humor, repetem frases de segurança e se mostram estar ali como simples e temporários arredios. Desatado da rotina por alguns poucos dias. Mas no âmago de todos jaz a certeza de que a Terra agora parece um animal trasmalhado do resto do universo e enquanto se dirigem ao cerco mal notam as calmas notas da melodia do existir transformarem-se numa sinfonia do inferno.

*   *   *

II Ato

De repente nada mais parece funcionar da forma a que se está acostumado. A fome, as pestes e a morte parecem mais compreensíveis do que o alívio, a coragem e a esperança. Pela primeira vez em sua vida, cada homem consegue projetar sua determinação em algo que não acredita. Mantem compostura e firmeza em cada situação que além de não querendo entrar ainda acaba encontrando obstáculos intransponíveis.

O imutável destino da caminhada rítmica eleva tons cromáticos na escala desastrosa em que todos os caminhantes se esforçam para harmonizar. Os participantes ocultam seus olhos, fingem ter almas opacas para aqueles que os manobram e gastam o resto de sua energia mental em carregar uma ira artificial e um pavio para detoná-la.

E atingem então aquele compasso mais robótico na música. Cada um com uma fúria criada ao seu estilo, esquece-se instantaneamente do coletivismo impresso em tinta barata e tornam a composição de sua fúria a marca máxima de sua presença individual.

Naquele lapso imensurável conseguem em uma realização única na vida mesclar uniformente a existência psicológica com a existência real. As fúrias em ritmos alternados, contrapontuadas por ambos os lados se chocam violentamente numa dissonância afônica. O campo extenso de terra marrom clara e seca que atiça o desespero encasulado dos homens temedores da solidão de ermas terras é o que mais perto chega de convencer o pandemônio sincopado de explosões, rajadas e estrondos a revolver-se ao apático adágio que as sombras de marte engendraram sobre suas almas até aquele instante.

*  *  *

III Ato

Tudo indica que o clímax de tudo aquilo há de chegar em breve. Só há vazio em cada torrente de atos que se propulsiona dos iracundos homens-dos-dois-lados. A palidez do céu  vai se tornando sombria como um primeiro sinal de tempestade e os raios tangem a terra sem que os homens julguem os deuses quanto ao lado que tentam ajudar. Trovões marcam o pulso veloz  daquela mesma música tenebrosa. O medo que um dia se espalhou de rumores, de conspirações e segredos impregnados em xícaras de chá que transbordam em seus pires, o medo que se movia como um vapor venenoso que vaza de um barril que se rompeu… Esse medo agora saía dos buracos dolorosos no corpo daqueles que caíam inconscientes no campo de batalha, Adormecia nas lacunas do tambor de armas bem usadas ou nos grãos de salitre que penetravam a carne fraca e assustada de um homem. O Desespero se instalava na troca de ar rápida fria entre os que gritavam correndo de um lado a outro e aqueles que ainda conseguiam segurar uma arma.

E o clímax, mal situado por silêncios que até então nunca apareceram, chega repentinamente, sem ensaios junto com a chuva extrema. O temor não deitara. Com os olhares cautelosos eles caminham trôpegos de um lado a outro procurando um norte… Os que restavam percebiam aos poucos que as explosões ja não mais ocorriam, que os disparos não mais cortavam o ar e que os berros, o choro afobado e a troca infrutífera de informações bradadas ja não eram tão palpáveis.

Os corpos coalhavam a terra enlameada sem cerimônia. Quase nunca mostravam rostos. Todos se deitaram como se executassem a expressão de rosto que ensaiaram durante todas as marcha. Alguns homens rondavam mancos chutando com delicadeza companheiros, à procura de um sinal de vida. Muitos choravam diante dos corpos daqueles que eram amigos. Muitos sentiam frio. Muitos sentiam dor. Todos sofriam.

*  *  *

IV ato

Mas em algum instante, sem que ninguém se preocupasse em registrar, a chuva parou. O Cansaço era carregado de um lado a outro, como um peso morto a muitos que ajudavam a enfileirar os corpos aliados e inimigos. Suas mentes circundavam um vazio denso que os colocava horas inteiras em posições estáticas.

Certo momento, alguém olhou para o céu.

As nuvens se moviam rápidas e amorficamente . A escuridão ia se dissolvendo em nuvens que se afastavam carregando um plácido brilho alvo. Então o sol vespertino surgiu e fez cada um dos homens olhar para o céu. Todos quase ao mesmo tempo perceberam que um brilho de aspecto novo transversava os extensos campos de marrom penetrante, escuro e úmido e iluminava os muitos corpos arrumados naquela interminável fileira. Cada homem vivo e ainda aturdido conseguiu encontrar no seu tempo o restante de força-de-vontade que precisava para reanimar a esperança há muito tempo morta. Esperança de voltar a arriscar uma melodia delicada e adagiosa cantada por vozes celestiais.

A Guerra acabou.

Mas pela dor e o choque que costurou cada homem de uma forma diferente à lembrança da guerra, a melodia só poderia ser cantada por aqueles homens que lutaram juntos e definharam diante do inevitável curso do fôlego de ares.

*  *  *

…expira.

*  *  *)

Baseado na peça musical de David Gilmour, Nick Mason, Rick Wright e Roger Waters; A Saucerful of Secrets

Metagrafia Nº2

Postado em Metagrafia em Setembro 10, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Talvez o maior problema de escrever apaixonadamente esteja no fato de que não somos capazes de comprimir a vida graficamente.  Existe um sem-número de sentimentos sem-nome por aí que estão ao alcance de qualquer um nos momentos mais humanos e menos artísticos de cada um (ou menos humanos e mais artísticos… Arrisco dizer que a diferença do que é humano para o que é artístico é quase nula).

O poeta é o mestre em extrair do cerne de sua subjetividade algo que vá se tornar interessante para alguém em alguma dimensão de admiração. Eu,tu,ele, nós, vós, eles não entendemos o que o poeta de alma quer dizer, se é que ele quer dizer alguma coisa. Se analizamos de forma geométrica e tapada a sua criação percebemos que não seríamos capazes de sentir o que ele sente em hipótese alguma. O fator que nos leva a gostar de poesia talvez seja da mesma natureza do qual nos faz odiar. Odiamos poesia pois não entendemos bulhufas do que o homem quer dizer, ou se achamos que entendemos é sempre estúpido demais para nós. Amamos poesia justamente por que não entendemos o significado de forma alguma, só sabemos que por mais único e pessoal que seja o sentimento expresso ele é humano e quase sempre acolchoado com belos jogos de palavras. E pelo humanismo, algo dentro de nós faz entender a arte do outro. Tal altura atingida em que criamos afinidade com a matéria artística, talvez mude sem que saibamos toda a nossa compreensão a respeito disso: No humanismo que me liga ao poeta há sempre a possibilidade de um dia vir a sentir o que o poeta diz nas suas estrofes sem saber que compartilhamos o sentimento.

São as traiçoeira palavras.

Sentimentos iguais nos fazem através do lirismo escrever coisas diametralmente diferentes.

Mas quem sou eu para reiterar isso? Adoraria ter a certeza pleonásticamente absoluta de que sou único em minha dinâmica sentimental. Regozijar-me ao ver que os outros admiram não o que diretamente escrevo, mas o que indiretamente sinto.

Mas é bonito, não? Pensar que talvez admiremos a arte de alguem simplesmente por ela ser humana.

Acredito no melhor das pessoas, mas como taxa de erro e/ou via das dúvidas….

Procuro não escrever poesia.

=)

A lividez de nosso amor

Postado em Acusmas, Contos em Setembro 10, 2008 por Gabriel Castilho Gil

Ela morreu numa quinta-feira. A causa da morte não virou assunto para ninguém. Quando ele acordou ao lado dela, àquela manhã, não houve mais assunto.

“Acordou e a primeira coisa que apareceu-lhe aos olhos foi o pomposo relógio de parede marcando quase dez horas. Os passarinhos faziam algazarra lá fora e a manhã tinha quase cheiro de céu claro e sol forte.

Ergueu-se sentando na cama e fitou a mulher com curiosidade durante alguns segundos.

- Dormindo… – Concluiu num sorriso delicado; deitou-se novamente, dessa vez apoiando a cabeça sobre os braços. ”

O relógio de parede foi, segundo ele, um presente completamente arrogante da mãe dela. Trouxera na sua última extravagante visita à filha. Escolheu o lugar do monumento com tanto descaso que extraiu dele o mais simpático “Aqui-não-é-a-sua-casa” que ele conseguiria produzir. Ela apaziguou a tensão entre a mãe e ele, mas o relógio continuou no lugar que a mãe escolheu.

“ Ele olhou para ela novamente e um arrepio quase prazeroso o envolveu. Uma das coisas que mais gostava nela era aquele sorrisinho que parecia persistir em se estampar em seu rosto, mesmo quando estava séria ou neutra.

Quando os dois brigavam e ele, por mágoa, ficava na varando onde ela não costumava ir, lembrava-se desse sorriso de canto de rosto. Sorriso que certamente fazia parte da feição dela o tempo todo. (Caramba!)

Não sabia o que se passava com ele, mas uma torrente de bom humor envolvia cada milímetro do seu corpo e (Ora bolas…)… Era inevitável. Ele ia lá tentar fazer as pazes.

Ela tinha aquele sorriso naquele instante. Ele a abraçou e encostou a boca em sua nuca. Pegou-lhe a mão gelada e cobriu o resto do corpo imaginando que sentia frio. ”

Conheceram-se há muitos outonos através de amigos. Ela o achava tímido e meio sem-graça, meio sem jeito… Ela também falava muito pouco e ele lembrava-se que até os 16 anos ela vivia ficando doente e quase nunca saia com eles, mas também se lembrava que ela tinha decorado de cabo-a-rabo o livro favorito dele “Anna Karenina”. E ficaram até tarde na pracinha do bairro, onde descobriram que eram vizinhos, trocando figurinhas e passagens do livro.

“Ele deu uma gargalhada silenciosa quando percebeu que só conseguia se lembrar desse tipo de coisa. Aninhou o nariz no cabelo dela e deu um beijo na sua nuca… Também meio fria.”

Naquela época ela usava batom roxo sempre que eles se encontravam. Ele usava cabelo espetado, mas ela o convenceu a parar de usar, pois sempre que se encontravam mexia tanto nele que em questão de minutos a mão dela ficava cheia de gel e o cabelo dele bagunçado. Percebeu que, desde que começara a sair com ela, nunca mais conseguira deixar o cabelo em pé e por isso deixou-o crescer.

Eles saíam pra ir ao cinema no mínimo duas vezes por semana e ele gostava muito dessa rotina. Mas aí ela começou a levá-lo para ver filmes mudos da década de 20 num cinema bem antigo do centro da cidade. Do xadrez, com ela, ele aprendeu a gostar; do piano, como adorava música lenta, adorou que ela o ensinasse, mas nunca se afeiçoara a filmes preto-e-branco (Os mudos principalmente).

Trocaram o rotineiro cinema por passeios longos. E sustentaram isso até ele entrar pra faculdade de ciências contábeis (Fato que ela nunca entendeu).

Nessa época ele a ensinou a pescar e a convenceu a acampar pela primeira vez. Ela não mudou de idéia quanto a isso: Pescar era um saco! E esperneava quando ele propunha novamente. Mas acampar se tornou tudo. Foram várias vezes no ano que passaram a noite olhando para o céu dando nomes para as estrelas e tentando relembrar os nomes já dados.

“ Desde que meditara no relógio que ganhara da sogra, alguma coisa em segundo plano o incomodava, mas não conseguia encontrar uma definição para o que sentia.

De repente percebeu que o contato com ela era quase vazio. Abraçou-a com mais força e fechou os olhos. Duas lágrimas correram desimpedidas pelo rosto dele. ”

Eles romperam e voltaram várias vezes com o que construíram juntos. Ele ficara meio sem-vergonha e ela ficara um pouco mais falante depois de ficarem tanto tempo unidos.

Ela era astróloga e ele trabalhava com cinema. Ele não tinha mais cabelo e batom roxo já não combinava mais com ela.

Depois da última vez que voltaram, ficaram juntos vinte anos, mas nunca se casaram oficialmente.

Os dois ainda se divertiam com trechos de “Anna Karenina”.

Um dia antes de ele estar abraçado a ela, perguntando-se por que ela estava tão fria, tinham feito amor… ali, onde estavam agora, ‘acordado e dormindo’.

Ela ofegava ao lado dele e o suor escorria pela sua pele clara. Ela virou-se para ele sorrindo e ele notou o s seus longos cabelos castanhos emaranhados, bagunçados e escorridos sobre o seu rosto. Ela tinha um ar bobo naquele momento que o fez rir.

Os dois riram durante vários instantes até que ela se deitou sobre ele simulando uma seriedade. ”

“ – Sabe… Desde que ficamos juntos pela primeira vez, há… bom, faz muito tempo não é…? bem… eu.

- Diz… – E ela mordeu os lábios e olhou pro lado.

- Eu não sou mais jovem há um bocado de tempo e… hum…. você também não, é claro – Os dois sorriram. – E tampouco estou na fase mais jovial, energética e, de certa forma, harmoniosa da minha vida. (Ele sentiu um entorpecimento sutil fluir em cada ponto onde a pele nua dela tocava a dele.)

Mas acho que pela primeira vez desde que nos conhecemos posso me apoiar na…

(e sorriram juntos…)

… na certeza de que poderia morrer agora, nesse instante de.. de tão feliz que estou e sou e… (As mesmas duas lágrimas quentes emergiram dos olhos dela)… e se as pessoas buscam um sentido maior para vida, elas… Bom, elas vão ficar muito desapontadas quando descobrirem que não é nada mais do que isso.

Ele a abraçou com força e as duas lágrimas que ela derramara já se confundiam sobre os rios que sua emoção não conseguia represar.

E aquela quarta-feira se foi com a noite. ”

Ele segurou o pulso dela durante longos e estáticos minutos. O frio do corpo dela agora congelava a alma dele.

Ele deitou-se sobre ela calmamente e aproximou o seu rosto do dela. Encostou sua boca na testa dela e arrastou-a lentamente pela sua bochecha esquerda, pelo seu queixo, pelo seu pescoço.

(Chega.)

não há vida aqui

E o peso do que evitou pensar esmagou sua alma, vítrea. TRINCADA pelo toque vazio do corpo dela. Ele minguou. Encolheu-se. Apenas encolheu-se.

Levantou-se sobressaltado. (O quarto frio).

Seus olhos, vermelhos mas sem lágrimas.

(A lividez estava em algum lugar por ali. Espalhada. Rastejava e buscava fôlego).

O relógio parara em 10:15

(O tempo morreu!)

Fitou-a com ilusão, com os olhos enevoados e acariciou o seu seio esquerdo nu que estivera descoberto.

(O tempo é que morreu.)

- Sorriu.

(Para os dois).

E ficou ali.

Não há nada que se suportar. A água flui viva, mas o tempo (MORTO! Está Morto! Morto!) transforma melancolia quente em vazio é com lágrimas criostáticas.

Partiram. (cobriu os dois com a lividez).

(A flor murcha esmigalhou cada caco com um peso flácido)

Foram juntos (Mas os pés dele ainda estavam descobertos. Cobriu-os).

Pó e pó

O fim que eles queriam ter vivido era um filme sobre estrelas.

V I D(A M O R)T E

O Curso do Aqueronte

Postado em Contos em Setembro 7, 2008 por Gabriel Castilho Gil

120.000£ – Que beleza!

Ajeitaram cuidadosamente os quatro sacos e então entraram, os dois, naquele bote de aspecto frágil e pouco confiável. O espaço era o ideal e nem mais meio além dos seis poderia estar ali enquanto remavam afobados para bem longe daquela terra asquerosa.

Mas os pensamentos já ameaçavam entorpecê-los.

Fora, em si, um dia bastante complicado. O mais magrinho dos homens descobrira que a mãe morrera naquela madrugada gélida de sexta feira.  Tuberculose; Não conseguiram pagar o tratamento e… ah! não era só isso! Todo dinheiro que haviam conseguido juntar só serviu para pagar ao médico que diagnosticou a doença. “O Bastardo debruçado na cama da pálida senhora levanta-se sério, o olhar opaco… Dá umas duas voltas pelo quarto e (Por que esse paspalho não fala logo…!?) enquanto escreve num bloquinho amarelo alguma coisa, pigarreia com aquela mesma seriedade desumana… Como se treinasse manter a compostura para uma má notícia (Sua mãe tossindo secamente). Ele pára de repente. Arranca o papel cor-de-peste e lê com sua voz rouca o atestado de óbito para dali a dois meses que se adiantara em escrever”.

- REMA! Não vamos chegar em Southend nunca com você olhando pra cima!

E os dois remaram. O mais gordinho recebeu uma visita do amigo na sua casinha em Bethnal Green. Ele não estava bem. Contou-lhe tudo sobre sua mãe… de como informou a um oficial sobre seu óbito, em prantos, e a viu sendo retirado da cama como um objeto quebrado e logo depois jogada no rio. Desistiria do plano para aquela noite. Foi quase que como uma pedrada brutalmente lançada em sua face, mas era uma decisão compreensível. Mesmo assim o encorajou. Os últimos dois meses foram de grande ambição. Se o país não pudesse ajudá-los pelas suas leis, eles conseguiriam a ajuda fora das leis do país. O dinheiro seria para o tratamento de sua mãe e quando ela estivesse boa fugiriam dali para algum lugar no País de Gales.

Conseguiram abortar um cocheiro-oficial e levar quase todo o conteúdo transportado para o Banco de Londres até a repulsiva margem do Tamisa ao sul de Londres. Pretendiam atracar se não em Southend em algum lugar bem oriental do condado de Kent. Chegariam em West Sussex até dali a 12 horas. Iriam acampar em algum lugar  e até a metade da próxima semana atingiriam Somerset. Dali para Gales era um pulo.

Mas a mesma realidade que lhes dera todo aquele dinheiro, retirara todo o sentido que fora conferido a ele.

O grande êxtase do dia praticamente surgira e sumira no momento em que os dois colocaram a mão nos sacos de brim empanturrados de notas. Naquela altura, provavelmente já estavam bem longe de qualquer preocupação, mas a excitação se esvaecera toda. Fitavam apáticos as águas lodosas e densas do rio. De vez em quando, enquanto remavam, miravam o céu acinzentado e opaco que cobria a noite. Remavam anestesiados pelas seqüelas do dia que ficava para trás. Talvez a glória não fosse tão palpável quanto a fina solidez de todo aquele dinheiro.

A água os levava para a nova vida que morava longe, mas estava carregada de morte em seu comprimento. Os corpos os acompanhariam enquanto fugissem. Lúgubres rostos esverdeados, olhares chocados ou serenamente fechados por pútridas pálpebras ainda muito viriam à superfície. A sombra da peste branca nadava a braçadas vertiginosas no curso do Aqueronte inglês.

Foi no instante em que o rio ganhou um pouco mais de velocidade conferindo um pouco mais de vitalidade ao pensamento dos dois abalados homens.

O Dinheiro poderia mesmo curar alguma coisa?

O mais magro sorriu e o mais gordo tossiu.

- Se a morte nos alcançar antes que alcancemos a salvação, já temos as nossas moedinhas para atravessar com o gondoleiro do inferno.

- Acha que corremos o risco de ficar aqui remando para sempre?

- No rio afluído pelos mortos, não se pode fazer nada para sempre não sendo um também. Mas isso não importa. A questão, meu rapaz, é que com todo esse dinheiro aqui não haveria um morto a vagar pelas margens dessa serpente lívida esperando uma forma de atravessar com Caronte.

- Os dois explodiram em gargalhadas secas permeadas por tosses agudas e vermelhas. O gordinho fuçou desajeitado um saco de dinheiro à procura de alguma coisa. Alguns segundos depois retirou duas moedas douradas.

- Acho que fomos tocados pela morte.

- Fomos. (E naquele instante se convenceu de que mesmo todo aquele dinheiro não poderia ter trazido sua mãe de volta)

- Não sei quanto a você, mas eu quero um quarto bem luxuoso ao lado de Hades.

- Não fico pra trás também!

- Como se tivessem combinado telepaticamente, os dois derramaram todo o dinheiro dos sacos nas águas acinzentadas e nefastas do rio. Dezenas de moedas de ouro e Milhares de libras em notas lisas e amassadas caíram umidecendo-se rapidamente. Os dois entreolharam-se e colocaram juntos, cada um, sua moeda dourada na boca.

Pularam do barco e caíram estrondosamente no rio.

Afogaram-se em uma passividade mórbida um tempo depois.

Naquela noite todos os derrotados conseguiram pagar sua passagem para o mundo dos mortos.